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Thiago Ávila chega ao Brasil após prisão em Israel e denuncia tortura: ‘diziam diretamente que queriam me matar’

O ativista brasileiro Thiago Ávila retornou ao Brasil nesta segunda-feira (11/05), após ser mantido preso em Israel por dez dias. O defensor da causa palestina foi sequestrado pelas forças armadas israelenses no dia 30 de abril, quando participava em uma nova missão da Global Sumud Flotilha que tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza.

Ávila chegou por volta das 17h30 em Guarulhos, onde fez escala antes de tomar outro voo para Brasília. Está programada uma recepção ao ativista no aeroporto por organizações que defendem a luta pela causa palestina, além de uma coletiva para a imprensa presente no local.

No entanto, o ativista acabou sendo retido pela Política Federal (PF) para um interrogatório, segundo informação entregue pelas organizações presentes no aeroporto. O depoimento teria terminado por volta das 18h30, quando chegou a notícia de que ele finalmente teria sido liberado.

Na coletiva, Thiago Ávila declarou que “toda vez que eu volto de uma flotilha, tem a pergunta sobre como eles me trataram, e dessa vez eu tenho muito mais o que dizer, infelizmente. Mas o importante é que, do meu lado, tinha gente sendo tratada muito pior do que eu”.

“No centro de tortura e interrogatório da inteligência interna israelense, tinham pessoas palestinas sendo torturadas ao meu lado todos os dias, sem exceção. Os interrogadores, que diziam que não estavam, naquele momento, me torturando por uma decisão deles, porque eles tinham o direito judicial de fazer isso, eles diziam que aquilo era música. Eles tratavam aquelas pessoas sem nenhum respeito, sem nenhuma dignidade. E comigo era uma fração daquilo, que também é um absurdo”, relatou.

Thiago afirmou que chegou a desmaiar duas vezes devido às agressões que sofreu na prisão, que teriam sido mais intensas e violentas que nas duas outra vezes em que foi detido pelas forças israelenses.

“Eles diziam diretamente que queriam me matar, me deixar cem anos preso. Em outro momento, diziam que queriam se livrar de mim o quanto antes. Mas eles só não conseguem pagar o custo político disso, e com os palestinos, por conta da campanha de desumanização e por conta da cumplicidade dos governos do mundo, eles acreditam que podem pagar o custo político de torturar e assassinar palestinos, e isso que a gente precisa impedir”, lembrou.

Perguntado sobre se seu retorno ao Brasil representa uma vitória contra o sionismo, Thiago Ávila frisou que “como tudo que a gente faz na nossa ação de solidariedade com a Flotilha e com o movimento brasileiro de solidariedade com a Palestina, mobilizado em tantos países, aqui em tantos estados, tantos municípios, é um processo longo e árduo, que não é definido por pessoas específicas, é uma coisa muito mais importante que qualquer indivíduo, e demanda mobilização constante”.

“A minha volta foi só uma correção de uma grave violação. Eu fui sequestrado por Israel, eu não fui preso. Eu fui torturado por Israel, e não interrogado com ‘métodos avançados’, como eles diziam que eram autorizados a fazer. Temos que desnaturalizar essas coisas. No fim das contas, é muito importante que a gente diga que, sim, cada palestino que sai do cárcere é uma vitória, mas tem nove mil palestinos lá agora”, salientou.

O ativista adicionou que “a nossa vitória relevante, de fato, será acabar com o sionismo, acabar com o imperialismo e construir um mundo novo”.

Gratidão palestina ao Brasil

Thiago também se referiu ao apoio ao seu caso manifestado presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“O que eu tenho como referência é o que o próprio povo palestino diz sobre o Brasil e sobre o presidente Lula, o povo palestino é muito grato pelo presidente Lula ter sido a maior liderança mundial a dizer o mais rápido no processo da escalada do genocídio, que era, como ele chamou, uma guerra perpetrada contra mulheres e crianças”, enfatizou.

O ativista recordou o período na prisão em Israel, e contou que, na cadeia, “as pessoas que conseguiam se comunicar comigo pelas paredes, pelas portas, sempre falavam do Brasil com muito carinho”, e também falou sobre alguns guardas do presídio, “os que eram mais precarizados, que não estavam inundados de ódio no coração, tratavam o Brasil com muito carinho”.

“O movimento de solidariedade com a Palestina no Brasil sempre tem dito que as palavras elas convencem, mas é o exemplo que arrasta. Infelizmente, o Brasil ainda tem relações com o estado de genocida de Israel, relações militares, acordos comerciais, acordos acadêmicos, acordos culturais, artísticos, todos esses devem ser rompidos, porque o povo brasileiro não quer ter relação nenhuma com o estado que assassina crianças de fome”, completou o brasileiro.

Thiago Ávila é recebido com flores no Aeroporto Internacional de Guarulhos
Rocio Paik / Opera Mundi

Questionamentos ao governo brasileiro

Estavam no aeroporto, esperando a chegada de Thiago Ávila, alguns participantes da mais recente edição da Flotilha, que foram libertados antes por Israel e puderam voltaram ao Brasil na semana passada.

Uma dessas pessoas era Mandi Coelho, militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), integrante da Liga Internacional dos Trabalhadores e pré-candidata ao cargo de deputada federal por São Paulo. A Opera Mundi, ela afirmou ter participado de uma reunião no Itamaratý sobre a situação de Thiago.

“Depois disso teve o tuíte do Lula, o próprio apoio dado à esposa do Thiago, todo dia ela recebe aconselhamento consular, atendimento consular”, ressaltou a ativista.

No entanto, a Mandi também relata que perguntou, na mesma reunião, “se é possível a gente começar a caminhar no sentido de romper relações (com Israel), ou seja, ações mais contundentes, inclusive para trazer o Thiago de volta. Não ficar só no âmbito do discurso, mas aplicar sanções, reciprocidade, expulsar embaixadores, que outras medidas nós podemos fazer mais concretas”.

“O governo afirma que está fazendo tudo o que pode, que não é possível implementar essas medidas, não explica exatamente o porquê, mas no meu entendimento isso tem a ver com a cumplicidade internacional que a gente vê há 78 anos, não é uma novidade”, questiona.

Mandi mencionou as relações comerciais e acadêmicas, afirmando que “o Brasil envia petróleo, envia aço, exporta armas” e mantém convênios entre universidades brasileiras e israelenses.

Por fim, ao tratar da situação da Flotilha e dos ativistas envolvidos, a ativista afirmou que parte das embarcações teria sido interceptada e os participantes detidos. “A gente foi sequestrado, 22 barcos foram interceptados”, disse, acrescentando que outras embarcações teriam seguido viagem.

“A Flotilha segue hoje… a missão ainda está acontecendo”, afirmou, destacando que os participantes estariam articulando os próximos passos da iniciativa e defendendo a continuidade da mobilização internacional.

Defensores da causa palestina recepcionaram Thiago Ávila com faixas e bandeiras da Palestina
Rocio Paik / Opera Mundi

Cumplicidade do governo grego

Outro ativista que estava esperando por Thiago em Guarulhos foi Leandro Lanfredi, membro do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (SindPetro-RJ), entidade através da qual participa ativamente da campanha para que o petróleo brasileiro não seja enviado direta ou indiretamente a Israel, “e que não sirva ao genocídio do povo palestino”, segundo o ativista.

Lanfredi conta que foi um dos tripulantes do Lapinha, um dos 22 navios que foram atacados por Israel perto do litoral da Grécia, no dia 30 de abril, dos quais 21 foram sequestrados – incluindo o que ele viajava.

“Um dos navios foi totalmente destruído por Israel. Eu estava no Lapinha, que foi sequestrado, não sei o que aconteceu com o barco depois que nós desembarcamos em Creta”, relata.

O ativista conta que sua experiência na missão que tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza, “foi uma situação desumana, mas claro, muito inferior à barbaridade que essa entidade racista reserva ao povo palestino, o que nós sofremos foi só uma fração do que as pessoas em Gaza sofrem”.

Segundo o petroleiro, o sequestro do barco e a prisão dos seus tripulantes “só foram possíveis graças à conivência da União Europeia e do governo da Grécia”, e que essa cumplicidade também teria acontecido no tratamento diferenciado dado aos casos de Thiago Ávila e Saif Abu Kesher.

“Nada foi feito pelo governo grego a respeito dos abusos ao Thiago e ao Sair e a todos os demais tripulantes. Ao contrário, toda essa tortura a qual eles foram submetidos foi permitida, e somente com as mobilizações, nós conseguimos que isso fosse interrompido, e eles fossem libertados. Mas a nossa luta segue para libertar cada um dos nove mil palestinos que são reféns nesse estado terrorista e também pela ruptura das relações comerciais e diplomáticas que o Brasil tem com essa entidade racista (Israel)”, acrescentou Lanfredi.

O militante do SindPetro-RJ questionou a ajuda dada pela diplomacia brasileira aos ativistas do país que foram sequestrados pelo governo de Israel. “Tivemos zero contato com o Itamaraty. Conseguimos, através do governo turco, ligar para o cônsul, para o embaixador brasileiro e criticar (a situação). Ele prometeu que seríamos melhor atendidos em Istambul e lá o vice-cônsul nos recebeu, pudemos utilizar o telefone pela primeira vez, mas o apoio do governo brasileiro se limitou a nos receber e saber se estávamos bem de saúde”, recordou.

“No caso do Thiago, houve um acompanhamento maior, que foi importante para que ele se comunicasse com o mundo, mas nós precisamos de mais que isso. Esta luta não é só pelo Thiago, é por mais de nove mil palestinos presos, é pela Palestina, pelo que a luta do povo palestino representa para os povos do mundo”, afirmou o petroleiro.

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