
Quinze anos depois, a cena ainda parece saída de um roteiro cuidadosamente editado em Hollywood: às 23h35 do dia 1º de maio de 2011, Barack Obama apareceu na televisão, nos Estados Unidos, com uma expressão que equilibrava solenidade e triunfo. Naquela noite, o presidente norte-americano anunciava ao mundo que Osama bin Laden estava morto.
“A justiça foi feita”, disse Obama. Uma operação conduzida por forças especiais dos EUA num complexo em Abbottabad, no território paquistanês, era apresentada como o capítulo final de uma caçada iniciada após os ataques de 11 de setembro de 2001. Em poucas horas, o corpo do fundador da Al-Qaeda seria lançado no Mar Arábico.
A narrativa oficial, empreendida pela Casa Branca, tentava impor a tese da vitória definitiva. Havia, sem dúvida, um impacto político e emocional imediato, já que Bin Laden era um emblema. Sua morte parecia um gesto potente, carregado de significado, como a derrubada de uma estátua em praça pública.
Passados 15 anos, a metáfora do naufrágio se revela perturbadoramente adequada – e a promessa de encerramento de uma era não passou de slogan. O corpo desapareceu nas águas, mas a promessa de segurança também. O mundo não ficou mais pacífico. Os objetivos estratégicos declarados pelos EUA para justificar a chamada “guerra ao terror” seguem, em grande medida, no fundo do mar, com Bin Laden.
Da Al-Qaeda ao Estado Islâmico
Militarmente, a Operação Lança de Netuno pode ser considerada um sucesso inegável. Do ponto de vista tático, a ação foi precisa e eficiente, demonstrando a capacidade de projeção militar e de inteligência dos EUA. Bin Laden – personificação, para o público ocidental, dos atentados de 11 de setembro – foi eliminado. Obama deu a entender que a conclusão da caçada era um ponto final, como se a morte de um homem decretasse o fim de um fenômeno enraizado.
A história tratou de mostrar o contrário. Se uma estratégia se mede pela transformação duradoura do cenário, há, no máximo, um ponto que pode sustentar a tese de vitória norte-americana: com o passar dos anos, diversas medidas adotadas pela Casa Branca tornaram praticamente improvável um novo ataque terrorista ao país de escala e complexidade similares aos do 11 de Setembro.
É pouco diante do “conjunto da obra”. Longe de ter sido “destruída”, a Al-Qaeda sobreviveu mais resiliente como rede sem um comando unificado. Após um período de desorganização inicial, o grupo se reconfigurou e deixou de operar com centralização rígida, alimentando filiais no Iêmen, no Magrebe e na Síria.
Ao mesmo tempo, novos atores emergiram. É o caso do Estado Islâmico (EI), que, a partir de 2013, ocupou o vazio de protagonismo com uma estratégia distinta: controle territorial combinado com uma comunicação digital agressiva e eficaz. O grupo não era herdeiro direto de Bin Laden, mas foi o maior beneficiário do vácuo de poder deixado pela morte do líder da Al-Qaeda, pelas intervenções ocidentais mal geridas e pelas guerras civis no Iraque e na Síria.
Entre 2014 e 2017, o EI controlou um território do tamanho do Reino Unido, impôs um califado autoproclamado com violência sistemática e exportou ataques para a Europa. Se a Al-Qaeda operava como uma teia subterrânea, o novo grupo ergueu uma vitrine altamente visível que atraiu combatentes e atenção global.
A propaganda do EI mobilizou simpatizantes dessa mensagem radicalizada sem ligação direta com organizações – os chamados “lobos solitários”. Os atentados em Nice (2016), Berlim (2016), Manchester (2017) e Barcelona (2017) foram realizados por indivíduos inspirados (mas não controlados) por grupos como o Estado Islâmico ou a Al-Qaeda.
No plano geopolítico mais amplo, os resultados tampouco corresponderam às expectativas anunciadas em 2001. A guerra no Afeganistão, iniciada sob o argumento de desarticular essas redes e estabilizar o país, custou aos EUA mais de US$ 2 trilhões e cerca de 2.500 vidas de militares. Em agosto de 2021, após 20 anos de guerra, os EUA realizaram uma retirada caótica de Cabul. O Talibã, mesmo regime que abrigara Bin Laden no passado, voltou ao poder.
A segurança global
A operação que matou Bin Laden também levantou questões jurídicas que, na euforia do momento, foram varridas para debaixo do tapete. O ataque ocorreu dentro do território do Paquistão, sem nenhuma notificação prévia ou autorização do governo local, o que foi interpretado por especialistas como violação da soberania de um país estrangeiro. Analistas ainda caracterizam o ato como uma execução extrajudicial seguida de desaparecimento forçado.
Organizações de direitos humanos criticaram a decisão de sepultar Bin Laden no mar em menos de 24 horas, sem cumprir rituais islâmicos e sem permitir qualquer verificação independente. Imagens do corpo não foram divulgadas integralmente. A alegada necessidade de evitar que o túmulo se tornasse um “santuário” para seguidores é alvo de controvérsia à luz das convenções de Genebra e de tratados de direitos humanos.
Depois de 15 anos, o mundo está mais seguro? A evidência empírica aponta que não. A morte de Bin Laden foi, tecnicamente, uma operação bem-sucedida. Mas, no longo prazo, o assassinato de um adversário importante virou um fracasso estratégico.
Os EUA não conquistaram seus objetivos declarados. A Al-Qaeda não foi extinta e a descentralização de suas células tornou a prevenção mais difícil. O Afeganistão não foi estabilizado. Conforme o Global Terrorism Database e outros centros de monitoramento, o número de ataques jihadistas anuais cresceu na década de 2010 em relação à década anterior. Pior: a Primavera Árabe de 2011 e suas consequências, como guerras na Líbia, no Iêmen e na Síria, forneceram novos laboratórios de radicalização. Ameaças de outro tipo sobrevieram, deixando o mundo mais fragmentado – e a segurança coletiva, mais frágil.
A ameaça global associada a esses grupos apenas mudou de forma. Em vez de grandes operações coordenadas, multiplicaram-se ações descentralizadas, muitas vezes conduzidas por indivíduos ou pequenas células com vínculos difusos. É como se o fenômeno tivesse deixado de ser uma tempestade concentrada para se tornar uma sucessão de rajadas imprevisíveis.
Por fim, a prática de execuções direcionadas – muitas vezes sem julgamento – ampliou a zona cinzenta entre a guerra e o direito internacional. Bin Laden foi assassinado sem o devido processo legal, o que, segundo especialistas, tensiona normas sobre uso da força fora de conflitos armados formalmente declarados.
Uma morte pode encerrar uma biografia, mas não um ciclo histórico. Como mapear e explicar o mundo atual com tanta clareza? O corpo de Bin Laden está no fundo do mar – mas a ideologia que ele propagou continuou a nadar. Nas costas de Abbottabad, há 15 anos, um helicóptero pousou. Nas costas do mundo, as ondas daquela noite ainda não se aquietaram.
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