
Entre portões de ferro e corredores sem janela, a semana para os operários começa antes do sol nascer.
Diego Pereira | São Paulo (SP)
CRÔNICA – É segunda-feira e já se anuncia o início da semana de produção. Seguro o portão de ferro da fábrica para Graça, que acelera os passos ao me avistar da esquina. Assim, ela ganha cerca de dois minutos para bater o ponto, evitando o chamado do interfone e aproveitando em conjunto o elevador até o quarto andar. Batemos o ponto antes do sol.
A fábrica não termina no galpão. Ela se espalha pelas ruas vizinhas, nas casas alugadas pelos próprios patrões, onde famílias bolivianas vivem comprimidas entre paredes finas, umidade e promessas nunca realizadas. Também ali alugam a frente para um boteco, onde só o pão de queijo custa sete reais – preço que não cabe no salário de nenhum ajudante de produção.
Essas casas parecem puxadinhos da fábrica. Até nosso descanso tem dono.
Num desses imóveis, o fundo do corredor guarda um quarto improvisado. Dez metros quadrados que já foram depósito de ferramentas, depois dormitório, e agora voltam a ser extensão da produção. Ali colocaram oito máquinas antigas, pesadas, substituídas pelas novas no galpão principal.
Quem opera as máquinas é um senhor de 79 anos, mãos marcadas pelo tempo e pelo tecido. Começou a trabalhar no setor têxtil em 1972. Já trabalhou no Bairro do Limão, no Brás, Bom Retiro, Jaçanã e conta que viveu cada transformação das máquinas de costura desde então. Apesar da constante atualização, os patrões decidiram que as máquinas velhas combinavam mais com sua idade. Não acharam necessário, porém, que combinasse também água, banheiro ou cadeira.
Na fábrica, Seu Esteves é chamado apenas de “Velho”. Eu prefiro chamá-lo pelo nome, e parece que ele também, já que faz questão de me cumprimentar com um aperto de mão todas as manhãs, mesmo depois de já termos trocado um bom dia à distância no refeitório.
Com ele, fica o jovem Afonso, que, depois de cinco anos de fábrica, por alguns meses, tentou escapar da linha de produção. Aprendeu estética automotiva, polimento, brilho, verniz. Sonhava, ele e o primo, com autonomia, com clientes próprios, com um serviço que terminasse quando o carro estivesse pronto – não esse sem fim de metas inalcançáveis.
Mas o brilho da lataria não segurou as contas. O fluxo de clientes falhou, o aluguel não esperou, a comida foi ficando mais curta a cada mês. Voltou para a fábrica.
Agora, Afonso e Esteves dividem o espaço sem janela. O ar pesa entre poeira e óleo antigo. Não há banco para sentar. O descanso é parar de pé por alguns segundos, enquanto não instalam as câmeras.
No primeiro dia, o jovem quase não olha para o idoso. Não gosta da imagem de futuro que vê ali. Seu Esteves, por sua vez, parece reconhecer aquele gesto – como quem já viu muitos jovens tentando não enxergar o tempo.
No segundo dia, Esteves divide seu café guardado num pote pequeno de plástico. Diz que antigamente se levava café para os colegas quando a produção apertava, porque o corpo não aguentava em silêncio. O jovem aceita, primeiro por educação, depois por necessidade.
No terceiro dia, Afonso improvisa um banco com os caixotes da produção. Seu Esteves observa, elogia o jeito de resolver as coisas sem esperar autorização e conta que já viu muita máquina nova produzir menos que máquina velha quando quem opera acredita que pode melhorar o próprio trabalho.
A conversa cresce entre uma costura e outra. Descobrem que ambos pensaram em sair: o jovem queria demissão, o senhor queria aposentadoria. Nenhum conseguiu ainda.
Numa tarde de calor abafada, uma folha dobrada aparece num dos caixotes perto da porta, talvez trazida no bolso de alguém que veio repor o material. O papel anuncia uma reunião de trabalhadores do setor têxtil, para discutir as condições de trabalho, desvios de função e direitos previdenciários. Fala de jornadas, de saúde, de aposentadoria negada, de salários comprimidos enquanto as demandas aumentam.
O jovem lê primeiro com desconfiança. Seu Esteves pede o papel, ajusta os óculos antigos e lê devagar, linha por linha. Diz que já viu panfletos assim antes, e que ajudam a lembrar que a fábrica não é maior que quem trabalha nela.
No dia seguinte, contam para Graça no elevador o que leram no panfleto. Comentam com mais alguns no refeitório. Um comenta com outro, que comenta com mais um. O papel passa de mão em mão, dobrado, muitas vezes, até caber no bolso de todos.
O quarto continua com dez metros quadrados. Continua sem janela. Mas já não é o mesmo espaço isolado. A fábrica não encerra o domínio dos patrões, e o porão não encerra a força dos operários.
Dez metros quadrados bastariam para esconder muita coisa. Mas também bastaram para que duas gerações percebessem que o silêncio só interessa a quem não precisa trabalhar ali dentro. Batemos o portão de ferro no fim do dia.
Por hora, o quarto continua lá. Mas agora, dobrado no bolso do avental, tem também um futuro diferente daquele que se encerrava no porão. Duas gerações se encontram num mesmo presente, numa mesma classe, numa mesma luta. Amanhã, nos encontraremos de novo, um dia mais próximos de ter tempo de ver o dia nascer fora dali.
Crônica publicada na edição impressa nº332 do jornal A Verdade