
Na década de 1950, a militante Elisa Branco sacrificou a própria liberdade para impedir a entrada do Brasil na Guerra da Coreia, servindo como exemplo para a luta global anti-imperialista
Guilherme Arruda | São Paulo
HERÓIS DO POVO – No dia 7 de setembro de 1950, o desfile militar do Dia da Independência transcorria normalmente no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. De repente, várias mulheres se põem em meio às tropas e desfraldam uma enorme bandeira com os dizeres “Os soldados, nossos filhos, não irão para a Coreia”. Panfletos pela paz são distribuídos. Em meio à confusão, é presa a líder do grupo: a comunista Elisa Branco.
Mesmo com a prisão, a mensagem já estava dada para os centenas de milhares de presentes. A campanha contra a guerra imperialista, impulsionada pelos comunistas, alcançava um novo estágio.
Elisa Branco morava no bairro da Vila Mariana, onde vivia de seu trabalho como costureira para as madames da alta sociedade paulistana. Nascida em Barretos, cidade do interior paulista, tornou-se militante comunista em 1945, atuando como secretária do comitê municipal do partido e dirigente local do movimento de mulheres e do movimento pela paz antes de se mudar para a capital.
Ao ouvir pelo rádio um pronunciamento em que o presidente Eurico Gaspar Dutra anunciava a intenção de apoiar a guerra norte-americana contra o povo coreano, a costureira sentiu a necessidade de protestar — e planejou de forma organizada junto às suas companheiras a ação do 7 de setembro.
Movimento pela paz
Sua ação lhe custaria caro, com a Justiça burguesa a condenando a quatro anos e três meses de cárcere no Presídio Tiradentes por “ações subversivas”. Mas, do limão, os comunistas sabem fazer uma limonada: a luta para libertar Elisa, presa por manifestar livremente sua opinião, se tornaria o eixo dinâmico de um amplo movimento contra a guerra.
De acordo com Jayme Ribeiro, historiador e professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) que estudou o movimento pela paz da década de 1950, a Campanha Contra o Envio de Soldados Brasileiros para a Coreia realizou “passeatas, enterros simbólicos, coleta de assinaturas, comícios-relâmpagos, manifestações populares”, entre diversas outras ações de massa.
As atividades buscavam atingir diferentes segmentos do povo. A bandeira levantada por Elisa Branco apelava à consciência das mães trabalhadoras, ao alertar para o risco do envio de “nossos filhos” à guerra; tribunas eram realizadas nas praças das cidades; criaram-se Comitês Pró-Paz para agregar as massas; os militantes iam às portas das fábricas apresentar aos operários um abaixo-assinado em defesa do Apelo de Estocolmo, que pedia a proibição das armas atômicas, coletando impressionantes 4 milhões de assinaturas até janeiro de 1951; até mesmo os jogadores da Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1950 assinaram o Apelo.
A campanha foi vitoriosa. Ainda nas palavras de Jayme Ribeiro, os comunistas atuaram “com destaque e fizeram um importante trabalho de esclarecimento à população sobre as armas atômicas e seus efeitos para a humanidade, tendo em vista a Guerra da Coréia como real possibilidade de um novo conflito mundial. Objetivamente, as campanhas do ‘Movimento Pela Paz’ acabaram influenciando decisivamente o não envio de tropas brasileiras à Coréia, se destacando internacionalmente a militante do PCB, Elisa Branco”.
É a prova de que uma intensa, ousada e planificada campanha de agitação e propaganda é capaz de incidir na consciência das massas e conquistar vitórias políticas na luta de classes.
Após um ano e meio na prisão — onde ensinou suas companheiras de cárcere a ler, segundo a biografia Elisa Branco: Uma vida em vermelho, do historiador Jorge Ferreira —, a sentença de Elisa Branco foi anulada e ela retornaria à luta em liberdade. Em 1952, a costureira paulista ganhou o Prêmio Stalin da Paz, sendo uma das três únicas pessoas da história do Brasil a receber a honraria, junto do escritor Jorge Amado e do arquiteto Oscar Niemeyer.
Horrores da guerra imperialista
A agressão que atingiu a Coreia foi a primeira a ser lançada pelos Estados Unidos após o fim da Segunda Guerra Mundial. O país asiático, que havia sido colonizado pelo Japão e se libertado através de um processo de luta armada dirigido pelos comunistas, estava dividido entre uma zona controlada pelas forças populares no Norte e uma região ocupada por dezenas de milhares de tropas estadunidenses ao Sul.
Devido ao fato de que a península coreana fazia fronteira com os dois principais países socialistas daquele tempo, a União Soviética e a China, os EUA planejaram uma guerra com o objetivo de controlar todo aquele território e, depois, lançar um segundo conflito para aniquilar o movimento comunista internacional. Em 1950, após uma série de manobras políticas, esta invasão foi lançada, e duraria até 1953.
A Guerra da Coreia, como este conflito ficou conhecido, foi palco de uma enorme lista de atrocidades cometidas pelos Estados Unidos. Em menos de quatro anos, 3 milhões de coreanos foram mortos. Há fortes indícios da utilização de armas químicas e biológicas pelos EUA, um crime de guerra proibido pela Convenção de Genebra desde 1925. Centenas de massacres contra militantes comunistas foram registrados, chegando a 200 mil vítimas. Não se limitando a alvos militares, a campanha aérea norte-americana matou 300 mil e reduziu 90% das cidades do Norte a destroços, bombardeando casas, hospitais, escolas e tudo o que houvesse pelo caminho.
Apesar de toda a violência, a guerra não resultou em vitória para os EUA: o conflito se “congelou” num impasse, e a Coreia acabou dividida entre dois Estados, um socialista e outro capitalista, como segue até hoje. O tirano anticomunista imposto pelos EUA no Sul, o general Syngman Rhee, governou até 1960 e foi seguido por dois outros ditadores militares, Park Chung-hee (1963-1979) e Chun Doo-hwan (1980-1988), mostrando que a Coreia do Sul estava longe de ser uma “democracia”, como propunha a propaganda liberal.
Nesse crime contra o povo coreano, um dos maiores exemplos históricos dos horrores da guerra imperialista, os Estados Unidos não estiveram sozinhos: pressionados, 21 países participaram da invasão ocorrida na década de 1950. Naquele momento, o governo norte-americano desencadeou uma manobra de chantagem para que as nações da América Latina, em sua maioria suas aliadas, se somassem ao esforço de guerra. A Colômbia chegou mesmo a mandar tropas para a Ásia.
No Brasil, porém, a coisa foi diferente graças à forte campanha dos comunistas, que ganhou a opinião popular e impediu o Estado de enviar os jovens brasileiros para a morte na Coreia.

Paz em nosso tempo!
A multiplicação das guerras imperialistas é a principal característica do atual cenário internacional. Em poucos meses, os Estados Unidos invadiram a Venezuela, atacaram o Irã, ameaçam Cuba e apoiam as agressões de Israel contra a Palestina, o Líbano e o Iêmen. Na Ucrânia, OTAN e Rússia se confrontam em uma disputa sangrenta. Diferentes potências apoiam lados opostos nas guerras civis de países como o Congo e o Sudão. A depender do que planejam os grandes capitalistas, ávidos de lucrar com a venda de armas e destruir seus rivais econômicos, o mundo parece caminhar para uma Terceira Guerra Mundial.
No entanto, a experiência nos mostra que é possível impor limites à escalada da violência imperialista. Historicamente, os comunistas sempre levantaram a bandeira da paz, levando ao povo a consciência de que as guerras só servem aos ricos e levam morte e destruição às famílias dos trabalhadores. O mundo que queremos é um mundo de paz, onde os trabalhadores e as trabalhadoras de todos os países vivem com dignidade. Hoje, mais uma vez, é preciso reforçar esta frente de atuação e nos armar política e teoricamente para cumprir esta tarefa.
Uma das lições mais importantes neste sentido vem da atuação dos comunistas do Brasil que, como vimos, impediu a entrada do país na guerra contra a Coreia, com destaque especial para o papel da costureira Elisa Branco. De sua história, podemos aprender valiosas lições de agitação e propaganda e trabalho de massas. Em nossa região, os Estados Unidos buscam tutelar a Venezuela e ameaçam invadir Cuba.
Com o interesse dos imperialistas pelos nossos recursos naturais, como as terras raras, não é impossível que o conflito chegue aqui. É nosso dever dedicar o máximo de esforços possíveis à agitação contra a guerra.
O jornal A Verdade publica consistentemente denúncias dos crimes dos imperialistas no Oriente Médio, na América Latina e por toda parte. Podemos e devemos chamar atenção para estas matérias em nossas brigadas e tratar do tema em nossas tribunas. Elas ajudam a demonstrar que os comunistas revolucionários são os maiores defensores de um mundo de paz para os trabalhadores. Nossa palavra de ordem, como foi a de Lênin em 1914 frente à eclosão da Primeira Guerra Mundial, é travar uma “guerra contra a guerra”.
Vivemos em um tempo em que o cenário e nossas tarefas se aproximam das que propôs o camarada Josef Stálin em 1951, em seu breve escrito Quando Não É a Guerra Inevitável?: “As forças agressivas controlam os governos reacionários e os dirigem. Ao mesmo tempo, elas temem os povos que não querem a guerra e se mantêm firmes na defesa da manutenção da paz. Por isso, uma ampla campanha pela paz, como forma de expor os planos criminosos dos senhores da guerra, é de primeira importância”.
