
Data mais do que importante para a classe trabalhadora, o 1° de maio no Brasil também tem sua importância histórica. No sétimo capítulo da Série “A História oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro”, aprofundamos o significado dessa data para nossa classe.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
HISTÓRIA (Parte 07) – O 1º de maio simboliza a luta dos trabalhadores contra a exploração capitalista e a opressão da burguesia. Data celebrada internacionalmente pela memória dos operários mártires de Chicago, Estados Unidos. Os operários lutavam por “8 horas diárias de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas para viver”. Mais de 350 mil trabalhadores participam dessa greve iniciada em 1º de maio de 1886. No terceiro dia da greve a polícia atirou contra grevistas e vários trabalhadores morreram no local.
Os trabalhadores organizam um gigantesco protesto no dia 4 onde ocorre massacre ainda maior na Praça Haymarket. Num confronto desigual com tiroteio e lançamento de bombas morrem dezenas de manifestantes e alguns policiais. Seguiu-se uma brutal perseguição, centenas de prisões e julgamentos criminais de líderes grevistas condenados à forca.
Em memória dessa luta, a organização proletária da Segunda Internacional consagrou a data como símbolo de resistência de todos os trabalhadores do mundo.
A repercussão no Brasil: 1915
Os efeitos da Primeira Guerra Mundial imperialista iniciada em 1914 já produziam seus danos à classe trabalhadora do Brasil. O custo de vida elevado, aluguéis nas alturas, baixos salários, jornadas de trabalhos de 14/16 horas para “compensar perdas” dos burgueses da indústria e comércio.
Nessa conjuntura de crise e insatisfação, o proletariado brasileiro apesar de embrionário deu provas de combatividade e do seu internacionalismo classista. Realizou manifestações memoráveis o 1º de maio de 1915, amplo trabalho de agitação, atos, palestras, passeatas, greves, especialmente nos maiores centros operários: Rio de Janeiro e São Paulo.
Nosso proletariado erguia a bandeira de luta pela redução da jornada de trabalho para 8 horas, melhores salários e condições dignas de trabalho e ao mesmo tempo denunciava a guerra da rapina imperialista. Essa gigantesca mobilização de diversas categorias operárias despertou e encorajou a força do operariado unido que paralisaria a cidade de São Paulo na greve geral de 1917.
“Guerra à guerra”
O I Congresso Internacional da Paz, sob o lema “guerra à guerra” foi uma iniciativa de grande importância e repercussão do proletariado organizado pela COB – Confederação Operária Brasileira e realizado de 14 a 16 de outubro de 1915, na sede da Federação Operária – Praça Tiradentes, RJ.
Superando todos os obstáculos, a exitosa manifestação prática do internacionalismo proletário foi um sucesso, reunindo centenas de entidades sindicais, federações, delegados de diversos estados e sindicalistas representantes de trabalhadores da Argentina, Chile, Uruguai e outros.
Nas resoluções do I Congresso o veemente repúdio às guerras de rapina dos imperialistas, à política capitalista de guerra que usa a classe operária como “bucha de canhão” para gerar mais lucros para a burguesia.
“Abaixo a fome! Queremos comer!”
A guerra imperialista aprofundava a crise mundial, reduzia a produção de alimentos e combustíveis. Havia escassez nos mercados, os preços inflavam e as populações mais pobres sofriam mais ainda. A classe operária, organizada nos sindicatos, federações e na COB, com sua imprensa própria – A Plebe, A Voz do Trabalhador, etc. organizou diversos protestos, marchas e manifestações “contra a fome”. Algumas passeatas em virtude da repressão policial que tratava a ação dos trabalhadores “caso de polícia” acabaram em “batalha campal”, em confrontos com vítimas fatais, feridos e prisões.
No Rio de Janeiro, em fevereiro a polícia invadiu a sede da COB. Os trabalhadores e populares que sofriam com a carestia e o desemprego promoveram expropriações de alimentos em armazéns de secos e molhados e enfrentou a repressão policial. A imprensa burguesa noticiava como “saques dos mazorqueiros anarquistas” que provocaram pânico na população ordeira da cidade”.
Diante das panelas e estômagos vazios, sob palavras de ordem “abaixo a fome” e “queremos comer” o povo buscou os alimentos onde estavam armazenados e inacessíveis à condição de pobreza e miséria, usando os meios próprios. Na “democracia” burguesa que prima pela propriedade e não pela vida humana, pobres com fome, mortos de inanição não é crime. A lei e a polícia funciona para proteger a “propriedade” do especulador e do comerciante burguês.
A Greve Geral de São Paulo- 1917
A greve foi iniciada no Cotonifício Crespi, bairro da Mooca. Mas a insatisfação geral da classe trabalhadora explodiu como um barril de pólvora diante do assassinato do sapateiro José G. Martinez pela polícia na porta da fábrica Mariângela, no Brás. O enterro do sapateiro assassinado transformou-se em grande manifestação de repúdio. Outras fábricas se juntam e paralisam a cidade de São Paulo, na Greve Geral de 1917.
O estado burguês, “comitê dos interesses da burguesia”, como ensina o Manifesto Comunista, distribuía violência e tiros para trabalhadores e dinheiro para os barões do café na falcatrua da compra do café com verbas da “Fazenda Nacional”. Dinheiro público carreado para os cofres privados dos ricos barões do café.
O governo comprava a preço fixo independente do preço do mercado internacional. As exportações diminuíram na guerra e os preços despencaram, a desvalorização da moeda nacional também, na conversão das moedas estrangeiras os ricos ganhavam fortunas. Sem compradores para o café estocado, o governo mandou queimar, literalmente, 3.000.000 (três milhões) de sacas de café.
Greves gerais e barricadas (1918-1919)
Em 1918, sob os ecos da Revolução Bolchevique da Rússia, grupos anarquistas do proletariado no Rio de Janeiro planejaram e deram início às ações diretas visando a deflagração de greves as quais deveriam se tornar gerais com escopo da derrubada do governo oligárquico da república e da implantação da sociedade autogerida pelos trabalhadores.
Papel da Aliança Anarquista
Os anarquistas “puros” e os sindicalistas refutavam a ideia de um partido revolucionário. Nos primórdios de 1918 eles criaram a “Aliança Anarquista”, no Rio de Janeiro, com o intuito de unir os diversos grupos “libertários”. Logo em seguida fundam a “União Geral dos Trabalhadores” (UGT) a Central sindical a qual atribuíam o papel de coordenar a greve geral e de substituir as estruturas do poder oligárquico capitalista pelos conselhos de operários, soldados e marinheiros.
A consciência classista dos operários brasileiros ainda era nascente e incipiente. Essas primeiras movimentações dos anarquistas vieram para o Brasil trazidas pelos imigrantes europeus, sobretudo italianos no ano de 1874 em diante. Essas mobilizações da UGT desencadeiam greves de metalúrgicos, tecelões e construção civil, no Rio Capital, Niterói e Petrópolis.
A ideia reinante era que, uma vez a faísca acesa, o fogo se espalharia na palha seca e a casa Grande da burguesia cairia. Travam combates em ações diretas com a polícia no campo de São Cristóvão, local de grande concentração operária. O plano da conquista da capital consistia em tomar delegacias, ocupar e se apropriar dos arsenais militares, cortar as comunicações. Registra-se a tentativa de invasão de duas delegacias. Os anarquistas contavam com a adesão dos soldados e marinheiros à insurreição, o que não aconteceu na escala esperada. Consta também como ponto vulnerável a infiltração de agentes do estado, certo tenente que atuava como provocador agente duplo.
A repressão
A reação foi violentíssima, com mortes, banimentos de 70 operários e a prisão de mais de 200. O duro golpe no movimento se complementava com a pandemia da “gripe espanhola” que assolou a cidade e aumentou ainda mais a capacidade da resistência operária, a parcela pobre mais atingida.
Lutas operárias de Norte ao Sul do país
O ano de 1919 foi marcado por intensas lutas do proletariado brasileiro. Movimentos paredistas de caráter geral em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Niterói, Salvador e Recife. Tentativa de criação de um Partido Comunista que não vingou e teve vida curta em virtude das concepções anarquistas dos criadores (não confundir com o PCB fundado em março, três anos depois, em 1922). De Norte a Sul trabalhadores submetidos a brutal exploração, jornadas de 14/14 horas de trabalho, sem leis de proteção e segurança, em fábricas e oficinas insalubres e baixos salários.
Mas essa classe operária resistia e enfrentava a tirania dos patrões e repressão do Estado patronal, todas as adversidades. Não bastasse, a gripe espanhola matou 35 mil no Brasil, a maioria, trabalhadores e pobres. A tradição servil policialesca/militar substituía os jagunços privados dos coronéis pagos com dinheiro dos impostos, para defender a ordem injusta da sociedade dos desiguais, proteger a propriedade e privilégio dos poucos ricos em detrimento da maioria pobre, explorada e oprimida. A repressão da greve geral de 1919 em São Paulo matou, prendeu, fechou sindicatos, empastelou jornais operários, deportou mais de 100 lideranças do movimento.
O ano de 1919 assinala o início da inflexão da hegemonia anarquista na vanguarda do movimento operário e o final do chamado “Quinquênio Rosso” das greves e confrontos diretos que marcaram os 5 anos entre 1917/1919. E essas lutas serviram para amadurecer as lutas e consciência dos operários, preparando o terreno para um salto qualitativo e um novo período em nosso país. Momentos que veremos nos próximos capítulos da nossa série exclusiva para o nosso Jornal a Verdade. Não deixe de acompanhar.