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1910: Marinheiros em armas

Chegamos ao 5º capítulo da série “A história oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro”, justamente em um dos momentos mais emblemáticos de nossa história nacional e uma das mobilizações mais emblemáticas da classe trabalhadora: a Revolta da Chibata.  

Natanael Sarmento – Redação Pernambuco


HISTÓRIA (Parte 5) – Predominava a produção agrária voltada para o mercado externo. Dos 23 milhões de habitantes, 67% viviam no campo. O poder federal alternava as oligarquias do pacto “Café com Leite” dos paulistas e mineiros.  O café representava 65% do comércio externo. São Paulo como maior produtor concentrava as grandes fortunas. Mas a população era menor que a de Minas e assim detinha 22 cadeiras na Câmara Federal enquanto os mineiros ficavam com 37.  Mas os barões mineiros faziam o papel do “segundo violino” da orquestra do poder. A aliança “café com leite” vez por outra desafinava.

Na eleição presidencial de 1910 as duas oligarquias disputam o centro da ribalta. E apresentaram candidatos diferentes à presidência da república. Os mineiros emplacam a candidatura do General Hermes da Fonseca, sobrinho de Deodoro, o “fundador da República”. As oligarquias da Bahia – segundo colégio eleitoral ao lado de São Paulo –também elegia 22 deputados federais – com Rui Barbosa candidato à presidência. O advogado Rui faz a “campanha “civilista” para convencer o eleitorado das diferenças meramente simbólicas, da “Lei” contra a espada. Os dois candidatos representavam oligarquias dominantes localmente e influentes nacionalmente.

Eleição

Hermes da Fonseca é eleito presidente com 403 mil votos. As oligarquias paulistas e baiana e outras delas aliadas, não aceitaram a derrota. Fizeram ampla campanha de denúncias de fraudes. Prática normatizada nas eleições à bico, por todos os lados. A vitória da fraude mineira não foi diferente das outras eleições.

Nesse clima de denúncias a governança de Hermes passou por crises e a espada recorreu às decretações de Estado de Sítio e intervenções federais nos Estados da oposição. Com sua “política de Salvação” Hermes depôs governadores no CE, PE, AL, RJ. Na Bahia, para impor o interventor J.J. Seabra, navios da Marinha de Guerra bombardearam a Capital, causando destruição e mortes, pânico na população. Prédios históricos como o Palácio do governo e o Teatro São João foram danificados no bombardeio. O General Hermes com veleidades de poderes absolutos parecia inspirado no General Napoleão Bonaparte do golpe de 1799 que encerrou a revolução francesa e implantou a Ditadura.

A Revolta da Chibata

Mesmo depois da abolição da escravidão a Marinha do Brasil açoitava com chibatadas como forma de punição os marinheiros, majoritariamente, negros e pardos. Esses castigos corporais e humilhantes em público para maior degradação do punido. Em 1910 eclode uma revolta histórica contra essa prática hedionda nos navios de guerra da Armada. O marinheiro Marcelino Menezes foi condenado a receber 250 chibatadas diante da tropa, sem direito a assistência médica.  Os demais marinheiros do encouraçado Minas Gerais, liderados pelo negro João Cândido se rebelam e tomam a embarcação. O Capitão João Batista reagiu ao levante e acabou morrendo na troca de tiros.

Com o controle da embarcação os amotinados se comunicam com os outros navios de guerra mais modernos da Marinha, e os marinheiros aderem à revolta rendendo toda oficialidade.

As reivindicações dos marinheiros – suspensão dos maus tratos e melhores condições de trabalho e salário – são enviadas ao governo. A mais bem equipada frota naval com canhões apontados à Capital Federal era argumento bastante convincente. Porém, o Presidente Hermes quis ganhar tempo, cozinhar o galo em água morna, para enfraquecer o movimento.

Disparos

Percebendo a protelação do governo e vendo a alimentação nos navios reduzir, os marinheiros resolvem pressionar de forma mais contundente. Disparam metralhadoras na praia e na ilha de Villegagnon. Diante da reação pública e do pânico o governo concorda com as reivindicações dos revoltosos e o Congresso Nacional aprova às pressas “anistia” para os rebelados. Contudo, o Presidente da república Hermes da Fonseca depois que os marinheiros suspenderam o levante e depuseram as armas não honrou o acordo assinado. Mandou prender na Ilha das Cobras e deportar para o Norte do país mais de 600 marinheiros amotinados. O principal líder desse importante levante de marinheiros, João Cândido, chamado de “Almirante Negro” na canção de João Bosco. Mas que morreu pobre vendedor de peixe da Praça XV, doente e esquecido, aos 89 anos, em 1969.

Levante do Batalhão da Ilha das Cobras

Duas semanas depois da “Revolta das Chibata”, em 1 de dezembro de 1910 os marinheiros do Batalhão Naval da Ilha das Cobras se amotinam.  Lutavam contra as condições insalubres de trabalho e os maus tratos no Batalhão Naval em terra. O Batalhão servia de presídio e lá estavam muitos dos marinheiros da Revolta da Chibata traídos pela falsa anistia do governo.

O Governo Federal bombardeou e ocupou militarmente a Ilha das Cobras. Mais de 600 foram deportados sem base legal para os rincões amazônicos. Cadáveres de “desaparecidos” jogados no fundo do mar e em valas clandestinas, não computados, oficialmente, como mortos. Mas nem todas as cenas desse crime puderam ser apagadas.

Chacina da Cal Viva

A chacina da cal viva na noite de 24 de dezembro de 1910 escandalizou a sociedade. A cal virgem (viva) tem substância corrosiva e tóxica altamente perigosa. Não é a cal hidratada de uso ordinário. A substância, altamente tóxica, foi atirada numa cela fechada sem ventilação, pequena e superlotada com 18 prisioneiros. Apenas dois amanheceram o dia com vida, o João Cândido líder da primeira revolta e o outro marinheiro João Avelino.

Era o Estado Brasileiro usando da violência para manter sua elite e a propriedade privada intacta. Mas essa Revolta virou combustível para outas etapas de lutas, que nós veremos no próximo capítulo.