
Entregadores de aplicativo fundam seu sindicato para aprofundar organização da categoria no Rio Grande do Norte. Conquista é fruto da luta organizada construída nos últimos anos.
Petrus Mafra | Natal (RN)
TRABALHADOR UNIDO – último dia 15 de abril, em Natal (RN), fruto de intensas mobilizações da categoria, os entregadores de aplicativo fundaram, seu sindicato, o Sindicato dos Trabalhadores Entregadores em Veículos de Duas Rodas Por Meios Digitais — SINDTAMB. A criação dessa importante ferramenta de luta representa um marco significativo para a categoria, visto a discussão na Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 152, que, ao invés de assegurar os direitos trabalhistas, visa piorar ainda mais as condições de trabalho dos entregadores
A PL é um ataque frontal aos direitos desses trabalhadores, rebaixando ainda mais valores por hora, aumentando a exploração e a jornada diária de trabalho. Enquanto isso, as plataformas tiveram faturamentos e lucros bilionários. A mais conhecida, IFood – empresa brasileira –, teve em 2025, um lucro de mais de R$ 1 bilhão. A Uber – empresa estadounidense –, teve um lucro de aproximadamente R$ 51 bilhões. Em contrapartida, a terceira plataforma mais utilizada, a 99pop que atende entregas e transporte de passageiros – empresa brasileira, comprada pela empresa chinesa Didi Chuxing –, teve um lucro de R$ 157 bilhões.
A contradição e realidade exposta
Para os trabalhadores, a proposta “empreendedora” de regulamentação foi colocar o valor da hora de trabalho para R$ 8,50, enquanto a categoria exige, no mínimo, R$ 10,00. Porém, a hora de trabalho é considerada apenas no momento de deslocamento de retirada até entrega. No geral, esses trabalhadores passam mais de 12 horas trabalhando. Além disso, não há nenhum ponto de apoio para recarga de telefones, água, banheiros, espaços para descanso e diminuição nos valores de abastecimento de combustível.
A realidade para quem faz esse trabalho de bicicleta é ainda mais cruel: enorme cansaço e esforço físico, maior insegurança pela falta de vias específicas, instabilidade das demandas. Para a categoria, esses trabalhadores são “guerreiros”. “a gente que tá na rua, sabe como é a situação e sofre muito, mas com moto, percorrer 4, 5, 6km é mais ‘tranquilo’, agora pra quem tá de bike, é mais difícil. Eles são guerreiros de verdade”, diz um colega de trabalho. Esse retrato expõe a dura realidade da escravidão moderna desse ramo de trabalho.
Um trabalhador de bicicleta na Uber nos relatou: “tem vezes que eu fico mais de 1 hora esperando tocar, e quando toca, é um valor baixíssimo e uma enorme distância. E, se eu não aceitar, o aplicativo não fica mandando corridas. Então eu sou obrigado a aceitar. Se meu celular descarregar, e eu não tiver nenhum equipamento, tenho que me deslocar para uma região que posso ter acesso a isso. Não há nenhum tipo de ponto de apoio. Além de tudo, tenho que pagar a internet que é caro, e é bastante cansativo e frustrante rodar o dia todo sem conseguir uma boa renda”.
Insegurança, violência policial e assédio
A insegurança no trânsito também demonstra a precarização que vivem esses trabalhadores. São riscos diários de sair de casa e não voltar. Para essas empresas existirem e se manterem, precisam que essa categoria pague com suas próprias vidas. E o grito é só um “quantos mais tem que morrer?”
Recentemente, um trabalhador de Natal, de 27 anos, estava indo realizar uma entrega em um bairro da zona sul, ao chegar em uma avenida movimentada, foi fechado por um carro e colidiu em uma mureta. Ficou caído no chão por mais de 2 horas, sem atendimento da Polícia Militar e com uma demora de mais de 2 horas do SAMU. A primeira reação desse trabalhador foi pedir para entrarem em contato com o restaurante para explicar que ele teve um acidente, e que a demora seria por isso. José Richardson faleceu no local, esperando a morte e um atendimento que não chegou, deixando familiares, esposa e filhos abalados. Ele saia todo dia de casa para arrumar seu sustento, e tinha acabado de comprar uma moto nova.
Os trabalhadores, amigos e familiares realizaram um ato com cerca de 100 pessoas, em passeata e fechando uma das vias mais movimentadas da cidade, onde ocorreu o acidente. Durante mais de 1 hora, houveram gritos de “justiça”. Isso demonstra, em realidade, a sobrecarga, o colapso e o desinvestimento do estado na saúde pública. A cada dia que passa, menos recurso vai para a saúde e educação, e mais é investido em armamento militar e policial.
É comum ver acidentes e mortes ligadas a esses trabalhadores. De acordo com o estudo “Projeto Caminhos do Trabalho”, cerca de 59% já sofreram algum tipo de acidente ou violência durante a rotina de trabalho.
A violência policial também é rotina na vida desses trabalhadores. Recentemente, um trabalhador foi vítima de uma verdadeira sessão de tortura por parte da Polícia Militar: surra de urtiga, braço quebrado e celular quebrado, ameaça de morte, chutes, tapas e spray de pimenta na cara. Em outra ocasião, um entregador apanhou de um dono de restaurante e, quando os outros entregadores foram realizar um protesto, a PM jogou spray de pimenta e nos bateu, conta Nathy, Presidente do SINDTAMB
A realidade das mulheres entregadoras também não é fácil. Nathy, nos conta: “hoje a gente sofre muito por falta de pontos de apoio, o RN é um dos poucos estados que não temos isso. Como uma mulher menstruada vai ter o acesso ao banheiro? Tem estabelecimentos que não libera banheiro pra gente, então o ponto de apoio é fundamental. A gente também sofre em questão de assédio. Os aplicativos não tem uma forma rápida de nos responder, ‘ah, mas tem o botão, aí você clica e explica a situação, vai botar as provas’ então, peraí, se eu estou sofrendo o assédio e apertando o botão, é porque algo está acontecendo, para no final, o aplicativo dizer que você não recebe mais pedido desse cliente. Aí esse cliente vai pegar outra entregadora e assediar? A gente não está segura. Eu posso até me resolver, mas e as outras? Por que não tem punição a esse cliente? Por que não bota uma multa? Tem casos de a mulher subir para entregar, e o cara tá de cueca ou nos assediar do banco do passageiro. E a gente faz o relato, mas não dá em nada. O aplicativo quer provas disso. Gente, o aplicativo quer maior prova do que uma mulher pedindo ajuda? Se a gente tá pedindo ajuda, é porque aconteceu. E, o sindicato agora vai fortalecer essas denúncias, e vai ser importante para as mulheres entenderem e conseguirem fazer mais denúncias. E uma mulher só denunciou o assédio porque me viu falando sobre. Então é muito importante a gente tá falando disso”.
Organização e luta coletiva
A categoria vem, a cada dia, utilizando sua força e sua voz para lutar e se organizar. Os trabalhadores do RN têm mais uma entidade de combate para organizar suas lutas. A fundação do sindicato já foi vitoriosa pela presença de um importante parcela da categoria, sendo inclusive aprovada por unanimidade.
Alexandre, presidente da Associação de Trabalhadores de Aplicativos por Moto e Bike do RN (ATAMB) afirma que “a nossa luta é para conseguir mais melhorias, mais políticas públicas que sejam importantes para a categoria. A regulamentação no estado está desatualizada, com uma legislação de 2009. Como querem incluir e regulamentar, se não atualizam a lei? Por exemplo, o curso de moto frete é baseado em 2009, e tem uma série de regras pra o trabalhador fazer, e ele é cobrado. Mas, poderíamos fazer uma negociação para ser gratuito, ao qual o governo poderia fazer e dar benefícios, como redução de IPVA, de IOF para comprar um veículo com baixa taxa. Em outros estados tem faixas específicas, mas aqui no RN não tem e nós poderíamos organizar isso, poderíamos usar uma via compartilhada. E esse sindicato agora vai fortalecer essa luta em busca de melhorias para a categoria e mais políticas públicas, projetos de lei que sejam viáveis, um ponto de apoio, etc.”
O Movimento Luta de Classes e o Jornal A Verdade apoiaram e construíram lutas com esses trabalhadores em todo o país. Após pressão, a PL 152 caiu, mas a luta ainda não terminou. Apenas a organização dessa categoria poderá barrar o avanço dessa escravidão moderna, que é permitida pelo sistema capitalista, onde a exploração e o lucro do patrão são mais importantes do que a vida dos trabalhadores. Somente na sociedade socialista, a classe operária e os trabalhadores podem ter uma vida plena, com segurança de trabalho e controlando as riquezas produzidas, sem miséria e exploração.