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Atitude reconstrutiva: Como ir além da crítica política?

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Há nomes que encarnam, com rara precisão, a promessa de renovação de toda uma tradição de pensamento. Geoffroy de Lagasnerie pertence a essa estirpe. Nascido em 12 de abril de 1981, ele trilhou o caminho mais exigente que a formação francesa pode oferecer: três anos de classes preparatórias B/L, ingresso em 2003 na prestigiosa École normale supérieure de Cachan (atual ENS Paris-Saclay) e a obtenção da agrégation em ciências econômicas e sociais — conquista que o situou, desde muito jovem, entre os herdeiros legítimos de uma tradição que vai de Émile Durkheim a Pierre Bourdieu.

Mas Lagasnerie não se contentou em herdar. Sua trajetória posterior demonstrou a determinação de quem deseja refundar. Em 2012, sustentou na École des hautes études en sciences sociales (EHESS) a tese Les conditions de la création théorique, orientada por Jean-Louis Fabiani e precedida por uma inscrição doutoral em 2006 na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne com Frédérique Matonti. O título já dizia tudo: tratava-se de investigar como o pensamento irrompe, como se criam as ideias que transformam uma época. O trabalho lhe valeu o título de doutor em sociologia e, mais importante, consolidou um modo de interrogar o mundo que une a fidelidade aos clássicos à pulsão do novo.

Reconhecido por sucessivas qualificações universitárias — maître de conférences em sociologia e demografia em 2013, habilitation à diriger des recherches em filosofia em 2018 e, em 2022, a qualificação de professor dos universidades em filosofia pelo Conseil national des universités —, Lagasnerie edificou uma carreira rara pela amplitude disciplinar e pelo vigor conceitual. Desde 2013, é professor de filosofia e sociologia na École nationale supérieure d’arts de Paris-Cergy (ENSAPC), instituição que se tornou, sob seu magistério, um laboratório de ideias e de formação de novas sensibilidades críticas.

Sua obra, traduzida em diversos países, desdobra-se em uma sequência de livros que marcaram o debate contemporâneo: JugerLa conscience politiqueLogique de la créationLa dernière leçon de Michel FoucaultMon corps, ce désir, cette loiL’âme noire de la démocratie e, mais recentemente, Par-delà le principe de répression: dix leçons sur l’abolitionnisme pénal, publicado em 2025. Cada um desses títulos pode ser lido como o capítulo de um grande projeto: repensar, desde seus fundamentos, as relações entre direito, Estado, violência, criação e vida social.

No plano editorial, Lagasnerie também deixou sua assinatura. Em 2009, fundou na Fayard a coleção “À venir”, que se tornou um ponto de referência para o pensamento crítico. Por ali passaram nomes como Didier Eribon, Judith Butler, Joan W. Scott e Pierre Bergounioux. A partir de 2023, ele transportou esse impulso para a Flammarion, onde dirige a coleção “Nouvel avenir” — um gesto que confirma sua vocação de descobridor e de arquiteto do debate público.

Philosophe, sociologue, passeur: a figura de Lagasnerie escapa às etiquetas estreitas. Sua influência vai muito além das salas de conferência. A imprensa o vê como uma voz central da esquerda radical francesa, e a revista Les Inrockuptibles já o incluiu entre os cem criadores que, em todos os domínios, reinventam a cultura. O que define sua presença, contudo, não é apenas o reconhecimento. É a capacidade — cada vez mais rara — de propor ideias que obrigam a repensar coordenadas estabelecidas, sem jamais desistir de falar ao mundo tal como ele é e tal como poderia ser.

Atualmente, Geoffroy de Lagasnerie continua a lecionar na ENSAPC e a publicar com uma regularidade que é, ao mesmo tempo, disciplina e forma de intervenção. A cada novo livro, a cada curso, reafirma-se como aquilo que a França, de tempos em tempos, oferece ao mundo: uma inteligência em ato, inteiramente voltada aos dilemas do presente, e que não se furta à ambição mais nobre da filosofia — a de mudar, com o pensamento, a matéria mesma da vida.

A entrevista foi concedida por e-mail ao mestre e doutorando em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Gama.

Eis a entrevista:

Em Juger, o senhor retrata o tribunal como um lugar de violência pura, onde o Estado isola o indivíduo. No contexto do lawfare contemporâneo, essa violência não se tornou uma arma estratégica que visa não mais apenas punir o corpo, mas paralisar a própria ação política?

A questão da justiça penal e da repressão é uma questão central em meu trabalho, desde meu livro Juger, publicado em 2016, e sobretudo com o livro que publiquei no ano passado sobre o abolicionismo penal, Par-delà le principe de répression. Dix leçons sur l’abolitionnisme pénal, que é, para mim, o livro mais importante. Nessa obra, interrogo a noção de lawfare porque interrogo a possibilidade de se estabelecer uma distinção entre a justiça política e a justiça ordinária, entre perseguições inspiradas por razões políticas e outras que não o seriam. Na realidade, todo prisioneiro é um prisioneiro político. Com efeito, o que procuro demonstrar é que existe, a cada dia, uma infinidade de delitos que são cometidos na sociedade. Todos os cometemos ao longo de nossas vidas. Por conseguinte, nenhum sistema judiciário pode visar a todos os delitos. Para se desdobrar, ele necessariamente deve escolher direcionar-se a certas populações e mirar certos delitos ou certos crimes em detrimento de outros. Trata-se sempre de uma escolha política. Se colocássemos tantos policiais nos bairros empresariais ou nos bancos quantos se colocam nos bairros populares, encontraríamos mais delitos na classe dominante e haveria mais banqueiros presos do que jovens precarizados. Sabendo que existe na sociedade uma infinidade de ilegalismos cometidos a cada dia, há sempre uma escolha estratégica que orienta a atividade da polícia ou da justiça em direção a certas populações. Toda prática penal é, portanto, consequência de uma prática de seleção de uma parte da população — e toda Justiça penal se inscreve no lawfare, como se vê, por exemplo, nos Estados Unidos, onde a legislação antidrogas serviu para superencarcerar de forma extravagante os negros em relação aos brancos. Em outras palavras, a melhor maneira de se opor ao lawfare não é apelar a uma justiça “neutra” — o que ela jamais será (e, de qualquer forma, se a justiça perseguisse a todos por todos os delitos cometidos, estaríamos todos na prisão). É antes apelar a um abolicionismo penal, como proponho em meu livro.

O que o senhor entende por abolicionismo penal? Qual é essa nova doutrina?

É uma nova teoria das condutas humanas e uma nova proposta de gestão das feridas [blessures], cujos fundamentos e aplicações detalho em meu livro Par-delà le principe de répression, publicado no ano passado. Parto do diagnóstico de que existe em nossa sociedade (e em muitas sociedades) um dispositivo de gestão e de regulação das condutas humanas por meio de algo que se denomina a penalidade: existe um código penal; existe uma categoria de crime; existe uma autoridade de persecução dos autores de infrações (o promotor); existe uma cena de julgamento como o tribunal; existem penas; existe uma instituição como a prisão; existem categorias de vítima, de autor, de responsabilidade, de intenção; e existe uma noção de justiça. Esse conjunto forma um dispositivo relativamente coerente ao qual chamo de punitivismo. E constato que ele funciona em países e períodos extremamente diferentes. Minha reflexão consiste em tentar atacar, termo a termo, esse dispositivo, substituindo-o sistematicamente por outra compreensão das ações humanas, por outra gestão possível das feridas interindividuais e por outra ideia do que poderia significar reagir a elas — o que denomino abolicionismo penal. Necessitamos de uma categoria como a de crime? Necessitamos de punição? A penalidade ajuda as vítimas? É realmente preciso fazer justiça? É preciso apresentar queixa? O que significaria agir de outro modo? A urgência política de tais questionamentos advém do fato de que eles interrogam frontalmente os movimentos políticos contemporâneos. Nas lutas contra as violências sexuais, contra a ordem policial, contra a corrupção, o progressismo apoia excessivamente suas reivindicações em exigências punitivistas — o que transparece notadamente no fato de que a categoria de impunidade desempenha um papel central no progressismo atual, e que a política progressista se mobiliza particularmente contra a “impunidade” dos autores de violência. Quis interrogar essa retórica da impunidade e essa dominação cada vez maior do punitivismo na esquerda. É essa questão que coloquei no centro do meu livro Mon Corps, ce désir, cette loi, que interroga o feminismo punitivista e, por exemplo, a noção de impunidade do estupro — obra que será publicada no Brasil em alguns meses pela editora Macondo.

Ao ler Foucault, o senhor sugere que o neoliberalismo poderia ser uma “disciplina ateísta” desmontando a unidade soberana do Estado. Todavia, na era da “Governança Algorítmica”, essa pluralidade não se encontra capturada por uma técnica mais totalizante do que a soberania clássica?

Em meu livro sobre os escritos de Foucault acerca do neoliberalismo (La dernière leçon de Michel Foucault), quis propor uma interpretação nova do interesse de Foucault pelo pensamento neoliberal — não pelo neoliberalismo como política econômica, mas como tradição de pensamento. Mostrei como a insistência da teoria neoliberal no caráter imanente e irredutível da pluralidade do mundo social funciona como uma crítica de todas as teorias transcendentes e unificadoras da soberania, notadamente nas teorias do contrato social desde Rousseau e Hobbes até Rawls. O interesse dessa teoria é também o de colocar que há uma especificidade do poder de Estado em relação a todos os outros poderes. Para mim, podemos nos inspirar nelas para tentar pensar essa especificidade. As coisas me aparecem assim: o Estado é uma das únicas instituições políticas nas quais ingresso sem meu consentimento ao nascer e que me retira quase a possibilidade de abandoná-la (salvo nos casos muito raros de migração). Nada me protege do Estado e da polícia. É um poder sem exterior [sans dehors]: se sou maltratado em meu trabalho, posso chamar a polícia para que ela venha em meu auxílio. Mas se sou maltratado pela polícia, não posso chamar uma polícia da polícia. É a teoria do Estado como instituição sem exterior que desenvolvo em meu livro La conscience politique. Se se compreende essa singularidade do poder de Estado, compreende-se por que tenho dificuldade em pensar a técnica do ponto de vista do poder. Da técnica, podemos sempre nos retirar. Não vejo nenhum efeito específico de poder do Facebook, do Twitter ou do Instagram, porque posso fechá-los. O único poder do qual não posso me retirar é o Estado. O Facebook não me coloca na prisão. O Instagram não me coloca na prisão. Meu iPhone não me coloca na prisão. Isso não significa que a questão dos algoritmos não seja importante, que não possa haver efeitos e influências dos quais devemos nos precaver. Mas não significa que devamos abordar essa questão em termos de poder. Pois desconfio do manejo demasiado metafórico da noção de poder para nomear toda forma de dispositivos ou de interações.

Como a figura do fugitivo (Snowden, Assange) pode subsistir diante da “Governança Pastoral” que, para além da vigilância, pretende “cuidar” e penetrar a subjetividade? É possível fugir de um poder que se apresenta sob os traços da misericórdia?

Pessoalmente, procuro em minha filosofia política substituir um pensamento substancialista a um pensamento formalista. É a razão pela qual não penso necessariamente que todo poder seja mau, nem que todo poder seja algo a ser fugido. Um Estado que implementa medidas progressistas, que trata, que diminui a exposição dos corpos à morte, à doença ou à poluição, que protege os direitos individuais, é certamente um poder — mas é um poder positivo, em oposição a um poder que mutila, que explora, que faz a guerra. O que procuro interrogar é o fato de que, com demasiada frequência, pensamos a política através de categorias formais ou procedimentais (arbitrário/regular, legal/ilegal, desobedecer/obedecer, democrático/autoritário). O pensamento político moderno é formalista, e é essa tendência que procuro desconstruir em La conscience politique e depois em meu último livro L’âme noire de la démocratie. Procuro propor algo que seria uma abordagem substancialista da política (justo/injusto, protetor/destruidor, benéfico/sádico). E penso que seria preciso renovar o pensamento político para partir desse substancialismo, a fim de criar uma nova teoria da Lei e da legitimidade.

O senhor teoriza a amizade como uma contracultura diante das instituições. Em um mundo de redes sociais ditado pelos algoritmos, a amizade não corre o risco de se tornar uma simples “comunidade de iguais”, reforçando nossa impotência política em vez de desafiá-la?

A amizade me aparece como um projeto de ruptura social, que poderia ser tão importante para a esquerda quanto o anarquismo ou o comunismo. Mas o importante é compreender que, para mim, não há unidade nem coerência no mundo. A sociedade é composta de sistemas de poder específicos e heterogêneos, relativamente independentes uns dos outros. Questionar um desses sistemas não significa necessariamente subverter os outros. Em outras palavras, toda revolução é sempre parcial, jamais total. A questão da amizade abre caminho para uma reflexão crítica sobre um tipo de poder específico, muito poderoso em nossa sociedade: o poder familialista [familialiste], a centralidade concedida à família e ao casal. O que procuro propor é o modelo de uma vida que seria centrada na amizade em vez de na família e no casal. É a ideologia política da família e do casal que deve ser desmantelada, a fim de propor não apenas uma imagem diferente da vida, mas também uma organização social e jurídica diferente. A meu ver, a política progressista deve ser definida como anti-familialista tanto quanto é anticapitalista ou antirracista.

Diante da “violência epistemológica” sofrida no Sul Global, como transformar a teoria em arma, segundo o desejo que o senhor expressa em Logique de la création, sem que ela seja devorada pelo pragmatismo do sistema?

O que me interessa cada vez mais, notadamente em meu manifesto L’âme noire de la démocratie, é que podemos constatar como todo um conjunto de medidas cruéis e selvagens — o encarceramento em massa, as medidas ecocidas, a destruição de Gaza, a explosão das desigualdades — se produzem hoje amplamente também em democracias, e se desenvolvem por obra de governantes eleitos e por vezes apoiados pela maioria da população: Israel, Itália, os Estados Unidos, a Argentina, o Brasil sob Bolsonaro. Somos, portanto, as testemunhas históricas de um momento político em que as forças da predação e os poderes neofascistas agem no interior das democracias e em nome da democracia. É a razão pela qual penso que devemos hoje interrogar o ideal democrático e buscar um outro ideal político, fundado não sobre as noções de opinião, debate e voto, mas sobre 7, o respeito aos direitos fundamentais, a proteção da vida. A ciência, o direito e a vida poderiam fornecer bases transcendentes que deveriam se impor à política e limitar os projetos reacionários mesmo quando majoritários. Nesse sentido, para mim, o papel essencial da ciência e da teoria hoje é adotar o que chamo de atitude reconstrutiva [attitude reconstructrice]. Contrariamente à herança do pensamento crítico — desde a Escola de Frankfurt até Bourdieu e Foucault —, que insiste no caráter antes de tudo crítico e negativo do pensamento, a teoria deve ser hoje positiva, e mostrar como reformas concretas podem ser sugeridas pelos próprios avanços do conhecimento. É essa exigência que procuro cumprir em meus livros nos últimos anos: com a proposta da amizade em oposição à vida familiar (Une aspiration au dehors), do abolicionismo contra o punitivismo (Par-delà le principe de répression) ou de um outro imaginário político além da democracia (L’âme noire de la démocratie). A partir do momento em que se propõe uma organização institucional alternativa à realidade instituída, é-se, por definição, irrecuperável pelo sistema. A ciência, os teóricos devem hoje realizar um practical turn: sair das incantações e das críticas negativas para propor, imaginar, inventar.

Qual é hoje o papel do intelectual público: ser o cartógrafo de novas táticas de choque ou o agente que, pela palavra, produz a fissura inicial no consenso técnico?

À escala mundial, o meio militante experimenta um sentimento de impotência. A ideia dominante é a de que as lutas são demasiado difíceis, os inimigos são grandes demais e que se perde sempre. Se se faz o balanço das lutas dos últimos 30 anos — sobre a prisão, as práticas policiais, os direitos trabalhistas, a violência de classe, a Palestina —, constata-se um abismo extraordinário entre a energia despendida e os resultados, daí esse sentimento de fracasso permanente. Uma forma de desespero se apoderou das forças de esquerda. Sabemos fazer manifestações, atrair a atenção pública, obter repercussão midiática, ocupar um lugar. Mas não nos aprisionamos em rituais políticos que se tornaram ineficazes? Pergunto-me se não entramos na era da impotência política, pois a política contemporânea pertence mais à ordem do ritual e do happening do que à da ação. Em que condições poderíamos dar armas ao movimento social para que ele volte a ser politicamente poderoso? O espaço da contestação é paradoxalmente um dos mais codificados da vida social. Quando não estamos de acordo, recorremos a formas preexistentes que nos constroem como sujeito contestador — seja a manifestação, o lobby, a petição ou o motim. Mas quando recorremos a essas formas, desestabilizamos o sistema ou o fazemos funcionar?

As formas de ação atuais são tão ineficazes que podemos nos interrogar sobre o que fazemos quando fazemos política. Queremos realmente ganhar ou nos satisfazer como militantes? A vida militante torna-se quase autônoma em relação a seus fins, avaliada segundo seus próprios critérios: havia muita gente na manifestação? A mídia falou sobre ela? Recebi muitas visualizações em meu post do Instagram? Uma construção de si como pertencente ao meio da luta está quase em desconexão com a reflexão concreta sobre a efetividade prática do que se faz.

Penso que deveríamos recorrer a modos de ação muito diferentes, tais como a interpelação à juventude [l’adresse à la jeunesse], a guerrilha jurídica, a infiltração das instituições, a ação direta, o trabalho sobre os habitus da cultura cotidiana. É preciso desdobrar um outro imaginário da ação. É preciso que a esquerda rompa com suas imagéticas tradicionais para pensar em termos de eficácia. E, portanto, é hora de desritualizar nossa relação com a política para pensá-la de maneira muito mais racional e eficaz. Infelizmente, isso pode nos fazer entrar numa forma de tristeza, porque às vezes uma ação eficaz não é espetacular. Mas prestar um concurso [passer un concours] pode ser muito mais importante do que ir ocupar uma praça; abrir uma escola pode ser mais importante do que participar de um motim.


Glossário de Termos e Nuances:

Relação dos termos cuja passagem do francês ao português implicou perda semântica parcial ou opção interpretativa que merece registro.

1. Blessures interindividuelles → “feridas interindividuais” Em francês, blessure designa simultaneamente a ferida física e o dano afetivo-moral. A opção por “feridas” preserva essa ambivalência corporal e subjetiva. “Danos” seria mais neutro e juridicamente adequado, mas empobreceria a carga fenomenológica do original. Manteve-se “feridas” com consciência da tensão.

2. Illégalismes → “ilegalismos” Termo foucaultiano de Surveiller et Punir (1975). Em Foucault, illégalismes não designa simplesmente atos ilegais, mas a pluralidade diferenciada de práticas formalmente ilegais que o sistema penal seleciona estrategicamente entre si — há illégalismes tolerados para as classes dominantes e illégalismes perseguidos para as populações subalternas. As traduções brasileiras de Foucault (Martins Fontes) convencionaram “ilegalismos”, que se manteve aqui.

3. Sans dehors → “sem exterior” A expressão “institution sans dehors”, conceito central da filosofia política de De Lagasnerie em La conscience politique, designa uma instituição da qual não há “fora” possível, sem alternativa de recuo ou de escape. Dehors em francês tem uma carga espacial e existencial mais imediata do que “exterior” em português: é o “lá fora”, o espaço de fuga, a saída concreta. “Sem exterior” é a tradução academicamente mais precisa, mas perde o peso vivido do dehors francês, que remete à experiência de estar encerrado sem porta de saída.

4. Discipline athée → “disciplina ateísta” A formulação da pergunta do entrevistador retoma a leitura de De Lagasnerie sobre Foucault e o neoliberalismo: uma “disciplina” que organiza o mundo social sem recorrer a qualquer princípio transcendente ou unificador — sem Deus, sem Soberano, sem Contrato. Athée (ateu/ateísta) funciona aqui como metáfora filosófica: o neoliberalismo, nessa leitura, seria uma racionalidade que abandona qualquer fundamento transcendente da ordem social. “Disciplina ateísta” preserva o jogo conceitual, embora em português a metáfora seja ligeiramente menos elegante.

5. Familialiste / familialisme → “familialista / familialismo” Neologismo crítico do próprio De Lagasnerie. Designa a ideologia que institui a família nuclear e o casal como formas de vida normativas e politicamente privilegiadas — não apenas como arranjo privado, mas como estrutura de poder que organiza direitos, heranças, reconhecimento social e imaginários políticos. “Familismo” existe em português (especialmente na sociologia italiana e latinoamericana), mas tem conotação distinta (lealdade familiar acima do interesse coletivo). Optou-se por “familialismo” para manter a fidelidade ao neologismo do autor.

6. Punitivisme → “punitivismo” O termo existe em português acadêmico (criminologia crítica, sociologia jurídica) e a tradução é direta. Registra-se apenas que punitivisme em francês tem uma carga crítica e militante construída especificamente pela tradição abolicioni sta — não é um termo neutro-descritivo, mas uma categoria de combate intelectual.

7. Happening → mantido no original Termo do vocabulário das vanguardas artísticas dos anos 1960 (Fluxus, Allan Kaprow), importado para o discurso político para designar ações de visibilidade espetacular sem consequências materiais transformadoras. Não há equivalente preciso em português que preserve tanto a dimensão histórica quanto a ironia crítica da utilização de De Lagasnerie. “Evento” ou “espetáculo” seriam empobrecedores.

8. Practical turn → mantido no original em inglês O próprio De Lagasnerie usa o sintagma em inglês no texto francês, evocando os “turns” da teoria (linguistic turn, cultural turn, spatial turn). A escolha de não traduzir é do autor, não do tradutor: trata-se de uma declaração de posicionamento epistemológico no interior do campo intelectual internacional.

9. Attitude reconstructrice → “atitude reconstrutiva” “Reconstrutiva” é a tradução mais precisa de reconstructrice. Registra-se que De Lagasnerie a opõe explicitamente à tradição “crítico-negativa” de Frankfurt, Bourdieu e Foucault — o adjetivo carrega, portanto, um peso polêmico preciso: não se trata apenas de reconstruir, mas de propor, de ser propositivo onde a teoria crítica era apenas corrosiva.

10. L’adresse à la jeunesse → “a interpelação à juventude” Adresse em francês significa tanto “endereço” (lugar) quanto “apelo”, “interpelação” e “habilidade”. No contexto político de De Lagasnerie, l’adresse à la jeunesse designa um modo de ação — falar diretamente, de forma deliberada e estratégica, à juventude como sujeito político privilegiado. “Interpelação” — com sua ressonância althusseriana — foi preferida a “apelo” por capturar melhor a dimensão de constituição de sujeito político que a palavra contém no original.

11. Passer un concours → “prestar um concurso” Em francês, concours designa o exame competitivo de acesso a carreiras públicas ou acadêmicas (CAPES, agrégation, concours de la fonction publique). A equivalência com “prestar concurso público” em português brasileiro é quase perfeita, e a dimensão política do exemplo de De Lagasnerie — a ideia de que ingressar na burocracia do Estado por dentro pode ser mais eficaz do que a ocupação de praças — preserva-se inteiramente na tradução.

12. Habitus → mantido no original Termo bourdieusiano já inteiramente incorporado ao português acadêmico brasileiro. Nenhuma tradução seria adequada sem perda: “disposições incorporadas”, “esquemas de percepção e ação”, “segunda natureza” são paráfrases analíticas, não equivalentes.

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