
Por muitos anos, o Brasil tentou apagar a existência de pessoas LGBTQIAPN+ da política, da música, da televisão e da história. Tentaram fazer parecer que nossa existência era novidade, moda, performance ou apenas discurso. Mas, muito antes de existir internet, muito antes de existir o termo “fechação”, muito antes de artistas transformarem diversidade em marketing, Dona Leci Brandão já colocava o corpo, a voz e a carreira inteira na linha de frente.
Em 1978, durante a ditadura militar, quando assumir a homossexualidade significava perseguição, censura, perda de trabalho e violência, Leci Brandão falou publicamente sobre sua sexualidade em uma entrevista histórica ao jornal Lampião da Esquina, um dos primeiros jornais LGBTQIA+ do Brasil. Não existia acolhimento. Não existia mercado para diversidade. Não existia “lacração”. Existia coragem.
Uma mulher preta, sambista, periférica e lésbica, dentro de um dos ambientes mais conservadores da cultura brasileira, decidiu não esconder quem era. Isso não foi apenas um gesto individual. Foi um ato político, cultural e histórico.
Enquanto muitos hoje transformam a pauta LGBTQIA+ em estética, narrativa de campanha ou personagem de rede social, Dona Leci viveu as consequências reais da exclusão. Ela enfrentou o preconceito dentro do samba, da política e da própria sociedade brasileira. E, mesmo assim, nunca abandonou sua luta.
Leci Brandão não precisou inventar personagem. Ela não surgiu pronta de assessoria política nem de estratégia digital. Sua trajetória foi construída nas ruas, nos palcos, nas comunidades, nos movimentos sociais e na resistência.
Ela foi pioneira em espaços onde diziam que mulheres negras não poderiam chegar. Tornou-se a primeira mulher da ala de compositores da Mangueira. Transformou sua música em instrumento de denúncia social. Cantou sobre racismo, desigualdade, intolerância religiosa e liberdade sexual quando quase ninguém tinha coragem de fazer isso.
Músicas como “As Pessoas e Eles”, lançada ainda nos anos 1970, já denunciavam o preconceito contra homossexuais em uma época em que sequer existia debate público sobre respeito à diversidade. Dona Leci falava sobre acolhimento e humanidade quando o Brasil ainda tratava pessoas LGBTQIA+ como invisíveis.
Sua luta não ficou apenas na arte.
Dona Leci entrou para a história também como a primeira mulher lésbica eleita deputada estadual em São Paulo, levando a pauta LGBTQIA+, negra, periférica e popular para dentro da Assembleia Legislativa. Isso não é detalhe. Isso é marco histórico.
Ela não ocupou o parlamento apenas para discursar. Sua presença sempre representou proteção, escuta e resistência para a comunidade LGBTQIA+, especialmente para pessoas pretas, periféricas e marginalizadas.
Enquanto muitos se apresentam como “fato político”, Dona Leci é algo muito maior: um fato histórico vivo.
Porque a política passa. Narrativas passam. Modismos passam. Mas a história permanece.
Dona Leci atravessou décadas sem abandonar suas pautas. Sobreviveu ao conservadorismo, à ditadura, ao racismo estrutural, à lesbofobia e às tentativas constantes de silenciamento. E, ainda assim, segue de pé.
Sua importância hoje é gigantesca porque ela representa memória. E um povo sem memória perde sua própria identidade.
Quando vemos jovens LGBTQIA+ ocupando universidades, parlamentos, festivais, programas de televisão e espaços culturais, existe um caminho aberto antes. Esse caminho não começou agora. Foi pavimentado por pessoas como Dona Leci.
Ela abriu espaço para artistas pretos LGBTQIA+, para mulheres lésbicas no samba, para corpos periféricos na política e para toda uma geração que hoje consegue existir com um pouco mais de dignidade.
Por isso, comparar Dona Leci com personagens momentâneos da política brasileira é diminuir sua dimensão histórica.
Dona Leci não representa apenas um mandato. Ela representa uma geração inteira de resistência.
Ela é símbolo de coragem. É símbolo de coerência. É símbolo de luta verdadeira.
Em tempos em que muitos usam nossas pautas apenas em período eleitoral, Dona Leci nunca abandonou o povo LGBTQIA+. Nunca abandonou o samba. Nunca abandonou as periferias. Nunca abandonou a população preta.
Ela esteve conosco quando não dava voto. Ela esteve conosco quando não dava curtida. Ela esteve conosco quando assumir a própria identidade significava risco real de vida.
E talvez seja exatamente por isso que sua presença continue tão poderosa.
Porque Leci Brandão não é tendência. Dona Leci, como digo neste artigo, é legado.
Hoje, ver Dona Leci chegar novamente para disputar eleições não representa apenas mais uma candidatura. Representa continuidade histórica. Representa manter viva uma voz.
O post Leci Brandão e a coragem que abriu caminhos no Brasil apareceu primeiro em Vermelho.