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Master, filme, PIX e mais: as mentiras que Flávio Bolsonaro já contou

Horas antes do vazamento de mensagens de áudio e texto que mostram o pré-candidato à presidência e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociando com o banqueiro Daniel Vorcaro apoio ao filme Dark Horse, o parlamentar negou publicamente a relação entre o longa-metragem e o dono do Banco Master, preso pela Polícia Federal. “É mentira! De onde você tirou essa informação?”, respondeu ao repórter do Intercept Brasil, site que revelou as conversas nesta quarta (13).

A negação imediata ao ser questionado sobre a cinebiografia do pai, Jair Bolsonaro (PL), reflete uma conduta identificada também em outros episódios: a mentira sobre fatos consolidados. Ainda na noite de quarta, no próprio vídeo publicado por Flávio Bolsonaro para se defender das denúncias, ele admite e normaliza o que horas antes tentou negar e busca atacar a base governista com outra informação falsa, reiterada por apoiadores: que o filme não teria recebido recursos públicos.

Flávio Bolsonaro assumiu a missão de liderar a ultradireita na corrida eleitoral diante do impedimento de Jair Bolsonaro, condenado e preso por tentativa de Golpe de Estado. A Agência Pública identificou outros momentos recentes em que o congressista mente, uma estratégia negacionista que parece escalar em ano eleitoral.

4) Relação direita x Master: “narrativa falsa”?

Em abril de 2026, Flávio Bolsonaro classificou como “narrativa falsa” a associação de políticos da direita e extrema direita ao caso Master, mesmo com revelações públicas da conexão entre apoiadores do senador com Daniel Vorcaro. Além do vínculo entre o banqueiro e Flávio, outros políticos amigos do congressista mostraram-se próximos ao empresário.

A Polícia Federal investiga o suposto pagamento de Vorcaro na ordem de R$ 300 mil mensais, além de outras vantagens, ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, em troca de favores no Parlamento.

Investigadores identificaram que Ciro Nogueira chegou a protocolar no Senado uma proposta elaborada pela assessoria do Master: a PEC 65/2023, que aumentaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e favoreceria diretamente o banco, possivelmente colocando em xeque o próprio FGV, como apontou a Pública. O texto não avançou na Casa.

A teia de envolvimento político com o Master também alcança as campanhas de Jair Bolsonaro à Presidência da República e de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao Governo de São Paulo, em 2022. O ex-presidente recebeu R$ 3 milhões e o atual chefe do Executivo paulista, R$ 2 milhões do empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e um dos investigados no escândalo do Master.

3) Dinheiro público no filme sobre Bolsonaro

No primeiro vídeo divulgado nas redes sociais após o vazamento dos áudios, Flávio Bolsonaro se defende das acusações e alega que o filme Dark Horse tem investimento “zero” de dinheiro público.

No entanto, uma reportagem do Estadão revelou que o deputado federal Mário Frias (PL-SP), roteirista do filme e ex-ministro da Cultura de Bolsonaro, enviou R$ 2 milhões em emendas parlamentares à produtora do longa-metragem.

A transferência ocorreu em 2024, por meio do Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira Gama – dona da empresa cinematográfica Go UP Entertainment, responsável pela pré e pós-produção da obra.

A denúncia levou a deputada Tabata Amaral (PSB-SP) a protocolar uma ação contra Frias no Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte, por sua vez, determinou que o deputado do PL explique os repasses. O parlamentar não foi encontrado pelos oficiais de justiça e o ministro Flávio Dino intimou a Câmara dos Deputados a informar os endereços residenciais do bolsonarista no Distrito Federal e em Brasília. O processo segue em aberto.

Entre as fraudes do Banco Master investigadas pela PF, há possíveis irregularidades com o uso de recursos de regimes de previdência próprios dos estados e municípios e a compra de fundos milionários de precatórios (ordens de pagamento emitidas pela Justiça para gestões e entidades públicas) que teriam sido expedidos antes do fim dos processos. Essa prática seria ilegal por ainda haver a possibilidade da União recorrer e contestar os valores devidos, o que significa que também não há como garantir que os valores repassados por Daniel Vorcaro não sejam provenientes de dinheiro público.

2) Paternidade do PIX

Flávio Bolsonaro concedeu, em maio de 2026, entrevista coletiva à imprensa, em Florianópolis, usando uma camiseta com uma frase que ele e correligionários tornaram bandeira de campanha: “o PIX é do Bolsonaro” – estratégia para carimbar Jair Bolsonaro como o grande idealizador do sistema de pagamento instantâneo. Na ocasião da entrevista, Flávio participava do lançamento de candidaturas do PL ao Senado e ao Governo do Estado.

O PIX, mesmo lançado em novembro de 2020, foi pensado em 2018, no governo de Michel Temer (MDB). À época, o Banco Central criou um grupo de trabalho para analisar mecanismos de pagamento instantâneo. Bolsonaro só utilizou o sistema seis meses após o lançamento e, antes, ao ser questionado por um apoiador, chegou a demonstrar desconhecimento sobre o processo.

1) Fome no governo Lula

Em abril, o senador atribuiu ao Governo Lula uma crise de pobreza extrema e usou como ilustração do argumento um vídeo de pessoas catando comida no lixo. “O governo Lula diz que dá o gás e tira a comida. Como o governo do PT gasta mais do que arrecada e aumenta impostos para arrecadar ainda mais em cima do suor do trabalhador brasileiro, a taxa de juros do Brasil é uma das maiores do mundo”, disse o senador.

As imagens, no entanto, foram gravadas em outubro de 2021, durante a gestão do pai do senador, Jair Bolsonaro.

Meias verdades, mas com prazo de validade

O discurso de Flávio Bolsonaro também apresenta contradições que não poderiam ser consideradas exatamente mentiras, uma vez que todo parlamentar é livre para voltar atrás e rever os próprios posicionamentos. No entanto, é possível identificar incoerências significativas na atuação do senador.

Em abril de 2024, Flávio Bolsonaro classificou como “fake news” a informação de que teria afirmado ser contra o impeachment do ministro Alexandre de Moraes. A alegação foi motivada pela repercussão negativa entre apoiadores a respeito de uma entrevista concedida ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura. No episódio, o filho 01 de Jair disse que o impeachment de um ministro não resolveria os problemas do país.

“Vamos por parte: primeiro, sempre que eu puder, eu vou buscar o diálogo. Não acho que pedir o impeachment de ministro do STF vá resolver os problemas do Brasil. Eu sempre acreditei numa autorregulação do Supremo. Eu acho que essa é uma ótima oportunidade para que o Supremo possa retomar as rédeas da Corte e parar de ser sugada toda hora para dentro de uma discussão — que não é institucional e relativa somente a um ministro. As coisas só vão voltar à normalidade quando esses inquéritos todos forem arquivados”, falou aos jornalistas do programa ao vivo.

Apesar de ter dito publicamente que o impedimento de ministros não resolveria problemas, o senador se uniu, em julho de 2025, ao coro da oposição contra Moraes e protocolou um novo pedido de impeachment do ministro no Senado. O texto apresentado pelo parlamentar afirma que o magistrado rompe princípios constitucionais.

Outra proposta protocolada por Flávio Bolsonaro e marcada por discurso contraditório foi a de março deste ano. O senador propôs uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da reeleição ao cargo de Presidente da República. Dois meses depois, no entanto, fez declaração em que acenava sua pretensão de um governo de oito anos, caso consiga ser eleito.

“O meu sonho, e o que eu vou realizar, é acabar o governo, Jorginho, seja daqui a quatro, daqui a cinco, daqui a oito anos, aonde a gente vai poder bater o peito e falar: ‘Menos pessoas dependem de políticos para levar comida para dentro de casa e levar dignidade para as suas famílias’”, falou a empresários durante o lançamento da chapa de Jorginho Mello ao Governo de Santa Catarina, em 8 de maio, na capital Florianópolis.