
No Brasil, o 1º de maio ainda reflete majoritariamente a realidade urbana do trabalho. No campo, especialmente entre mulheres trabalhadoras rurais, a data expõe outras camadas de desigualdade, invisibilidade e sobrecarga.
Para Vânia Marques Pinto, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG), a experiência das mulheres no campo evidencia limites no reconhecimento do próprio trabalho.
“Quando a gente fala das mulheres do campo, a gente está falando de dupla e até tripla jornada. É o trabalho na produção, o trabalho doméstico, o cuidado com os filhos, com os idosos. E muitas vezes esse trabalho não é reconhecido como trabalho”, afirma.
Segundo ela, na agricultura familiar, a separação entre trabalho produtivo e trabalho doméstico é difusa, o que amplia a invisibilidade. “O quintal é extensão da casa, e a casa é extensão do trabalho. Muitas mulheres, quando estão na roça, dizem que estão ‘ajudando’ o marido, e não trabalhando”, diz .
Concentração fundiária e desigualdade de gênero caminham juntas
A desigualdade também se expressa no acesso à renda e à terra. Mesmo quando participam diretamente da produção, muitas mulheres não são titulares das propriedades nem responsáveis pela comercialização. “Existe um estigma de que a comercialização ainda fica, na maioria das vezes, sob responsabilidade dos homens”, afirma.
Além disso, a concentração fundiária segue como um entrave estrutural. Dentro desse cenário, o acesso das mulheres à terra ainda é mais limitado. “A terra continua sendo um problema estruturante, e as mulheres têm menos acesso”, pontua.
Barreiras no acesso a políticas públicas mantêm desigualdades
A dificuldade de acesso a políticas públicas também aprofunda esse quadro. Falta de documentação, barreiras no crédito e entraves na regularização fundiária e ambiental dificultam que mulheres acessem programas essenciais.
“Temos ainda um número significativo de mulheres que sequer têm documentação básica para acessar políticas públicas. E, quando olhamos para crédito e assistência técnica, tudo isso ainda chega com muita dificuldade”, afirma.
Reconhecimento depende de mudança estrutural no campo
Apesar dos obstáculos, Vânia destaca que políticas com recorte de gênero têm gerado avanços, ainda que recentes. Programas voltados ao acesso ao crédito, à produção e à comercialização têm ampliado a autonomia das mulheres no campo.
“São mudanças importantes, mas ainda insuficientes. As políticas precisam considerar a diversidade das mulheres do campo, porque não existe uma única realidade”, explica.
Nesse contexto, o reconhecimento do trabalho feminino no campo passa não apenas por visibilidade, mas por mudanças estruturais. “As políticas públicas precisam ter recorte de gênero em todas as suas dimensões. Só assim será possível enfrentar a desigualdade que ainda marca o campo brasileiro”, finaliza.
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