A Fundação Perseu Abramo chega aos 30 anos reconhecida como uma das principais fundações partidárias da força progressista política do país. Criada pelo Partido dos Trabalhadores em 5 de maio de 1996, por decisão de seu Diretório Nacional, a Fundação nasceu para responder a uma antiga aspiração do partido: constituir um espaço fora das instâncias partidárias cotidianas, com autonomia jurídica e administrativa, dedicado à reflexão política e ideológica, à promoção de debates, estudos, pesquisas e ações de educação política.
A origem da FPA está diretamente ligada à percepção de que um partido de massas precisava preservar sua memória, organizar sua elaboração programática e manter canais permanentes de diálogo com intelectuais, militantes, movimentos sociais e setores da sociedade interessados na transformação democrática do país. Hoje, se firmou como uma das instituições mais importantes de formação política, memória e produção de pensamento crítico vinculadas ao campo democrático-popular brasileiro.
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O projeto do jornalista Perseu Abramo
A criação da Fundação Perseu Abramo não surgiu do nada. Antes dela, o PT havia experimentado a Fundação Wilson Pinheiro, que reuniu intelectuais e dirigentes do partido, mas teve sua continuidade comprometida por dificuldades políticas e financeiras. A
experiência se encerrou, mas a ideia permaneceu viva. Segundo o histórico oficial da FPA, ela amadureceu dentro do Diretório Nacional até ganhar nova viabilidade com a criação do Fundo Partidário, previsto na Lei dos Partidos Políticos, de 1995, que destinou parte dos recursos partidários à manutenção de institutos ou fundações de pesquisa, doutrinação e educação política.
Foi nesse contexto que o jornalista e militante histórico Perseu Abramo, então secretário nacional de Formação Política do PT, passou a desenvolver estudos para a constituição da futura instituição.
Nos primeiros meses de 1996, ele elaborou documentos, fez consultas e ajudou a desenhar as linhas de trabalho da Fundação. Perseu morreu em 6 de março daquele ano, pouco antes da aprovação formal do projeto pelo Diretório Nacional.
A Fundação que ajudou a conceber recebeu seu nome como homenagem a uma trajetória marcada pelo jornalismo, pela sociologia, pela docência, pela militância socialista e pela defesa da democracia.
Memória, formação e políticas públicas
Desde sua criação, a Fundação assumiu tarefas que continuam centrais em sua atuação: recuperação da memória e da história do PT, reflexão ideológica, política e cultural, socialização do patrimônio político acumulado, realização de eventos, publicações, educação política e pesquisas de opinião pública.
A posse simultânea do Conselho Curador e da Diretoria ocorreu em 14 de outubro de 1996. Poucos dias depois, em 19 de outubro, foi inaugurada a sede provisória da Fundação. Em novembro do mesmo ano, a FPA realizou sua primeira atividade pública: o seminário “O Modo Petista de Governar – 3ª Geração”.
Ao longo de três décadas, essa vocação se desdobrou em diferentes frentes. O site oficial da Fundação, hoje um Portal que disponibiliza digitalmente toda a produção da instituição, reúne hoje áreas e projetos ligados à formação, memória, opinião pública, análises de conjuntura nacional e internacional e produção editorial – além de revistas, livros, pesquisas, relatórios de alto nível
A casa edita e publica ainda as revistas Reconexão Periferias, a Focus Brasil e a histórica e prestigiada revista Teoria e Debate.
A FPA também se tornou um espaço de elaboração sobre políticas públicas. Essa dimensão aparece em publicações, cadernos, cursos, seminários e documentos programáticos. Um exemplo desse papel foi o Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil, publicado em 2020 pela Fundação Perseu Abramo e pelo PT, elaborado a partir de debates com os Núcleos de Acompanhamento de Políticas Públicas, os NAPPs, e com a participação de setores democráticos da sociedade, movimentos sociais, centrais sindicais, dirigentes e militantes.
Na produção editorial, a Editora Fundação Perseu Abramo mantém uma linha de publicações que combina memória política, formação, economia, trabalho, comunicação, tecnologia, relações internacionais e debates sobre o desenvolvimento nacional.
Aparecem no catálogo obras como O exílio brasileiro no Chile de Allende, de Paulo de Tarso Riccordi; Meu sangue em minhas ideias: dialética e imprensa revolucionária em José Maria Mariátegui, de Monica Bruckmann; e Desafios e soluções para o desenvolvimento nacional: reconstrução e transformação – um tributo à Maria da Conceição Tavares, de Jorge Bittar, Mariano Lapane e Luiz Antonio Rodrigues Elias.
O catálogo recente também inclui temas como inteligência artificial, sociedade, classe trabalhadora e emergência climática.
O CSBH e a preservação da memória política
Um dos eixos centrais dessa trajetória é o Centro de Documentação e Memória Política Sérgio Buarque de Holanda, o CSBH. Vinculado à Fundação Perseu Abramo, o centro guarda registros de uma das experiências mais importantes da classe trabalhadora na história recente do Brasil. O Centro é responsável pelo tratamento do arquivo histórico do PT e seus personagens, da militância à direção, da memória política do Brasil e pelo fomento à pesquisa e à reflexão sobre a história do partido, da esquerda e da classe trabalhadora.
O acervo do CSBH reúne documentação fundamental para compreender a reorganização da esquerda brasileira contemporânea, especialmente a luta pela conquista e manutenção da democracia após o fim do regime militar.
Também abriga praticamente todo o acervo do Diretório Nacional do PT produzido antes de 1989, além de conjuntos documentais que avançam até os anos 2000, arquivos de instituições com as quais o PT manteve relação, arquivos pessoais de dirigentes e militantes e outras coleções. A disponibilização online começou pelo acervo iconográfico, com fotografias, negativos e cartazes, e avançou para periódicos, reunindo cerca de 50 mil registros.
O trabalho do CSBH inclui ainda exposições virtuais sobre a história do PT e de políticas públicas importantes, além da construção de um acervo de entrevistas baseado na metodologia da história oral, com depoimentos de militantes e lideranças que contribuíram para a trajetória do partido. Com isso, a Fundação não apenas preserva documentos, mas também estimula novas leituras sobre a memória política da esquerda, da classe trabalhadora e das lutas democráticas no Brasil.
Estudos, pesquisas e leitura do Brasil
A produção de estudos e pesquisas é outra frente estruturante da Fundação. O Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos, o NOPPE, dá continuidade a uma tradição iniciada ainda nos primeiros anos da FPA, quando a pesquisa de opinião pública foi definida como uma das linhas gerais de trabalho da instituição.
Entre os levantamentos recentes, destaca-se a terceira edição da pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, lançada em setembro de 2025 pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc São Paulo. De abrangência nacional, a pesquisa acompanha recuos e avanços sociais no enfrentamento às desigualdades de gênero ao longo de três décadas, investigando temas como violência, saúde, trabalho, cuidados e participação. A nova edição teve uma fase qualitativa, com entrevistas virtuais realizadas em 2021 com 65 mulheres cis e transgênero, e uma fase quantitativa, realizada em 2023, com 1.221 homens e 2.440 mulheres.
A parceria com o Sesc também reforça a capacidade da Fundação de transformar pesquisa em debate público. No lançamento da terceira edição, a abordagem do levantamento foi organizada em seis eixos: imagem das mulheres; corpo, sexualidade e saúde; violência contra as mulheres; proteção social e política de cuidados; trabalho remunerado e não remunerado; e cultura política e participação. A apresentação dos dados foi feita no Centro de Formação e Pesquisa do Sesc, em São Paulo, pelas pesquisadoras Vilma Bokany e Sofia Toledo, do NOPPE.
Além das pesquisas sobre gênero, o acervo recente da FPA reúne estudos e materiais sobre classes trabalhadoras, participação institucional e periferias, segurança pública, cenário político, educação, nova indústria, pessoas LGBTQIA+, pessoas idosas e outros temas de interesse público. Esses materiais ajudam a conectar formação política, diagnóstico social e formulação de políticas públicas, reforçando o papel da Fundação como espaço de leitura crítica do país.
Na agenda internacional, a Fundação mantém uma área própria de Cooperação Internacional. Criado em 2003, o núcleo tem como objetivo estimular e fomentar o debate político sobre grandes temas mundiais, relações internacionais, integração regional e política externa. A atuação recente inclui publicações, boletins, cursos e programas voltados à leitura do cenário internacional, como o Janela Internacional, dedicado às questões mundiais, à política externa do governo Lula e à política de relações internacionais do PT.
A Cooperação Internacional também aparece em iniciativas de formação e publicação. A Fundação realizou, em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, o Curso de Formação de Internacionalistas, em formato híbrido, e publicou, em 2025, material derivado do seminário Cinco décadas de independência e percurso dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, reunindo artigos e falas do evento. Em 2026, a FPA publicou a segunda edição de boletim internacional produzido pela área de Cooperação Internacional para contribuir nos debates do 8º Congresso Nacional do PT.
Três décadas e novos desafios
A celebração dos 30 anos da Fundação Perseu Abramo, em maio de 2026, retomou essa trajetória e projetou novos desafios. A conferência comemorativa reuniu Marilena Chauí, Fernando Haddad, ex-presidentes da entidade, lideranças políticas, convidados e vídeo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva saudando o aniversário, os colaboradores, admiradores e dialogando sobre o papel e o futuro da instituição que, ressaltou, acompanha desde que fora criada.
A data reforça o lugar da Fundação Perseu Abramo como espaço de memória e pensamento, mas também como instrumento de formação política voltado ao futuro, em constante movimento e transformação.
Em um período marcado por transformações tecnológicas, crise climática, novas formas de trabalho, desinformação e ataques à democracia, a FPA chega aos 30 anos diante do desafio de renovar métodos, ampliar escutas e manter sua função histórica: produzir conhecimento, formar militantes, preservar memória e contribuir para a construção de um projeto democrático e popular para o Brasil.
