Notícias

Brasil leva movimentos sociais e agenda democrática a encontro global em Barcelona

Por Fernanda Otero, de Barcelona,

A participação brasileira no Global Progressive Mobilization, realizado em Barcelona, na Espanha, marcou a articulação de movimentos sociais, organizações da sociedade civil, fundações e partidos políticos em um espaço internacional voltado ao debate sobre democracia, participação e enfrentamento à extrema direita. Reunindo 6.500 pessoas na Gran Fira, o encontro funcionou como uma arena de troca de experiências entre atores políticos e sociais de diferentes países, com forte presença latino-americana. 

O Brasil esteve representado por uma delegação plural de entidades e organizações, em uma agenda que combinou diálogo institucional, circulação internacional de experiências e defesa de uma agenda democrática. Para os integrantes da comitiva, a presença no encontro teve peso político em um momento de avanço de forças autoritárias em diferentes partes do mundo.

Articulação internacional e reorganização do campo progressista

Integrante da delegação de movimentos sociais, Rud Rafael afirmou que a participação brasileira foi articulada em conjunto com o Instituto Wladimir Herzog, reunindo representantes de movimentos urbanos, de trabalhadores, de juventudes e do sindicalismo. “Viemos nessa comitiva dos movimentos sociais brasileiros para construir esse diálogo com a sociedade civil organizada”, disse.

Segundo ele, o encontro revela um processo de reorganização internacional do campo progressista. “Acho que tem um elemento fundamental desse realinhamento de uma esquerda progressista no mundo a partir do que a gente vem construindo no Sul Global”, afirmou. Em sua avaliação, a experiência recente de países latino-americanos passou a oferecer referências políticas para outros contextos, inclusive o europeu, em meio ao avanço da extrema direita.

Ao comentar a relevância de participar do evento, destacou o intercâmbio de experiências em defesa da democracia. “Estar aqui escutando experiências de enfrentamento, de construção de uma rede global progressista em defesa da democracia cria uma barreira ao avanço desse totalitarismo”, afirmou. Para ele, o encontro também oferece subsídios para a atuação política no Brasil. “A gente volta para o Brasil com a bagagem para uma tarefa importante este ano: a disputa do processo eleitoral, nutridos dessas experiências que a gente encontrou aqui.”

De acordo com Rafael, a comitiva brasileira de movimentos sociais reuniu cerca de 20 pessoas. Entre as organizações presentes estavam MTST, MST, Movimento de Atingidos por Barragens, CUT, Marcha Mundial de Mulheres, Articulação de Mulheres Brasileiras e CONEM, entre outras.

Sociedade civil leva debate sobre plataformas e democracia

A presença brasileira não se limitou à delegação de movimentos sociais. Também participaram organizações da sociedade civil com atuação própria e agenda independente, ainda que em diálogo com representantes do governo brasileiro. Esse foi o caso da Artigo 19 Brasil e América do Sul, presente no fórum com foco no debate sobre liberdade de expressão, acesso à informação e regulação das plataformas digitais.

Co-diretora executiva da entidade, Raísa Cetra afirmou que a participação partiu do entendimento de que a crise democrática brasileira está conectada a dinâmicas globais. “A gente está na construção dessa articulação já há algum tempo, como sociedade civil brasileira, num entendimento de que a situação do Brasil tem reflexos na situação global”, disse.

Para ela, o combate ao autoritarismo e ao poder das big techs exige coordenação internacional. “Para conseguir vencer o autoritarismo ainda existente no Brasil e o grande poder das big techs, precisamos de uma articulação global, sozinhos não vamos a lugar nenhum”, afirmou.

Raísa também defendeu que o debate democrático sobre o ambiente digital deve envolver a construção de alternativas tecnológicas. “Temos que criar também uma outra tecnologia, tecnologias livres, tecnologias abertas, que permitam mais pluralidade, mais diversidade, porque isso é democracia.”

Ela pontuou que a participação da sociedade civil brasileira ocorreu com independência política, embora em interlocução com a delegação oficial, para construir “um espaço de articulação e de incidência pela democracia”.

Outra organização presente foi o Instituto Democracia em Cheque. Diretor de relações institucionais da entidade, Beto Vasques destacou a centralidade do debate democrático no encontro. “É muito importante articular um espaço em que a agenda seja a democracia”, disse.

Na avaliação de Vasques, o debate convergiu em três ameaças centrais: desinformação, desigualdade e desinstitucionalização. Segundo ele, “a utilização do ecossistema informativo é utilizada para gerar, a partir do medo e do ódio, a intoxicação social, para poder corroer as bases democráticas” em um método coordenado.

Ao tratar do embate entre liberdade de expressão e manipulação informacional, resumiu o desafio: “Efetivamente não queremos ser donos da verdade, mas não podemos ser cúmplices da mentira”.

A Secretaria Nacional de Juventude do Governo Federal esteve representada pela secretária Vitória Genuíno, com foco em democracia, multilateralismo e enfrentamento ao extremismo entre jovens.

“A importância da gente vir aqui, participar não só do evento, mas também articular diálogos com outras organizações e estabelecer essa conexão é para que possamos fortalecer a defesa da democracia nos nossos territórios”, afirmou.

Ela ressaltou desafios comuns entre Brasil e Espanha, como a organização da extrema direita para cooptar jovens e o aumento da violência contra mulheres jovens, além da importância do Observatório Contra o Extremismo da Organização Ibero-Americana de Juventude como ferramenta de análise e resposta.

Já o senador Humberto Costa, secretário de Relações Internacionais do PT, destacou o papel do partido no encontro. “A participação do PT reafirma nosso posicionamento em defesa da democracia e da liberdade para nos organizarmos com outros países e forças de esquerda para fazermos frente ao crescimento da extrema direita e a tudo de nocivo que ela vem fazendo no mundo”, afirmou.

Presença de Lula reforça peso político do Brasil

A participação de Luiz Inácio Lula da Silva foi tratada como um dos pontos de maior peso político do encontro. A eurodeputada espanhola Iratxe García Pérez, presidenta do Grupo da Aliança Progressista de Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu, ressaltou que a liderança do presidente brasileiro ultrapassa as fronteiras nacionais e se conecta à reorganização das forças democráticas em escala global.

“Todos os progressistas ao redor do mundo esperam uma nova vitória das forças progressistas e de Lula no Brasil”, afirmou. Para ela, diante das ameaças da extrema direita, “é muito importante, neste momento, estar juntos, estar unidos”.

Na avaliação da dirigente europeia, Lula ocupa papel central na formulação de uma alternativa internacional baseada em direitos, solidariedade e cooperação entre a União Europeia e o Sul Global. “Temos muitas ameaças dos populistas de extrema direita, que estão atacando nossos valores comuns, atacando nossas classes médias, os trabalhadores e as mulheres”, disse.

O alcance simbólico da presença de Lula também se refletiu no público. A brasileira Juana Martins, moradora de Dublin, viajou a Barcelona para acompanhar o encontro. “Eu vim para o Congresso tentar ver o presidente Lula”, contou.

Para ela, a presença de lideranças como Lula contribuiu para reengajar politicamente o público. “Eu quero mudar essa desilusão que eu e muita gente estamos sentindo. Eu quero mudar essa sensação de que a gente não pode fazer nada”, afirmou.

Ao relatar a experiência, destacou o impacto coletivo do encontro. “Traz essa esperança de volta para as pessoas, para as pessoas comuns”, resumiu.

Em Barcelona, o Brasil levou suas experiências de participação social, regulação do ambiente digital, mobilização juvenil e enfrentamento à extrema direita, ao mesmo tempo em que reforçou, com a presença de Lula, a ideia de que a defesa da democracia depende cada vez mais de alianças transnacionais, capazes de conectar lutas locais a uma resposta política de alcance global.