Dia 27 de abril é o Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica e dados do DIEESE mostram que o trabalho doméstico permanece fortemente marcado por desigualdades de gênero e raça, além de apresentar baixos rendimentos, alta informalidade e dificuldades de acesso a direitos trabalhistas. Leia sobre o Dia da Trabalhadora Doméstica com a TVT News.
Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica: dados mostram o fosso social da categoria
De acordo com levantamento baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), o Brasil contava, no quarto trimestre de 2025, com cerca de 5,6 milhões de pessoas ocupadas no trabalho doméstico. Desse total, 92% eram mulheres . A predominância feminina escancara a histórica divisão sexual do trabalho, que atribuiu às mulheres as atividades de cuidado e manutenção dos lares.
Trabalho doméstico no Brasil
5,6 milhões
de pessoas ocupadas
92%
são mulheres
68%
são negras
O trabalho doméstico reflete desigualdades de gênero e raça no Brasil
O recorte racial evidencia ainda mais a desigualdade: 68% das trabalhadoras domésticas são negras . Entre as mulheres negras ocupadas, uma em cada sete atua no trabalho doméstico, o que corresponde a 14,5% desse grupo . Os números refletem o impacto de processos históricos, como a escravidão e a exclusão social, na configuração atual do mercado de trabalho.
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Mais da metade das trabalhadoras domésticas não concluiu a educação básica, aponta DIEESE
O trabalho doméstico no Brasil continua sendo um retrato das desigualdades estruturais que atravessam o mercado de trabalho. Dados recentes mostram que a atividade permanece fortemente marcada por recortes de gênero e raça, além de apresentar baixos rendimentos, alta informalidade e dificuldades de acesso a direitos trabalhistas.

Trabalho doméstico no Brasil é feminino e negro
A trabalhadora doméstica no Brasil tem um perfil bem definido: mulher e, majoritariamente, negra. Segundo os dados, 68% das profissionais do setor são negras, evidenciando como o trabalho doméstico ainda está ligado a desigualdades raciais históricas.
Entre as mulheres negras ocupadas, uma em cada sete atua como trabalhadora doméstica. Esse dado revela como o legado da escravidão e da exclusão social ainda influencia a inserção dessa população no mercado de trabalho.
Essa concentração não é aleatória. Ela reflete a dificuldade de acesso a oportunidades mais valorizadas, além de desigualdades no acesso à educação e à qualificação profissional.

Trabalhadora doméstica recebe menos e sustenta famílias
Mesmo sendo essencial para o funcionamento da sociedade, o trabalho doméstico é um dos mais desvalorizados economicamente.
Em média, a trabalhadora doméstica ganha 59% menos do que outras mulheres ocupadas. Na prática, isso significa uma perda mensal de cerca de R$ 1.932 e mais de R$ 23 mil ao longo de um ano.
Apesar disso, essas mulheres desempenham um papel central na economia familiar: 58% são chefes de domicílio. Ou seja, mesmo com renda menor, são responsáveis pelo sustento de suas casas.
Desigualdade de renda
-59%
Trabalhadoras domésticas ganham menos que outras mulheres
a menos por mês
a menos por ano
Mesmo com menor renda, 58% são chefes de família
Informalidade ainda é regra no trabalho doméstico
A ampliação de direitos trabalhistas nos últimos anos não foi suficiente para transformar a realidade da maioria das trabalhadoras domésticas.
Hoje, 76% delas trabalham sem carteira assinada. Além disso, 65% não contribuem para a Previdência Social.
Na prática, isso significa ausência de direitos como férias remuneradas, 13º salário e FGTS, além de insegurança em relação à aposentadoria e benefícios sociais.
A informalidade permanece como um dos principais desafios da categoria, revelando limites na efetivação das leis existentes.


Perfil da categoria mostra envelhecimento e mudança no trabalho
Outro aspecto que chama atenção é o envelhecimento da categoria. Mais da metade das trabalhadoras domésticas tem 45 anos ou mais, enquanto a presença de jovens é menor em comparação com outras ocupações.
Esse dado pode indicar tanto a permanência prolongada na atividade quanto a dificuldade de inserção em outros setores do mercado de trabalho.
Além disso, o modelo de contratação também está mudando. O número de mensalistas caiu, enquanto o de diaristas cresceu, indicando maior flexibilização — e, ao mesmo tempo, menor estabilidade.
Perfil etário
56%
têm 45 anos ou mais
Apenas 12% têm menos de 30 anos
Baixa escolaridade limita oportunidades
A escolaridade é outro fator que ajuda a explicar a desigualdade no trabalho doméstico.
Mais da metade das trabalhadoras não concluiu a educação básica, e 39% não terminaram o ensino fundamental. Esse cenário reduz as possibilidades de acesso a empregos com melhores salários e condições.
A falta de acesso à educação de qualidade ao longo da vida acaba reforçando o ciclo de desigualdade, mantendo essas mulheres em ocupações precarizadas.
Educação
59%
não concluíram a educação básica
não terminaram o ensino fundamental
Pobreza atinge parcela significativa das trabalhadoras domésticas
Os impactos dessa estrutura desigual aparecem de forma direta nas condições de vida.
Em 2024, cerca de 25% das trabalhadoras domésticas estavam em situação de pobreza, incluindo 6% em extrema pobreza.
Esse dado evidencia que, mesmo trabalhando, uma parcela significativa dessas mulheres não consegue garantir renda suficiente para uma vida digna.
Forma de trabalho
53%
mensalistas
47%
diaristas
Crescimento das diaristas indica menor estabilidade
Desafios para a valorização da trabalhadora doméstica
O cenário aponta para a necessidade de políticas públicas que enfrentem as desigualdades estruturais do setor.
Entre os principais desafios estão:
- reduzir a informalidade
- ampliar o acesso à Previdência
- garantir cumprimento de direitos trabalhistas
- investir em educação e qualificação
- combater desigualdades de gênero e raça
A história do trabalho doméstico no Brasil mostra que os avanços conquistados até aqui foram resultado da organização coletiva das trabalhadoras. O fortalecimento dessas mobilizações segue sendo fundamental para ampliar direitos e melhorar as condições de trabalho.
27 de abril: Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica
O 27 de abril é reconhecido como o Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica, uma data que busca dar visibilidade às condições de trabalho dessa categoria e reforçar a importância da garantia de direitos. Mais do que uma homenagem, o dia também cumpre um papel político ao chamar atenção para a necessidade de valorização ddas trabalhadores domésticas.
Qual a história de Laudelina de Campos Melo
A luta por direitos das trabalhadoras domésticas no Brasil está profundamente ligada à trajetória de Laudelina de Campos Melo, uma das principais lideranças da categoria no país.
Nascida em 1904, Laudelina foi uma mulher negra que dedicou sua vida à organização das trabalhadoras domésticas. Em um contexto marcado por forte discriminação racial e de gênero, ela atuou na construção de espaços de mobilização e reivindicação de direitos.
Na década de 1930, Laudelina fundou associações voltadas à defesa das trabalhadoras domésticas, buscando melhores condições de trabalho e reconhecimento profissional. Sua atuação foi fundamental para dar visibilidade à categoria e para fortalecer a luta por direitos trabalhistas.
A história de Laudelina evidencia como a organização coletiva foi — e continua sendo — um instrumento essencial para enfrentar a precarização do trabalho doméstico.
Qual a história da Associação de Empregadas Domésticas de Santos, considerada o primeiro sindicato da categoria no Brasil
A materialização da visão política de Laudelina de Campos Melo ocorreu na cidade litorânea de Santos, no estado de São Paulo, no ano de 1936. Foi lá que ela fundou a Associação de Empregadas Domésticas de Santos, a primeira entidade de classe focada exclusivamente na organização e na defesa dos direitos dessa categoria no Brasil.
A fundação da Associação foi um ato de extrema ousadia. Em 1936, a elite brasileira, que ainda carregava os vícios do período escravocrata recém-abolido, não aceitava que as mulheres que limpavam suas casas e criavam seus filhos tivessem qualquer tipo de direito reivindicado. Essa realidade parece não ter se alterado no século XXI.
A entidade criada por Laudelina funcionava como um ponto de apoio fundamental: oferecia assistência jurídica, acolhimento para mulheres vítimas de violência patronal, espaços de alfabetização e, acima de tudo, um ambiente de formação de consciência política.
Infelizmente, a existência formal da Associação de Santos foi interrompida de maneira abrupta. Com a instauração do Estado Novo em 1937, a ditadura varguista proibiu o funcionamento de diversas organizações civis e sindicais independentes.
A entidade foi fechada compulsoriamente, mas o impacto ideológico de sua criação jamais foi apagado. O pioneirismo da Associação de Empregadas Domésticas de Santos abriu os caminhos para a retomada do movimento nas décadas seguintes, influenciando diretamente a criação de novos sindicatos nos anos 1960 e 1980.
O espírito de resistência forjado em Santos foi determinante para a organização da categoria durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1988, que garantiu os primeiros direitos básicos, e mais tarde, na histórica aprovação da Emenda Constitucional 72, a PEC das Domésticas.
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