Na manhã do dia 30 de abril, a praça Waterloo, no centro de Londres, ganhou um novo monumento: um homem empunhando uma bandeira que, ao ser levada pelo vento, encobria o seu rosto. Nos pés da estátua, feita de resina e pintada inteiramente de cinza, a insuspeita assinatura: Banksy.
Horas depois, o próprio artista, que mantém a sua identidade em segredo desde ao menos a metade dos anos 1990, confirmaria a autoria da intervenção,batizando-a de “Patriotismo Cego”.
Quem acompanha o trabalho do artista britânico, que vez ou outra é atribuído a nomes nunca confirmados, sabe que a urgência política está na raiz de suas obras – sejam elas feitas por meio do graffiti,do stencil ou até mesmo se apropriando de estilos clássicos e realistas.
Em meio à escalada ultra conservadora e nacionalista no mundo, com Donald Trump como seu agente mais voraz, a estátua de Banksy é auto explicativa. Trata-se de mais um manifesto de sua autoria contra o imperialismo e suas consequências.

Provocação e mercadoria
Apesar da provocação frequente ao status quo, Banksy subverter a lógica da intervenção urbana ao tornar cada novo trabalho espécie de “prêmio” para as ruas. Toda vez que ele assume a autoria de uma obra, o local torna-se imediatamente alvo de peregrinação e culto. Ou seja, nem ele próprio conseguiu escapar da lógica mercantilista da arte e hoje qualquer museu torce para que seja “invadido”. Em tempo: a prefeitura de Londres já avisou que não irá retirar a estátua de Waterloo.
O mesmo aconteceu com o seu famoso stencil “Love is in The Air”,pintado pela primeira vez em 2003 em Belém, na Cisjordânia, no muro de uma garagem em uma rodovia que liga Beit Sahour a Jerusalém. A escolha do local é simbólica por ser uma área de intenso conflito histórico. A imagem do homem que carrega um buquê de flores como se fosse um coquetel molotov tornou-se onipresente. Está em cópias espalhadas por todos os cantos, em camisetas, tatuagens.
Para além das ruas e muros, Banksy também provou que consegue debochar do sistema (e da arte) ate mesmo com uma simples pedra. Em 2005, ele se infiltrou secretamente no British Museum (Museu Britânico) e incluiu na parede uma “falsa” pintura rupestre da Idade da Pedra.
A obra, que mostrava um homem das cavernas empurrando um carrinho de supermercado, ficou exposta por oito dias antes de ser descoberta, sendo posteriormente incorporada ao acervo do museu. A brilhante sátira ao consumo obrigou os próprios curadores a se curvarem ao talento do artista.

Arte dos escombros
Outro grande feito de Banksy, considerado sem precedentes na história da arte moderna, foi ter decidido entrar na Faixa de Gaza ilegalmente e pintar sobre os escombros,diversas artes oníricas e alegres – contraponto ao estado de destruição do local.
Estes são apenas alguns exemplos de obras que se tornaram icônicas dentro do vasto repertório do artista. Ninguém sabe quem é ele. Ou onde ele está. Mas é difícil conhecer alguém que já não tenha visto um trabalho de Banksy por aí. Nem que seja por meio de livros e documentários não autorizados.
Outras intervenções políticias de Banksy
Conflitos Internacionais:
Suas obras mais marcantes estão na Cisjordânia, como o mural do manifestante atirando um buquê de flores no lugar de uma arma, e as pinturas no muro de separação israelense que ironizam a opressão. Ele também viajou para a Ucrânia para pintar murais.
Crise dos Refugiados e Imigração:
Ele financiou o barco de resgate Louise Michel, que atua no Mar Mediterrâneo. A embarcação, batizada em homenagem a uma anarquista francesa, foi grafitada pelo artista com a cor rosa-choque e um desenho de uma menina segurando uma boia salva-vidas.
Anticonsumismo e Guerrilha em Museus:
Banksy tem um histórico de subverter o mercado de arte. Em 2018, sua obra “Garota com Balão” foi autodestruída por um triturador embutido na moldura logo após ser arrematada em um leilão. Ele também já realizou intervenções não autorizadas, substituindo quadros em galerias famosas, como o Museu do Louvre e o Metropolitan Museum of Art.
Vigilância e Liberdade de Expressão:
Murais como One Nation Under CCTV (Uma Nação sob Circuito Fechado), pintado em Londres, criticam abertamente o excesso de vigilância e a perda de privacidade da população.
Crise Ambiental:
Suas intervenções frequentemente alertam para o impacto ambiental. Em Londres, uma de suas obras pintava uma parede com tinta verde para simular as copas de uma árvore cortada, trazendo a questão do desmatamento para o ambiente urbano. [1, 2, 3, 4, 5, 6]