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Prisão de presidente, bloqueio, eleições, avanço progressista e reformas: como está a política na América Latina?

Os países da América Latina, assim como nos aspectos culturais, possuem grandes semelhanças no âmbito da política. Ondas progressistas, ameaças de avanço da extrema direita fazem parte do cenário do continente, que encontra na unidade dos partidos de esquerda um caminho para fortalecer e consolidar as políticas públicas em benefício da classe trabalhadora e do desenvolvimento nacional.  

Em 2026, dois países, Venezuela e Cuba, ganharam destaque no noticiário após os últimos ataques imperialistas sofridos a partir das ações do presidente norte-americano, Donald Trump. 

Em janeiro, o país que teve como marco a liderança política de Hugo Chávez assistiu seu presidente Nicolás Maduro ser sequestrado e preso nos Estados Unidos, onde permanece até hoje. Também neste ano, Cuba passa por um momento bastante crítico de sua história, com a radicalização do bloqueio econômico, que causa atualmente apagões permanentes, falta de combustíveis, alimentos e remédios. 

A Argentina, comandada pelo ultradireitista Javier Milei, recentemente aprovou uma Reforma Trabalhista que retrocedeu diversos direitos, além de outras medidas econômicas que, cada vez mais, aumentam a pobreza e pioram os índices sociais do país. 

Enquanto isso, a Colômbia vive sob campanha política presidencial. A expectativa é eleger, no dia 31 de maio, o candidato do Pacto Histórico, Iván Cepeda e sua vice, a senadora indígena Aída Quilcué. E, no México, a presidente Claudia Sheinbaum, eleita após o progressista López Obrador, segue com grande aprovação popular e implantando novas diretrizes de políticas públicas. 

Confira os depoimentos de alguns representantes partidários que estiveram presentes na delegação internacional que participou da Jornada Internacional da Fundação Perseu Abramo no 8º Congresso do Partido dos Trabalhadores. 

COLÔMBIA

Pietro Alarcón, Pacto Histórico

Bom, na verdade estamos em um processo muito complexo na Colômbia, mas o Pacto Histórico tem uma candidatura que recebeu um apoio muito amplo de setores, tanto do movimento social quanto de organizações políticas. Trata-se da candidatura de Iván Cepeda e de Aida Quilcué à presidência e à vice-presidência da República. As eleições são em 31 de maio, e o Pacto Histórico mantém uma ação política de mobilização permanente para, taticamente, assim nós definimos, tentar vencer já no primeiro turno.

Mas também sabemos que a direita está se rearticulando, e é uma direita poderosa, apoiada por grandes empresários, por multinacionais e inclusive pelo governo Trump. Nesse sentido, sem ilusão. Ainda assim, acreditamos que há uma capacidade de resistência do povo e, sobretudo, existe um balanço do governo que apresenta resultados bastante positivos em termos de reforma trabalhista, reforma previdenciária e reforma agrária. Então, acho que há elementos muito positivos que devem ser levados em conta e que a população reconhece, como o aumento do salário mínimo, em uma proporção nunca antes vista na Colômbia.

Esses fatores geram uma expectativa muito grande de vitória do Pacto Histórico e muitos outros setores que, como eu disse, vêm trabalhando junto e construindo uma espécie de bloco político chamado “Aliança pela Vida”, a grande Aliança pela Vida, que esperamos que tenha um resultado positivo.

No mês de março, já tivemos um resultado positivo nas eleições para o Congresso da República, onde a esquerda conquistou a maior bancada da história, tanto no Senado quanto na Câmara. Esse resultado também gera otimismo, mas é um otimismo realista, consciente, não exagerado ou desconectado de uma avaliação das nossas reais possibilidades de continuar no governo e aprofundar as mudanças.

E como você enxerga a questão das ameaças imperialistas agora no continente? Como a Colômbia está se posicionando?

Bom, do ponto de vista do governo, temos uma posição não apenas crítica, mas também entendemos que é necessário, a partir dessa crítica, construir uma alternativa que se contraponha ao fascismo, ao imperialismo e em relação à forma como vem sendo criado um ambiente de guerra, de agressão, de violência, de violação das soberanias, das ameaças contra Cuba e de interferência em processos eleitorais.

Ou seja, o imperialismo vem atuando à margem do direito internacional, e tudo isso gera uma situação que precisa ser enfrentada não apenas pelos governos, mas também pelos povos. Na medida em que os povos se unifiquem em uma ação coordenada, será possível avançar com propostas concretas que mobilizem as pessoas em torno de uma ação decidida pela humanidade, pela paz, pela vida, pelos direitos humanos e bem-estar da população. Acredito que temos uma boa possibilidade de vencer essa batalha, ainda que a conjuntura pareça muito negativa.

VENEZUELA 

Saúl Ortega, PRV – Partido de la Revolución Venezolana

A situação na Venezuela é muito difícil e complexa. Neste cenário, é possível falar um pouco sobre o que o senhor pensa da política atual no continente a partir da questão venezuelana? 

Quando falamos de complexidade é porque o mundo, em geral, está muito problemático. A governança que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial entrou em crise nos anos 90, passou por um processo de decadência e hoje é insustentável. Estamos em uma crise, como definiu Antonio Gramsci, em que o velho não termina de morrer e o novo ainda não nasceu, e aí se abre uma conjuntura muito perigosa. Isso estamos observando isso com os conflitos, o genocídio em Gaza, a guerra na Ucrânia, o ataque à Venezuela e a guerra no Golfo Pérsico com o Irã no Estreito de Ormuz. Há uma situação muito delicada, extremamente perigosa porque, se revisarmos os antecedentes históricos, o nascimento da ordem internacional que está morrendo foi precedido por mais de 50 milhões de mortos. Estamos falando de algo grave, e essa nova ordem que ainda não nasceu não se mostra diferente. Infelizmente, não será em paz. E isso torna a conjuntura muito perigosa, dado que aqueles que têm hegemonia e privilégios não querem perdê-los.

Isso explica a agressividade do imperialismo norte-americano e de seus aliados, que, claramente, mostram uma atitude suicida, porque as agressões que vemos, longe de demonstrar força, são um sintoma de fraqueza. E, nesse contexto, no caso da América Latina e do Caribe, todos estamos ameaçados. Há um desdobramento militar com porta-aviões, submarinos nucleares, navios de guerra, bases militares ativas e um conjunto de aeronaves e tecnologia de ponta apontando para todos aqueles que não se submetem aos desígnios do imperialismo neocolonialista dos Estados Unidos.

Então isso torna a situação, não apenas para a Venezuela, mas para o mundo inteiro, muito perigosa neste momento. É o momento em que os povos devem se mobilizar em defesa da paz, que é um valor absoluto para todas as sociedades. Definitivamente, esses senhores da guerra são os únicos que se beneficiam e lucram às custas do sacrifício dos seres humanos, da paz, da tranquilidade e do progresso aos quais os povos têm direito. Portanto, é fundamental fortalecer toda mobilização política em defesa da paz no mundo, particularmente na América Latina e no Caribe, onde temos instrumentos. Em 2014, em Havana, em uma reunião da CELAC, assinada por todos os chefes de governo e presidentes de nossos países, declarou-se a América Latina e o Caribe como uma zona de paz. Isso foi violado pelo imperialismo norte-americano com o ataque à Venezuela e as constantes ameaças e pressões contra o povo cubano.

Com relação à preocupação com as ameaças de violência na região, qual mensagem considera importante? 

Bom, é o que estamos observando: não apenas o uso da violência, mas também medidas coercitivas e extorsivas que eles chamam de sanções, além da interferência aberta em processos eleitorais, como vimos no caso de Honduras e da Argentina, ou seja, uma interferência direta nos assuntos internos dos países, o que é intolerável. Então, é isso que temos, esse é o cenário. E, diante disso, é importante a unidade dos povos e das forças políticas que têm a obrigação de defender a soberania de nossas nações. Isso se torna um valor muito importante neste momento.

CUBA 

Benigno Pérez Fernández, Cônsul-geral de Cuba em São Paulo

Temos acompanhado as notícias de uma situação muito difícil em Cuba. Qual mensagem seria possível passar para os apoiadores neste momento?

Bom, o povo cubano está sofrendo muito. O imperialismo norte-americano há mais de 65 anos tenta destruir a revolução cubana porque a considera uma ameaça incomum e extraordinária para a segurança dos Estados Unidos, é nisso que acreditam. Mas podemos ser uma ameaça justamente porque somos um exemplo de uma sociedade diferente que pode ser construída, e esse é o motivo de querer destruir a revolução cubana por todos os meios. E já usaram de tudo, invasão, cerco econômico, bloqueio, agora também o bloqueio ao petróleo.

Nos últimos quatro meses, apenas um navio conseguiu entrar em Cuba com petróleo, e há muitas dificuldades na indústria, nas escolas, nos hospitais, nos transportes, em tudo. Mas vamos vencer. A maioria dos cubanos sabe que nossa independência e soberania estão ligadas à revolução e ao socialismo em Cuba. E por isso vamos lutar.

E sobre a resistência do regime? 

Neste momento, há um processo de coleta de assinaturas no país, de pessoas que estão dispostas a lutar pela independência de Cuba. E tenho certeza de que milhões dos que estão sofrendo, dos que enfrentam dificuldades no dia a dia, ainda assim estão dispostos a dar a vida pela revolução.

MÉXICO 

Hector Diaz Polanco, Morena

Claudia Sheinbaum é atualmente uma figura de destaque na política do continente. Como podemos avaliar seus feitos? 

A presidente tem alcançado feitos destacáveis. Em primeiro lugar, deu continuidade ao que já havia sido alcançado no sexênio anterior de Andrés Manuel López Obrador em termos positivos, como manter a política social, ampliar muito os direitos das mulheres, incluindo a criação do que não existia antes no país e que agora ela inaugurou, uma Secretaria das Mulheres.Também houve o desenvolvimento de outros programas sociais que antes não existiam, principalmente, em relação aos jovens, aos estudantes dos primeiros níveis, foi estabelecido praticamente um sistema de bolsa universal para estudantes nos diversos níveis até a universidade. Esse é, para mim, um avanço importantíssimo, porque se relaciona com outros temas, como o da criminalidade. Os lugares onde o narcotráfico e o crime organizado em geral recrutavam jovens para atividades ilícitas eram justamente compostos, em sua maioria, por jovens que haviam abandonado a escola por razões econômicas. Ao não conseguirem terminar os estudos, deixavam a escola e, consequentemente, eram rapidamente captados pela criminalidade. Também manteve o sistema de salários, contribuindo para aumentar o poder de compra e, ao mesmo tempo, controlou a inflação, mantendo-a baixa. Combateu o desemprego, conseguiu reduzir a pobreza proporcionalmente e criou outros projetos produtivos que ajudam a equilibrar a economia do país. Foi desenvolvido um sistema de transporte baseado no Tren Maya, que permitirá o desenvolvimento de zonas rurais ao seu redor, além do investimento na malha rodoviária. Foi criado um plano chamado “Plano México”, que permite a criação de zonas econômicas especiais para produção industrial de alta tecnologia. Além disso, estão sendo desenvolvidos projetos no setor energético vinculados à proteção ambiental, com sistemas solares, entre outros, que permitem ao mesmo tempo gerar eletricidade e proteger áreas ecológicas. 

Então, em geral, podemos dizer que é um governo muito bem-sucedido. E vale dizer que tudo isso não é teórico, a própria população expressa isso. Quase toda semana, as principais pesquisas do país perguntam sobre a aprovação, e ela está acima de 80% neste momento, o que é um sucesso evidente.

E com relação ao tema da defesa e da soberania nacional?

Sim, isso é extraordinário por várias razões. Em primeiro lugar, reafirma uma trajetória iniciada por Andrés Manuel no sentido de aplicar o que a Constituição estabelece sobre as relações internacionais, o que ganha ainda mais importância diante da política de Donald Trump, que representou um ataque à soberania dos países. Assim, princípios como autodeterminação e resolução pacífica de conflitos, que estão na Constituição e que a presidenta começou a aplicar, encaixam-se perfeitamente frente à tendência dos Estados Unidos de impor sua versão da Doutrina Monroe, que implica, na prática, um ataque direto à soberania dos países latino-americanos, em alguns casos inclusive com agressões armadas, como no caso da Venezuela. Portanto, a política da presidenta de promover uma visão ampliada de soberania é muito pertinente, voltada para dentro, com soberania alimentar e energética, e, para fora, atuando contra políticas expansionistas do governo de Donald Trump na América Latina. Nesse sentido, é bastante valorizada pelos países que enfrentam ameaças a sua soberania.

Por fim, do ponto de vista do partido Morena, houve um crescimento recente no número de filiados. Como você avalia isso? É um bom momento para o partido enquanto força política? 

Sim, acredito que Morena vive um momento muito interessante, de reafirmação do que já foi conquistado. Conseguimos vencer eleições apresentando à população um bom projeto de nação, que busca não apenas manter a soberania, mas também elevar o bem-estar do povo aos níveis desejados. E essa proposta despertou interesse. Agora, ela exige bons governos, e o partido faz o possível para apoiá-los, garantindo que tenham sucesso e não se desviem de seus objetivos. Isso implica em um comportamento à altura do que a população espera de seus dirigentes, sem desperdícios, privilégios ostentatórios, exibição de riqueza. Mesmo quando o dinheiro é privado, esse tipo de ostentação pode ofender a população. As pessoas devem sentir que os governantes estão ali para servir, e não para se servir. Tudo isso não é exatamente novo, mas está sendo fortalecido, consolidado e também corrigindo desvios que eventualmente surgem. 

ARGENTINA

Ariel Elger, Partido Comunista Argentino

Milei é o melhor súdito do imperialismo norte-americano, e, na política nacional, vem avançando contra todos os interesses do povo e da classe trabalhadora. No mês de fevereiro, foi discutida no Congresso e no Senado uma reforma trabalhista que nos leva de volta a um período anterior à Revolução Industrial, uma reforma de caráter praticamente escravista. Essa reforma favorece a flexibilização do trabalho e o multiemprego, em que a classe trabalhadora não consegue organizar sua vida, já que é estimulada a ampliação da jornada para até 12 horas, com mudanças constantes. Também se legitima a possibilidade de contratar trabalhadores de forma informal, como autônomos, sem qualquer vínculo empregatício entre o trabalhador e a empresa.

Nesse contexto, isso gerou, no movimento sindical e no movimento social, uma grande quantidade de mobilizações, lutas e resistências. Infelizmente, não foi possível impedir a aprovação no parlamento, mas foi possível gerar uma base subjetiva e ideológica no povo para impulsionar novas mobilizações e lutas, que voltem a colocar a Argentina no caminho da integração latino-americana, das transformações estruturais e da possibilidade de derrotar a política de Milei nas eleições, e em todos os campos.

Como é possível reagir a esse alinhamento tão direto de Milei a Trump? Qual é a expectativa para o próximo período?

De fato, Milei se alinhou ao que chamam de “eixo do mal”, com Israel e com Trump. Ele fez mais de 13 viagens aos Estados Unidos e mais de três a Israel, onde se encontra e se abraça com um líder acusado de crimes de guerra e genocídio, não apenas contra um povo, mas contra mulheres e crianças, e comemora declarações sobre a possibilidade de a Argentina declarar o Irã como inimigo do povo e do Estado argentino.Isso nos coloca em uma situação de risco, podendo trazer conflitos para o nosso território, junto com a tentativa de instalar uma base militar dos Estados Unidos no extremo sul do país, com foco estratégico na Antártida.

Diante disso, para o conjunto das forças de esquerda, torna-se necessário fortalecer perspectivas anti-imperialistas e construir uma corrente de esquerda revolucionária que não apenas apoie as causas consideradas justas, como as do povo palestino, cubano e venezuelano, mas que também, ao lutar contra as políticas imperiais, vá construindo um projeto patriótico de recuperação dos recursos que estão em mãos estrangeiras, articulando esse anti-imperialismo e esse patriotismo com uma transformação radical da sociedade.