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Ato marca 26 anos da morte do Sem Terra Antonio Tavares, assassinado pela PM do governador Jaime Lerner

Foto: Murilo Bernardon

Por Setor de Comunicação e Cultura do MST-PR

Vinte e seis anos após o assassinato do camponês Sem Terra Antonio Tavares, dezenas de pessoas se manifestaram por justiça, pelo fim da violência policial e contra a criminalização de movimentos populares. O ato ocorreu na manhã deste sábado (2), em torno do monumento erguido às margens da BR-277, em Campo Largo (PR), nas proximidades de onde ocorreu o crime. O monumento tem cerca de 10 metros e foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer em homenagem aos mártires da luta por Reforma Agrária.

Militantes do Coletivo de Juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e do assentamento Contestado, localizado na Lapa, apresentaram uma mística em que relembraram o contexto e a dor daquele dia, marcado na história do Paraná como “Massacre da 277”. A brutalidade da Polícia Militar deixou cerca de 200 pessoas feridas, além de matar Antonio Tavares, então com 38 anos, casado e pai de cinco filhos. Tavares foi atingido pelo PM Joel de Lima Santa Ana. O caso segue impune até hoje.

Giovanna Menezes, advogada popular da Terra de Direitos e uma das autoras da cartilha, apresentou o material o público do ato. Foto: Murilo Bernardon 

Também houve a apresentação e distribuição da cartilha “Justiça por Antonio Tavares: o direito de lutar pela terra e por reforma agrária”, produzida pela organização de direitos humanos Terra de Direitos e pelo MST. O material traz um resumo sobre o caso e o contexto em que ocorreu, apresenta o monumento projetado por Niemeyer e a luta por justiça.

Mesmo com a chuva e o frio desde sábado, a ação reuniu dezenas de pessoas assentadas em comunidades da reforma agrária da região e apoiadores do MST. Nelson Barbosa, morador do assentamento Contestado, da Lapa, estava entre os camponeses barrados e revistados pela PM. “Nós viemos para a mobilização e fomos barrados lá na frente. Quando nós subimos lá em cima e soubemos do que estava acontecendo, foi um grande choque. E daí a gente não podia vir até aqui”, relembra o agricultor. No dia seguinte, Tavares foi velado no próprio Contestado.

Sandra Mara Maier ajudou a socorrer os feridos vítimas do massacre. Foto: Murilo Bernardon

Após a intensa repressão policial, o resultado foi mais de 200 pessoas feridas e Antonio Tavares morto. Sandra Mara Maier também fazia parte do assentamento Contestado e estava em Curitiba no momento em que houve o massacre. Ela se emocionou ao relatar como foi aquele dia. “Foi um momento muito tenso, muito violento. […] Eu ajudei a atender as pessoas que estavam feridas por balas de borracha, entre elas um homem que viu de perto o assassinato de Antonio Tavares e se tornou uma testemunha”, contou ao público do ato.

Sandra relembrou o acampamento realizado pelo MST em frente ao Palácio das Araucárias, sede do governo do Paraná, no bairro Centro Cívico, em Curitiba, que teve entre os objetivos denunciar a repressão cometida pelo governo Lerner contra as famílias Sem Terra. A ocupação durou de junho a novembro de 1998 e ficou conhecida como a “cidade de lona preta”.

“A gente construiu lá desde escola, horta, padaria, também plantio de horta. Enfim, criamos uma vida ali no Centro Cívico para dialogar com a sociedade e mostrar para as famílias, para a população que passava por ali, o que estava acontecendo no Paraná. […] Era para tornar pública para toda a sociedade essa violência que o governo cometia contra nós”, conta Sandra, que participou de quase todos os dias daquela longa mobilização. Poucos meses depois de serem expulsos do Centro Cívico, os camponeses sofreram o ataque na BR-277.

Fotos: Murilo Bernardon
Fotos: Murilo Bernardon
Antonio Goulart é um dos responsáveis pela construção do monumento projetado por Niemeyer. Fotos: Murilo Bernardon

Diante do monumento em homenagem aos mártires, Nelson Barbosa frisou a importância da organização e da resistência do povo Sem Terra e da memória de Tavares: “Hoje Antonio Tavares é um homem muito grande para cada um de nós e para o MST”.

Entenda o caso

O crime ocorreu em um contexto de grande violência do governo do Paraná, comandado por Jaime Lerner, contra camponesas e camponeses que lutavam pela Reforma Agrária. Mais de 2 mil militantes Sem Terra seguiam em comboio com dezenas de ônibus, vindos de todas as regiões do estado rumo a Curitiba.

O objetivo era realizar uma marcha pela Reforma Agrária para celebrar o Dia Internacional do Trabalhador e entregar ao Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) uma série de reivindicações, entre elas o fim da violência contra as famílias camponesas. Entre 1994 e 2002, durante os mandatos de Jaime Lerner no governo do estado, a Comissão Pastoral da Terra aponta que 16 trabalhadores Sem Terra foram assassinados, 47 sofreram ameaças de morte, 324 ficaram feridos, 502 foram presos, além de 134 despejos violentos no estado.

Mulheres e crianças também estavam entre as vítimas da violência policial. Foto: Arquivo APP-Sindicato

A menos de 30 quilômetros do destino, os ônibus foram barrados pela Polícia Militar e impedidos de seguir. A mando de Lerner, a força policial iniciou um verdadeiro massacre com balas de borracha, cavalaria, bombas, cães e até o uso de um helicóptero. Sem ter para onde correr, muitas pessoas tiveram que se esconder no mato próximo à rodovia.

Estado brasileiro condenado pelo assassinato de Antonio Tavares

O Estado brasileiro foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), em sentença divulgada em março de 2024, pelo assassinato de Antonio Tavares. A Corte reconheceu a intensa violência e a omissão da Justiça brasileira pela morte do camponês e pelas lesões sofridas por cerca de 200 integrantes do MST por parte de agentes da PM.

Diante do arquivamento do caso na Justiça brasileira e da manutenção da impunidade, o caso foi denunciado em 2004 à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Em fevereiro de 2021, o caso foi submetido à Corte Interamericana pelo próprio MST, pela organização Terra de Direitos e pela Justiça Global.

Com mais de 80 páginas, a decisão traz quatro grandes determinações ao Estado brasileiro. A primeira diz respeito ao fato de que a Justiça militar não tem competência para julgar e investigar militares que cometam crimes contra civis. A medida visa enfrentar o atual quadro de impunidade. No processo de responsabilização dos envolvidos no crime contra Tavares, os inquéritos na Polícia Militar e na Polícia Civil foram arquivados, e as lesões corporais impostas às pessoas feridas jamais foram objeto de investigação pelas autoridades locais.

Outra medida presente na sentença é a inclusão de conteúdo específico no currículo para a formação permanente de agentes de segurança pública, de modo a garantir o respeito aos direitos dos manifestantes.

Antônio Tavares com dois de seus cinco filhos. Foto: Arquivo familiar

A sentença também reconhece o direito à manifestação e determina a realização, pelo Estado brasileiro e pelo Paraná, em diálogo com as vítimas e seus representantes, de ato público de reconhecimento de responsabilidade pelas violações de direitos do caso. A decisão deve ser divulgada amplamente pelas autoridades públicas nacionais.

Também ficou determinado que o Estado proteja o monumento erguido às margens da BR-277. A obra de Niemeyer foi declarada patrimônio imaterial em 2023. A decisão obriga a adoção de todas as medidas adequadas para a preservação do local, o acesso público e a garantia de manutenção.

A Corte ainda determinou a reparação às vítimas presentes no dia e também aos familiares de Antonio Tavares, com apoio psicológico e indenização por danos morais e materiais.

Assista ao documentário sobre o caso:

O filme Arquiteto da Violência, disponível no YouTube, mostra como foi o massacre e toda a violência sofrida pelo MST nos anos Lerner:
youtube.com/watch?v=XofIbnnRASo 

*Editado por Yuri Gringo

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