
Boletim Outras Palavras
Receba por email, diariamente, todas as publicações do site
Agradecemos!
Você já está inscrito e começará a receber os boletins em breve. Boa leitura!
Por Maurício Ayer
Quando as pessoas que escrevem dizem “quando se escreve, se está na concentração”, eu diria: não, quando escrevo, tenho a sensação de estar na extrema desconcentração, não me possuo mais de jeito nenhum, eu mesma sou uma peneira, tenho a cabeça esburacada. Só posso explicar a mim mesma o que escrevo dessa maneira, porque há coisas que eu não reconheço naquilo que escrevo. Então elas vêm de outro lugar, não estou sozinha quando escrevo. Mas isso eu sei. A pretensão é acreditar que se está só diante de sua folha de papel quando tudo chega de todos os lados. Evidentemente, os tempos são diferentes, as coisas chegam de mais ou menos longe, chegam de você, chegam de um outro, não importa, chegam do exterior. (Marguerite Duras, em entrevista a Michelle Porte, no livro Les lieux de Marguerite Duras, 1977, p.98)
Na próxima semana, pesquisadores de todo o Brasil – e também da França, Bélgica e Austrália – se reunirão em São Paulo (de 18 a 20 de maio) para conversar sobre a escritora e cineasta francesa Marguerite Duras. O Colóquio Internacional Marguerite Duras – SP 26 terá lugar no Centro Universitário MariAntonia da USP, e é realizado em parceria com a Universidade de Brasília e a Société Internationale Marguerite Duras, com o apoio da Editora Relicário e de Outras Palavras. A realização de um evento com mais de 30 colaboradores de todas as regiões do país, além das participações estrangeiras, mostra que a escritora, falecida há 30 anos, continua atual e provocando novas leituras e questionamentos.
O tema do colóquio, “porosidade e intermidialidade”, sublinha o caráter inovador – e mesmo precursor – da obra durassiana. Reúne dois conceitos que atravessam a produção de Duras e nos quais ela antecipou muitos dos debates e das realizações artísticas das últimas décadas. Multimídia muito antes que o termo fosse criado, Duras transitou não só entre o romance, o conto e a crônica, como também pelo teatro, cinema e diversas modalidades de atuação nos veículos de mídia, com intervenções na imprensa escrita, no rádio e na televisão. Durante mais de uma década, quando já era uma romancista consagrada, ela se dedicou principalmente ao cinema, como autora e diretora de 19 filmes, entre eles algumas produções icônicas dos anos 1970 como India Song e O caminhão.

Mas a porosidade não diz só dessa comunicação entre meios, códigos e linguagens. Na verdade, para Marguerite Duras, é uma noção muito mais crucial. Primeiro, ela entende que escrever é se colocar em um estado de abertura, logo de porosidade, em relação ao mundo, aos outros e outras, e até a si mesma. A si mesma? Sim, no sentido de estar totalmente aberta ao que vêm de si, como os pensamentos e impressões, os desejos e sentimentos, as palavras, enfim, sem criar barreiras de qualquer tipo — moral, estética, etc. O maior erro de um escritor seria vigiar a própria escrita; ao transformar-se em um “policial de si mesmo”, o escritor está morto. Na melhor das hipóteses, pode produzir “livros atraentes, [mas] sem prolongamento algum, sem noite. Sem silêncio. Em outras palavras: sem verdadeiro autor”. Duras acredita que as coisas se comunicam, “tudo está tudo o tempo todo” disse ela em seu filme O caminhão, e que cabe a uma autora estar aberta a testemunhar isso e colocar no papel. Muito do que há de mais radical em Marguerite Duras vem, justamente, da porosidade que atravessa todas as dimensões de sua vida e de sua produção.
Respondendo a essas provocações, estudiosos das áreas de literatura, cinema, psicanálise, filosofia e ciências sociais se reunirão em nove mesas redondas, uma roda de conversa sobre arte contemporânea e cinco conferências. Outras Palavras apoiará a transmissão online dessas conferências. Além disso, a Editora Relicário lançará uma nova tradução da autora, celebrando 5 anos e 8 títulos de sua coleção Marguerite Duras. O lançamento será do relato A doença da morte, um de seus livros mais instigantes e enigmáticos, que radicaliza discussões sobre sexualidade, homossexualidade e a noção de uma (im)possível comunidade no espaço do desejo. Acontecerá na livraria Gato sem Rabo (rua Major Sertório, 95, Vila Buarque), na terça-feira, 19 de maio, a partir das 19h.
Confira a seguir a programação completa do evento.
—–

Colóquio Internacional Marguerite Duras – SP 26
Marguerite Duras: Porosidade e intermidialidade
Datas : 18, 19 e 20 de maio de 2026
Local : Centro Universitário MariAntonia da Universidade de São Paulo (USP)
Endereço : Rua Maria Antônia, 294, Vila Buarque, São Paulo, SP, Brasil.
Comissão organizadora :
Maurício Ayer, UnB
Maria Cristina Vianna Kuntz, USP
Luciene Guimarães de Oliveira, UFMG
Claudia Consuelo Amigo Pino, USP
Programa
18 de maio, segunda-feira
9h – 9h20 – Recepção
9h20 – 9h30 – Abertura
Comissão organizadora do Colóquio
9h30 – 10h20
Conferência com Florence de Chalonge, ex-Presidente da Société Internationale Marguerite Duras e professora emérita da Université de Lille
« Quem se assemelha se ajunta »: a vida dos corpos porosos na obra de Marguerite Duras
Mediação : Maurício Ayer

10h20 – 10h30 – Pausa com café
10h30 – 11h40 – Mesa 1: Transgressões, travessias e limiares
Maria Cristina Kuntz, USP
Transgressão e memória em O Amante e O Amante da China do Norte
Julia Simone Ferreira, UFJF
Entre a vida e a obra: a contribuição de Christiane Blot-Labarrère à crítica durassiana
Priscila Vescovi, UFES
Claridade da Fissura: A Criança no Limiar da Escrita em Duras
Mediação: Maria Luiza Berwanger
11h40h – 12h30 – Mesa 2: Porosidade, corpo e enunciação
Isabelle Doneux-Daussaint, Société Internationale Marguerite Duras e Université Lyon 2 Lumière
Duras ou a porosidade enunciativa
Dominique Villeneuve, pesquisador independente
Porosidade entre realidade e verdade na obra de Marguerite Duras
Mediação: Julia Simone Ferreira
12h30 – 13h20
Conferência com Joelle Pagès-Pindon, THALIM-Sorbonne Nouvelle-CNRS
Marguerite Duras filmada por Michelle Porte: a impressão do corpo
Mediação: Julia Simone Ferreira
13h20 – 14h30 – Almoço
14h30 – 15h40 – Mesa 3: A escrita, o grito e a noite
Isabela Bosi, PUC-SP
Grito sem ruído: o gesto de escrita de Marguerite Duras
Julia Veras, UFMG
O eco da própria voz: Autotradução em Les mains négatives de Marguerite Duras
Iasmin Rio e Rosas, psicanalista
O morto que atravessa o texto: luto, memória e elaboração em A morte do jovem aviador inglês
Mediação: Maria Cristina Vianna Kuntz
15h40 – 15h50 – Pausa com café
15h50 – 16h10
Experimento teatral: “(Re)Leitura de India Song”
Direção de Aline Filócomo
Com Paulo Salvetti e Rita Grillo
16h10 – 17h20 – Mesa 4: Feminino, feminismo e a borda da escrita
Gilda Pitombo, UERJ, psicanalista
O ato de escrever como borda entre a literatura e a psicanálise: a solidão e o feminino em Marguerite Duras
Vivian Ligeiro, UERJ
A doença da morte e o impossível do amor
Liciane Mamede, Unicamp
Féministe malgré elle ? : Apropriações feministas da obra de Marguerite Duras pelo campo cinematográfico
Mediação: Luciene Guimarães
17h20 – 18h10
Conferência comMaria Luisa Berwanger, UFRGS
Poética da porosidade em Marguerite Duras, entre literatura e filosofia
Mediação: Isabela Bosi
19 de maio, terça-feira
9h – 10h15 – Mesa 5: O grito, o silêncio e a possível felicidade
Marcela Azevedo, UFRJ
O amor se diz em um grito, escuta
Elisabeth Bittencourt, Corpo Freudiano/RJ
“O que é o vazio para você?” – Marguerite Duras e Xavière Gauthier
Clarissa Vicente, Círculo Psicanalítico do Pará
Marguerite Duras e a escrita de uma análise no silêncio e no corpo
Mediação: Danielle Curi
10h15 – 10h30 – Pausa com café
10h30 – 11h45 – Mesa 6: A voz, a voz, a voz
Daniele Eckstein, Sorbonne
Práticas da repetição em Marguerite Duras e Clarice Lispector
Marina Gorayeb Sereno, UFRJ
A intimidade das imagens da noite, de Marguerite Duras a Camila Sosa Villada
Danielle Curi, PUC Minas
A porosidade do objeto a voz no cinema de Marguerite Duras
Mediação: Vivian Ligeiro
11h45 – 13h – Mesa 7: Cinema: memória, palavra e imagem
Fernando de Mendonça; Samara Aragão, UFS
A memória da pedra no cinema de Marguerite Duras
Pablo Gonçalo; Paula Santos, UnB
Destruição (e desconstrução) como princípio criativo de realização: o cinema de Marguerite Duras
Luciene Guimarães, UFMG
Sobrevivência da imagem e da escrita em Jean-Luc Godard e Marguerite Duras
Mediação: Liciane Mamede
13h – 14h30 – Almoço
14h30 – 14h50
Conversa sobre o Experimento teatral com Rita Grillo e Aline Filócomo
14h50 – 15h50 – Marguerite Duras e a arte contemporânea brasileira
Conversa com as artistas Patricia Osses e Lena Bergstein
Mediação : Maurício Ayer
15h50 – 16h50
Lançamento de livros
17h – Conferência com Michele Royer, Vice-Presidente da Société Internationale Marguerite Duras e professora na University of Sidney
Porosidade do visível: multissensorialidade e intermidialidade no cinema de Marguerite Duras
Mediação: Luciene Guimarães
Apresentação do curta-metragem Césarée (1979), de Marguerite Duras
19h – 21h – Evento externo: Lançamento
A editora Relicário convida todos os participantes do colóquio para o lançamento do novo título da coleção Marguerite Duras: A doença da morte
Local: Livraria Gato Sem Rabo
Endereço: R. Maj. Sertório, 95 – Vila Buarque, São Paulo – SP, 01220-020
20 de maio, quarta-feira
9h – 10h30 – Mesa 8: mesa especial de graduandos/as e mestrandos/as
Julia Correa Ramos, UnB
Paisagens durasianas e o neutro em Moderato Cantabile
Talles Augusto dos Santos, UFJF
Desejo, falência e ruptura: uma leitura psicanalítica e pós-colonial do feminino em Duras e Lispector
Gabriel Von Gerhardt Mendes, USP
Marguerite Duras e a desintegração sensorial: Uma introdução a Le ravissement de Lol V. Stein através dos sentidos
Arieli de Souza Santiago, USP
Reflexões sobre uma tradução durassiana: interpretando L’amour
Ana Carolina Silva, UnB
Memória como percepção do tempo: hermenêutica da narratividade semi-autobiográfica em Marguerite Duras
Mediação: Maurício Ayer, Luciene Guimarães e Isabelle Doneux-Daussaint
10h30 – 10h45 – Pausa com café
10h45 – 11h30 – Mesa 9: Escrita, imagem e arrebatamento
Jonas Samudio, UFMG
Elas, no arroubo escritas: Camila Sosa Villada e Marguerite Duras
Thatiane Santana, UFS
A genealogia em Duras: análise do récit de filiation em Un barrage contre le Pacifique
Ana Karla Batista Farias, Unicamp
A ressignificação do acervo particular na construção de narrativas em Marguerite Duras
Mediação: Maria Cristina Vianna Kuntz
11h30h – 13h30 – Conclusão dos trabalhos
Conferência com Christophe Meurée, Presidente da Société Internationale Marguerite Duras e coordenador científico dos Archives et Musée de la Littérature de Bruxelles (AML)
Atravessar poro a poro, de Persona a Détruire dit-elle
Mediação: Maurício Ayer, UnB
Fechamento com Maurício Ayer, UnB
Porosidades de um colóquio: ao redor e através de Marguerite Duras
Apoio

Realização



Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crítico: apoia.se/outraspalavras
The post Radical, intermidiática e porosa: Marguerite Duras em colóquio appeared first on Outras Palavras.