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Alexandre de Fisterra: poeta, anarquista e inventor do pebolim

Há 107 anos, em 6 de maio de 1919, nascia o poeta, jornalista, editor e inventor espanhol Alexandre Campos Ramírez, mais conhecido como Alexandre de Fisterra.

Militante do movimento anarquista, Alexandre foi gravemente ferido por um bombardeio durante a Guerra Civil Espanhola. No hospital, comovido com o drama das crianças mutiladas que não podiam mais brincar ou jogar futebol, ele teve a ideia de criar um jogo de “futebol de mesa”, dando origem ao pebolim (ou totó).

Após o término do conflito, Alexandre cruzou a cordilheira dos Pireneus a pé para se refugiar na França. Depois exilou-se na Guatemala, onde foi sequestrado por agentes franquistas, mas conseguiu evitar seu retorno à Espanha simulando estar armado com uma bomba e ameaçando explodir o avião. Destacou-se ainda pela prolífica atividade editorial no México e pela sua contribuição para preservar a obra do dramaturgo León Felipe.

Juventude

Alexandre Campos Ramírez nasceu na cidade de Fisterra, na comunidade autônoma de Galiza, noroeste da Espanha. Era um dos 10 filhos de Josefina Ramírez Barreiro e do telegrafista e sapateiro Manuel Campos Pedreira.

Ainda pequeno, Alexandre se mudou com sua família para Corunha, onde cursou as primeiras letras. Sua infância transcorreu em uma Espanha mergulhada em violentos embates entre as forças conservadoras e os movimentos de esquerda, em meio a conflitos, greves, insurreições e repressões que culminariam na Guerra Civil Espanhola.

Aos 15 anos, a fim de concluir o ensino secundário, Alexandre se mudou para Madri. Para se manter na cidade, trabalhou como pedreiro, tipógrafo e até como dançarino de sapateado na companhia de Celia Gámez. Na capital espanhola, o jovem acabou se aproximando do movimento operário e dos grupos anarquistas, participando dos protestos e atos que reivindicavam melhores condições de trabalho.

Alexandre também frequentou os círculos culturais madrilenhos. Interessou-se pela poesia, produzindo versos abordando a injustiça social e denunciando a opressão imposta à classe trabalhadora. Tornou-se amigo do poeta e dramaturgo León Felipe e fundou a revista literária “Paso a la Juventud”, mantida em colaboração com Rafael Sánchez Ortega.

A guerra civil e o futebol de mesa

Em julho de 1936, um golpe militar liderado pelo general Francisco Franco contra o governo de centro-esquerda da Frente Popular deu início à Guerra Civil Espanhola. A forte resistência popular impediu que os golpistas tomassem o controle de Madri e outros grandes centros urbanos, resultando em um conflito prolongado e sangrento entre as tropas franquistas (apoiadas pelos regimes fascistas europeus) e as forças republicanas (congregando anarquistas, socialistas e comunistas).

Em novembro de 1936, a residência de Alexandre em Madri foi destruída por um bombardeio franquista. Soterrado sob os escombros e gravemente ferido, o escritor foi levado para um hospital improvisado montado no Hotel Colônia Puig de Montserrat, na Catalunha.

Enquanto se recuperava no hospital, Alexandre ficou impressionado ao observar a quantidade de crianças feridas e mutiladas pelo conflito, muitas das quais se queixavam de não poder mais brincar ou jogar futebol. Comovido, ele teve a ideia de criar um jogo que reproduzisse a dinâmica do futebol em escala reduzida. Surgiu assim o futebol de mesa — também conhecido no Brasil como pebolim ou totó.

Jogos semelhantes já tinham sido criados desde o fim do século 19, mas foi a versão idealizada por Alexandre que se tornou a mais popular no mundo. O projeto foi desenvolvido em colaboração com o carpinteiro basco Francisco Xavier Altuna, que o ajudou a construir os primeiros protótipos. O jogo consistia em uma mesa com barras de ferro rotativas, às quais estavam fixadas figurinhas de madeira de jogadores, permitindo simular partidas de futebol.

Em 1937, Alexandre registrou a patente de sua invenção. O conflito, no entanto, impediu a produção do jogo em escala industrial, uma vez que as fábricas de brinquedos estavam todas atuando no esforço de guerra.

O futebol de mesa seria a primeira de quase 50 invenções criadas por Alexandre ao longo de sua vida. Ele também se destacou como o criador do “pasahojas” — um passador de partituras acionado por pedal. O dispositivo foi criado para impressionar Núria, uma pianista por quem Alexandre havia se apaixonado.

. Alexandre de Fisterra e seu invento, o pebolim
Via LibCom

Prisão e exílio na França

A Guerra Civil Espanhola chegou ao fim em 1939, com a vitória das forças de Franco. O novo regime transformou a Espanha em uma ditadura de inspiração fascista e reprimiu duramente os apoiadores dos republicanos.

Assim como muitos anarquistas e comunistas, Alexandre foi forçado ao exílio. Ele cruzou a cordilheira dos Pireneus a pé, buscando refúgio na França. Durante a viagem, acabou por perder a documentação de sua patente do futebol de mesa. O episódio impediu que Alexandre recebesse compensação financeira significativa pela exploração comercial de seu invento.

Ao tentar retornar para Galiza, Alexandre foi preso e condenado a servir nas guarnições do Exército Espanhol em Marrocos. Permaneceu nessa função por três anos, até receber baixa em 1943. Viveu por mais um período em Madri e se casou com sua primeira esposa, Emilia de Roa y Riaza. Depois partiu para o exílio na França, onde permaneceu até 1948.

Em Paris, Alexandre trabalhou no rádio e se tornou editor da revista “L’Espagne Républicaine”, que congregava diversos escritores e intelectuais exilados em sua redação. Produziu diversas matérias de destaque, incluindo entrevistas memoráveis com personalidades como Pablo Picasso, Carmen Amaya e Rafael Alberti.

Alexandre seguiu produzindo poesias, crônicas e contos. Publicou o livro “La Gaita” e a coletânea de poemas “Cantos Esclavos”. Escreveu vários artigos e ensaios sobre o folclore e as danças tradicionais espanholas. Um de seus contos serviria de base para a peça “Do Amor e da Morte”, encenada em Monte Carlo em 1949.

Ainda na capital francesa, Alexandre se deparou com uma loja que vendia as mesas de pebolim que ele havia criado. Auxiliado pela Associação Internacional de Refugiados, ele conseguiu acionar o fabricante na justiça, obtendo uma indenização que lhe permitiu viajar para a América Latina.

Equador, Guatemala e México

Em 1948, Alexandre e sua família se mudaram para o Equador. Vivendo em Quito, ele fundou a revista “Ecuador 0°, 0′, 0″”, posteriormente rebatizada como “Revista de Poesia Universal”. Durante todo o exílio, o poeta galego manteria intensa atividade política e cultural, denunciando os abusos do regime franquista e abrindo espaço para refugiados, escritores e intelectuais antifascistas.

Quatro anos depois, em 1952, Alexandre se mudou para a Guatemala. Governada por Jacobo Árbenz Guzmán, a nação centro-americana vivia um período áureo de transformações políticas e sociais. Ao lado de seus irmãos, Alexandre montou uma loja de brinquedos e aperfeiçoou sua mesa de pebolim. Ele também inventou outros jogos, incluindo uma nova versão da Batalha Naval e o basquete de mesa.

Em 1954, Alexandre se tornou amigo do revolucionário argentino Ernesto Che Guevara, que havia se mudado para a Guatemala para acompanhar o ambicioso projeto de reforma agrária implementado por Guzmán. A convivência, no entanto, foi breve. Em junho de 1954, Guzmán foi deposto por um golpe de Estado apoiado pela CIA e liderado por Carlos Castillo Armas.

Logo após o golpe, Alexandre foi capturado por agentes franquistas e colocado em um avião com destino a Madri. Ele estava sendo monitorado há meses em função de seus contatos com lideranças do governo republicano. Durante o voo para a capital espanhola, Alexandre protagonizou um dos primeiros sequestros aéreos da história. Ele pegou uma barra de sabão no banheiro do avião, enrolou em papel alumínio e simulou que estava armado com uma bomba, ameaçando explodir a aeronave.

O blefe deu certo. O piloto desviou o voo para o Panamá, onde Alexandre desembarcou. Em seguida, o inventor se estabeleceu no México, país que abrigava uma numerosa comunidade de refugiados da Guerra Civil Espanhola.

Na capital mexicana, Alexandre fundou a Editora Finisterre, especializada na publicação de livros de literatura e arte e obras de autores espanhóis, sobretudo galegos. Também atuou como editor da “Revista do Centro Galego” e escreveu artigos para o jornal “El Nacional”.

A atividade editorial de Alexandre foi essencial para difundir as obras de intelectuais espanhóis que enfrentavam a censura do regime franquista. Ele ajudou a compilar a “Antologia da Poesia Galega” em 1966 e foi idealizador do Prêmio Olímpico de Poesia, instituído em 1968. Também foi nomeado executor do testamento de seu amigo León Felipe, a quem homenageou com uma comovente cerimônia no Bosque de Chapultepec.

Retorno à Espanha e anos finais

Em 1975, quando estava de passagem pela Espanha, Alexandre foi preso em função de suas críticas a Francisco Franco. Foi condenado a um ano de prisão, mas ficou apenas cinco dias na cadeia, beneficiado pela anistia concedida logo após a morte do ditador espanhol.

Com a redemocratização, Alexandre retornou ao seu país natal após décadas de exílio. Casou-se pela segunda vez com Ana María Amparo Herrero Palacios e fixou residência em Aranda de Duero, mudando-se posteriormente para Zamora. Tornou-se membro correspondente da Real Academia Galega e prosseguiu com sua atividade editorial e com a produção de ensaios e poemas.

Um de seus principais projetos após o retorno a Espanha foi o resgate do legado cultural de León Felipe. Além de convencer a Alianza Editorial a publicar a obra completa do dramaturgo castelhano, Alexandre editou a coletânea “Perspectivas Espanholas” e produziu edições fac-símile de originais das décadas de 1930 e 1940. Faleceu em Zamora em 9 de fevereiro de 2007, aos 87 anos.

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