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Ataques ao voto feminino expõem avanço conservador nos EUA

Declarações que defendem o fim do voto feminino têm ganhado visibilidade nos Estados Unidos, impulsionadas por influenciadores, líderes religiosos e setores da extrema direita. Ainda que restritas a nichos e sem respaldo institucional direto, essas falas ampliam sua circulação e reintroduzem no debate público questionamentos sobre direitos consolidados das mulheres há mais de um século.

Da extrema direita digital aos púlpitos religiosos

O influenciador Nick Fuentes está entre os nomes que vocalizam esse posicionamento de forma mais explícita. Ligado à nova extrema direita digital, ele lidera o movimento America First e reúne uma base de seguidores conhecida como “Groypers”. Fuentes ganhou projeção com transmissões ao vivo e podcasts nos quais combina nacionalismo, ataques à imigração e discursos contra minorias, além de já ter sido banido de plataformas tradicionais por violar políticas contra discurso de ódio. Em suas falas, defende o retorno a modelos tradicionais de organização social e já afirmou que mulheres não deveriam votar.

Esse tipo de discurso também encontra respaldo em setores religiosos conservadores. O pastor Doug Wilson é um dos principais nomes do chamado nacionalismo cristão no país. Há décadas, defende a reorganização da sociedade com base em princípios bíblicos, com ênfase em estruturas patriarcais e na autoridade masculina dentro da família. A partir de Idaho, construiu uma rede de igrejas, escolas e instituições religiosas e, nos últimos anos, passou a ganhar espaço em setores da direita ligados ao presidente Donald Trump. Entre suas propostas está o modelo de “um voto por família”, no qual a decisão política caberia ao homem. Formulação que, na prática, exclui as mulheres da participação direta na vida política.

Na mesma linha, o pastor Dale Partridge tem difundido nas redes sociais críticas diretas à participação política das mulheres. Em uma publicação feita em 13 de fevereiro na plataforma X , afirmou que mulheres votam “com emoção”, que a política estaria “feminizada” e defendeu a revogação da 19ª Emenda dos EUA.

No mesmo conteúdo, associou a ampliação de direitos a um suposto “colapso” das nações ocidentais, relacionando avanços sociais a imigração, multiculturalismo e mudanças nos costumes. A formulação retoma uma lógica recorrente nesses setores, que atribuem a grupos historicamente excluídos (como mulheres e minorias) a responsabilidade por transformações sociais, ao mesmo tempo em que justificam a restrição de direitos como resposta política.

Ofensiva conservadora mira o voto por vias indiretas

A 19ª Emenda dos EUA, aprovada há mais de um século, não está sob ameaça legislativa direta. Ainda assim, o avanço desse tipo de discurso ocorre em paralelo a propostas concretas sobre regras eleitorais. Um projeto apoiado por Donald Trump, aprovado pela Câmara em abril de 2026, prevê exigências mais rígidas de comprovação de cidadania e de correspondência de nomes nos documentos apresentados no momento do voto.

Na prática, a medida pode atingir especialmente mulheres casadas que adotaram o sobrenome do parceiro, além de pessoas transgênero e eleitores de baixa renda. Em casos de divergência, o texto exige documentação adicional, o que pode criar barreiras indiretas ao exercício do voto.

Esse tipo de posicionamento também tem sido reforçado por integrantes do próprio governo. Em agosto de 2025, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, republicou em suas redes sociais um vídeo de um pastor ligado ao nacionalismo cristão que defende abertamente a exclusão das mulheres do voto. O episódio evidencia como esse tipo de discurso passa a transitar também em esferas de poder, ampliando seu alcance político.

Esse conjunto de posições emerge em um cenário de forte polarização nos Estados Unidos, no qual disputas em torno de gênero, direitos e participação política têm se intensificado. Em setores conservadores, mulheres têm sido associadas a transformações sociais recentes, como o avanço de agendas progressistas e mudanças no comportamento eleitoral. Dados indicam que eleitoras americanas tendem a votar majoritariamente em candidatos do Partido Democrata, o que reforça seu peso nas disputas políticas.

Mais do que episódios isolados, a circulação dessas ideias revela uma ofensiva política mais ampla. Ao colocar em dúvida o direito ao voto feminino, ainda que sem viabilidade imediata, esses discursos atuam para deslocar o debate público e fragilizar conquistas históricas.

Na prática, esse tipo de narrativa reabre disputas que já estavam consolidadas e cria um ambiente em que direitos passam a ser tratados como passíveis de revisão. É nesse processo que agendas conservadoras e regressivas deixam de permanecer restritas a nichos e passam a disputar espaço no centro do debate político, tensionando, na prática, os limites da própria democracia.

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