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Brasil e China reafirmam aliança pela prosperidade compartilhada e soberania tecnológica no encerramento da Jornada Internacional

O encerramento da jornada internacional da Fundação Perseu Abramo, realizado neste domingo (25), durante o 8º Congresso do PT, consolidou-se como um espaço estratégico de convergência diplomática e defesa da soberania tecnológica. A roda de conversa sobre a China, coordenada por Valter Pomar, diretor de Cooperação Internacional da Fundação, trouxe à mesa vozes centrais da diplomacia chinesa: o embaixador extraordinário e plenipotenciário Zhu Qingqiao e o ministro-conselheiro Li Qi. O encontro não apenas celebrou a longevidade das relações bilaterais, mas traçou um manifesto em defesa de uma “prosperidade compartilhada”, que rompe com as lógicas hegemônicas tradicionais.

O embaixador abriu o debate, situando a modernização chinesa como um processo profundamente humanista, ancorado nas raízes do confucionismo e na ética política, que coloca o ser humano no centro das decisões de Estado. Ao revisitar a trajetória de superação da China, do século XIX, marcada por acordos desiguais e escassez até a ascensão contemporânea, o embaixador enfatizou que o socialismo chinês não é uma doutrina estática, mas uma prática que se adapta constantemente às realidades históricas. Para Zhu, a China escolheu o futuro e acredita que o Brasil caminha na mesma direção, instando as duas nações a ocuparem juntas o “lado certo da história” na construção de uma ordem mundial multilateral.

Em uma fala pragmática e direta, o ministro-conselheiro Li Qi desconstruiu narrativas ocidentais que tentam enquadrar o crescimento chinês sob a ótica da ameaça. Rejeitando a validade da Doutrina Monroe para as relações atuais, Li afirmou que a diplomacia com o Brasil se resume ao conceito de ganho comum. “A China não pode alcançar a prosperidade sozinha, ela se fortalece na aliança”, pontuou. O diplomata destacou que o sucesso econômico do país, hoje a segunda maior economia do globo, é um meio para um fim social que sempre foi garantir às famílias acesso a educação de primeira qualidade e saúde.

A soberania digital e a transição tecnológica emergiram como os pontos mais sensíveis e urgentes da pauta. Li Qi defendeu que o Brasil deve desenvolver sua própria infraestrutura tecnológica, mencionando o dado crítico de que 60% dos dados brasileiros estão armazenados em servidores norte-americanos. A proposta chinesa é de cooperação para que o Brasil desenvolva modelos de linguagem de larga escala soberanos, protegendo sua soberania digital. Exemplos de colaboração científica, como o projeto do radiotelescópio BINGO, uma iniciativa multilateral que inclui o Reino Unido, foram citados para ilustrar que o foco chinês está no avanço do conhecimento humano e não em disputas territoriais ou bélicas. “Estamos olhando para o céu e não para outros países”, afirmou o ministro, reiterando que o desenvolvimento de robótica e inteligência artificial visa a melhoria da vida e não o armamento.

No campo energético e industrial, o debate expôs a liderança da China na transição verde. Atualmente, o país produz cerca de 30 milhões de veículos, com uma fatia crescente de elétricos, e consome 65% de energia produzida internamente, com forte expansão das fontes eólica e fotovoltaica. Essa segurança energética é vista como pilar de estabilidade para as empresas que buscam previsibilidade para investir.

Ao encerrar o evento, a mensagem deixada foi de respeito mútuo à soberania nacional. Li Qi ressaltou que, se nos anos 80 a China exportava recursos básicos em troca de tecnologia de alto valor, hoje o país entende que cada nação, especialmente uma rica em recursos como o Brasil, tem o direito e o dever de desenvolver sua própria indústria competitiva. O apoio às falas do presidente Lula sobre a maior participação do Sul Global nas decisões de paz foi o ponto final de um encontro que reafirmou o Brasil como um parceiro prioritário da China na construção de uma nova governança global, na qual o desenvolvimento tecnológico sirva como ferramenta de emancipação social, não de dependência.