
Um dos momentos mais violentos de nossa história, a Guerra do contestado, é uma das páginas mais sangrentas de nosso país. Ao mesmo tempo é um marco na virada da organização da classe trabalhadora brasileira. Esse é o sexto capítulo da série exclusiva do Jornal A Verdade “A história oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro”.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
HISTÓRIA (Parte 06) – O período de 1911 a 15 foi marcado por disputas radicalizadas das oligarquias regionais. A política “salvacionista”, das intervenções do governo Hermes da Fonseca -1910/1914 expressavam essas disputas inclusive por meio de armas e bombardeios de capitais. As novas contradições surgidas com o desenvolvimento do capitalismo nas cidades e campos também conheceram revoltas populares, rebeliões e lutas de resistência da nascente operária que se organizava em sindicatos, federações, centrais e produziam seus jornais classistas.
Greve Geral do Pará (1914)
A primeira greve geral de operários do Brasil foi realizada no Norte do país, em 14 de abril de 1914, no estado do Pará. A crise econômica do capitalismo e início da Primeira Guerra imperialista atingem brutalmente os trabalhadores dos serviços ligados à produção do látex, estivadores, portuários, ferroviários, eletricitários. A redução de preços internacionais e queda das exportações foi acompanhada de aumento dos gêneros alimentícios, desemprego e atrasos salariais. No “declínio do “ciclo da borracha” a alta do desemprego e do custo de vida tornavam insuportáveis a vida daqueles trabalhadores. A vanguarda da classe operária se organizava em associações, sindicatos e federações, na luta de resistência sob influência anarquista-sindicalista.
A característica deste movimento foi atingir o coração da infraestrutura econômica indispensável à economia da borracha: Porto de Belém, Estrada de Ferro de Bragança e a energia da Pará Electric Railways and Lighting Company Ltd. Estivadores, portuários, ferroviários, maquinistas, sinalizadores, operadores, controladores de tráfego, bilheteiros, eletricistas se unem e mostram organização e força nessa memorável Greve Geral do operariado paraense. Os trabalhadores exigiam o pagamento dos salários atrasados, a redução de jornada de trabalho e o fim das perseguições aos sindicatos.
A despeito da repressão violenta patronal e do Estado, prisões e deportações, o movimento fortalece a Federação Operária do Pará (FOP). Belém foi o ensaio geral exemplar ocorrido três anos antes das grandes greves gerais de São Paulo de 1917 e 1919.
Contestado (1912-1916). “Pelados contra Peludos”
A “Guerra do Contestado” foi um genocídio de camponeses pobres na divisa do Paraná/Santa Catarina. Mais de 20 mil camponeses tiravam o sustento da terra e viviam em comunidades autossuficientes. Causavam prejuízo aos poderosos na escassez de mão-de-obra e davam prejuízo ao comércio local, ocuparam terras que se tornaram valorizadas à construção da ferrovia e despertou a cobiça dos latifundiários e outros exploradores do povo. Empresas estrangeiras como a madeireira Lumber & Company e a ferroviária “Brazil Railway Company” em conluio criminoso com latifundiários e governos estaduais e federais expulsam milhares de posseiros de suas terras, destroem suas comunidades camponesas e matam milhares de trabalhadores.
O Assentamento
Os assentamentos rurais chamados de “quadro santo” integravam a estrutura da “Monarquia Celeste” fundada pelo mítico beato José Maria. Começa em 1912, no Município de Curitibanos, nas terras concedidas do coronel Henriquinho de Almeida que era inimigo de Chiquinho Albuquerque o mais poderoso latifundiário da região. Milhares de camponeses pobres encontraram esperança de sobrevivência nos assentamentos – “quadros santos”. Experiência comunal com marca de misticismo eclético de catolicismo primitivo, monarquismo e sebastianismo que atraiu 20 mil seguidores e continuadores da “Monarquia Celeste” sob o lema: “quem tem mói, quem não tem também mói”.
Os produtos da terra e o uso da moenda era comunal. Satanizam o comércio e puniam a busca de lucro mercantil com pena de morte. O Profeta José Maria pronunciava o “fim dos Tempos” e alimentava esperanças com a volta do Rei Dom Sebastião. Na confusa mistura de elementos bíblicos e imitação da medieval organização do império Carolíngio de Carlos Magno e os “doze Pares da França”.
Reação
De olho nas terras e lucros futuros com as indenizações o coronel Albuquerque, à frente da prefeitura, manda telegrama ao Presidente da República denunciando a “ameaça monárquica”. A Companhia Lumber engrossa a pressão e protocola expediente no qual responsabiliza a União pelos prejuízos “que possam sofrer na região”. A força pública do Estado a serviço da burguesia ataca as “aldeias santas”. Os comandantes militares “doze pares” da “Monarquia Celestial” revidam. E invadem as cidades de Canoinha, Papanduva, Curitibano, Caçador, Calmon e Itaiópolis, queimam madeiras e depredam o prédio da Companhia Lumber. A madeireira arma exército privado com funcionários e jagunços contratados. A “guerra tem início”. Durante longo tempo as serrarias e oficinas ficam sem funcionar.
As comunas rurais da “Monarquia Celestial” jamais foram ameaça efetiva à República. Messianismo monárquico sim, contrário à República identificada como opressora, policialesca e cobradora de tributos. A questão era prejudicar interesses capitalistas de latifundiários e empresários locais e internacionais. Porque assegurava a todos os camponeses terra para plantar e meios de vida sem precisar dos patrões, dos comerciantes, da polícia e dos prefeitos ou de pagar impostos ao governo. Esse fato contraditava a “ordem social” capitalista.
Atacados, o “monge” José Maria organizou o deslocamento territorial da “quadra santa”. Centenas de mortos e feridos. Os aprisionados pela polícia tiveram os cabelos raspados. Os demais seguidores que permaneceram na luta, solidários, rasparam e se assumiram como “pelados” contra “peludos”, os ricos poderosos. José Maria realoca-se no município de Palmas, sítio de tensões e conflitos de terra. Combatem as tropas policiais de Santa Catarina. “Nós só queremos paz e uma terrinha para plantar feijão e milho para poder manter a nossa criação” pregava o beato, mas os pelados não tiveram paz.
José Maria funda o “quadro santo” no município de Irani. O governo do Paraná destaca o capitão João Gualberto com 400 homens para intimar José Maria a comparecer na Delegacia de Palmas. A cilada foi entendida pelos pobres posseiros. A polícia ataca com metralhadoras modernas e os camponeses se defendem com armas rústicas e facões. Nesse combate tombam José Maria e alguns líderes dos “doze pares”. A tropas policiais perderam muitos soldados, metralhadoras e munição.
Os camponeses enquanto esperavam a ressureição do José Maria reconstruíram novo “quarto santo. Resistiam. Foram cinco anos de lutas. Em 1916 morre Adeodato, último líder da resistência camponesa que sobreviveu à fome, doenças e enfrentou o Estado burguês e 1/3 do Exército que no seu servilismo classista antipopular recorreu a aviões e aos bombardeios aéreos para esmagar 20 mil camponeses dessa luta épica de resistência e verdadeiro genocídio.
Luta dos Coronéis
A “política de salvação” de Hermes da Fonseca não passava de troca de oligarquias, de coronéis afinados com o Governo Federal. Pura balela essa historiografia burguesa do capitalismo moderno e urbano em contraposição ao arcaico e rural, dualidade inexistente. No Ceará, o “salvacionismo” derruba o Presidente Nogueira Accioly da oligarquia mais antiga no poder regional. O interventor, Marcos Franco Rabelo, perdeu apoio do Partido Republicano Conservador e exonerou o Prefeito de Juazeiro Padre Cícero Romão Batista.
O coronel Floro Bartolomeu aliado do Padre Cícero viaja ao Rio e obtém apoio de Pinheiro Machado para o levante armado contra o governador de Marcos Rabelo, este apoiado pelo Governo Federal. A “Revolta dos Sertanejos” do Ceará liderada pelo Padre Cícero Romão Batista e outros coronéis locais vencem as batalhas contra as forças oficiais, cerca o Palácio e derruba Franco Rabelo. Os rebeldes “marretas” demonstraram a força e o coronelismo dominante do Ceará teve que fazer novo rearranjo com o governo federal, depois da derrota da imposição “salvacionista” de Hermes da Fonseca no Estado.
Ao mesmo tempo em que cresciam a repressão por parte do Estado e a disputa entre as elites, a classe trabalhadora também afinava suas formas de resistir. Com o acúmulo da experiência nos enfrentamentos e embates contra a burguesia nacional já estabelecida, era preparado também uma resposta classista para os próximos embates, assunto que aprofundaremos mais nos próximos capítulos de nossa série.