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Fundação Perseu Abramo discute cenário internacional com lideranças partidárias da América Latina

Como preparativo das atividades da Fundação Perseu Abramo para o 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores, foram realizados dois debates de conjuntura internacional com a participação de lideranças políticas latino-americanas do campo progressista. 

O evento ocorreu nesta quarta-feira (22), no auditório da fundação, em São Paulo. Além dos diretores Valter Pomar e Mônica Valente, que tratam da temática internacionalista e comandaram os trabalhos dos seminários, na abertura, esteve presente o presidente da FPA, Brenno Almeida, que deu boas-vindas aos participantes. 

“Estamos em um contexto especial para o PT, é um momento de reflexão a partir da conjuntura internacional, para que possamos construir nossos caminhos para que o povo brasileiro continue com esperança, justiça social e desenvolvimento”, disse Almeida.

Integração no continente

A primeira mesa, realizada na parte da manhã, contou com as exposições de Pedro Silva Barros, pesquisador do Ipea e membro do Conselho Curador da fundação, do jornalista internacionalista Breno Altman e de Mônica Valente, diretora da Fundação Perseu Abramo. 

Com o tema “A situação mundial e os desafios da integração regional latino-americana”, o debate foi iniciado com a fala de Breno Altman, que expôs as causas e consequências das movimentações norte-americanas no âmbito da política externa.

crédito: Sérgio Silva / FPA

Altman destacou que não há uma ruptura direta na atuação dos Estados Unidos frente aos outros países, mas sim uma radicalização profunda a partir da aposta no poder militar. Com isso, são duas frentes de ataques no momento: o Oriente Médio e a América Latina, com foco no Corolário Trump, conhecido também por “doutrina Donroe”, uma reinterpretação da Doutrina Monroe, a partir da ideia de que os Estados Unidos têm o direito à intervenção no continente para combater um alinhamento comercial e ideológico com a China. 

“Embora o quadro histórico seja de decadência da hegemonia norte-americana, podemos considerar que o nosso período concreto agora é de uma ofensiva imperialista”, explica Altman, que relacionou a abertura das duas frentes militares. 

O jornalista opina que há o entendimento de que a maior contradição hoje é marcada pelo antagonismo democracia x fascismo, mas que, em sua visão, essa é uma contradição subordinada, e que a contradição principal se dá entre anti-imperialismo x imperialismo, já que o fascismo é um instrumento imperialista. E que a resposta, enquanto campo político, deveria ser o fortalecimento de experiências de países que seguem em resistência ao modelo, como China, Rússia, Cuba, Venezuela, além dos partidos e movimentos de esquerda mundo afora. 

Assim, Altman pontua que “a vitória ou a queda do regime cubano neste momento não diz respeito somente à Cuba, mas principalmente ao conjunto dos movimentos populares e forças progressistas da nossa região”. E completa: “essa é uma batalha emergencial, que concentra toda a situação latina, não é somente uma questão humanitária, é uma questão estratégica para o anti-imperialismo”. 

Pedro Silva Barros trouxe elementos de análise com foco no olhar regional e alertou para a desintegração das redes de comércio entre os países do continente e as dificuldades de coesão no tema da integração, o que ele considera um desastre. 

O pesquisador lembrou que, nos anos 2000, os fóruns de encontro entre os presidentes do continente eram mais ativos, independente de campos ideológicos,  citando o caso de reuniões que ocorriam com Alberto Fujimori (então presidente do Peru, alinhado à direita) e Hugo Chávez (presidente venezuelano, liderança marcante da esquerda). 

Para o economista especialista na integração regional do continente, é necessário reafirmar que a América Latina é uma zona de paz e garantir esforços para manter ativas as alianças econômicas e políticas, como o Mercosul, a CELAC, entre outros espaços. 

A diretora da Fundação Perseu Abramo Mônica Valente, que é secretária-executiva do Foro de São Paulo, trouxe um panorama eleitoral dos últimos anos na América Latina. E ressaltou a polarização e o avanço da direita no campo ideológico da juventude e o restabelecimento de um modelo neoliberal entreguista, que voltou a ter muita força com o crescimento da extrema direita no continente e o alinhamento às políticas de Trump. 

“Nunca foi tão importante consolidar, debater o tema da unidade em meio a nossa diversidade das forças progressistas e populares, nunca foi tão importante”, disse Valente. 

Contexto dos Estados Unidos

Com o tema “A decadência estratégica e as ameaças táticas do imperialismo estadunidense”, o segundo debate foi realizado com exposições da professora da Universidade Federal do ABC, especialista em Economia Social, e integrante do DSA, o Democratic Socialists of America, Jana Silverman, e o professor de Ciência Política na Unicamp, Sebastião Velasco. 

crédito: João Heitor / FPA

Silverman apontou que as ondas de protestos no país, em especial contra as políticas migratórias promovidas por Trump com o serviço de imigração, o ICE, representam um ponto importante de resistência interna, porém não foram capazes de alterar a correlação de forças internamente. 

Ela cita outros momentos da história norte-americana em que houve ondas significativas de manifestações, como na guerra do Vietnã e antes da invasão ao Iraque, em 2003, sem impacto direto sem alteração radical das estruturas de poder no país. A professora trouxe como parâmetro, além disso, a solidez da democracia dos Estados Unidos, que sobrevive há mais de 200 anos, com uma Constituição com uma dezena de emendas.  

Sobre a postura de Donald Trump em relação à política externa, Jana Silverman comentou que o presidente está abandonando o discurso da democracia liberal e que segue com uma lógica privatista, citando o caso do anúncio da construção de resorts na Faixa de Gaza. 

Já o professor Sebastião Velasco lembrou das ameaças de anexação da Groenlândia e dos ataques contra a soberania do Canadá, como tentativas expansionistas de Trump. Ele lembrou que os Estados Unidos seguem com grandes indicadores que configuram o país como potência mundial, como os gastos empenhados em defesa e a grande fatia na participação do PIB mundial. 

Velasco pontuou as consequências da asfixia econômica à Cuba, a interferência na política venezuelana e o fio condutor dessas ações com a fragilidades do capitalismo a partir da crise financeira de 2008. Segundo o professor, “Trump introduziu um elemento de irracionalidade à política mundial”.