
O Dia Internacional de Combate à LGBTfobia, celebrado em 17 de maio, não é apenas uma data simbólica dentro do calendário dos direitos humanos. É um marco político construído pela luta histórica da população LGBTQIAPN+ contra a violência, a criminalização e a tentativa constante de apagar nossas existências.
A data relembra a decisão da Organização Mundial da Saúde, em 1990, de retirar a homossexualidade da classificação internacional de doenças. Um passo histórico que reconheceu aquilo que os movimentos sociais já denunciavam há décadas: amar, existir e viver fora das normas impostas pela sociedade nunca foi doença.
A doença sempre foi o preconceito. Mas, 35 anos depois desse reconhecimento, a realidade brasileira ainda revela um cenário brutal.
Segundo levantamentos do Grupo Gay da Bahia (GGB), organização pioneira no monitoramento da violência contra pessoas LGBTQIAPN+ no país, o Brasil segue entre os países que mais matam pessoas LGBTQIAPN+ no mundo. Os dados revelam não apenas números, mas um projeto histórico de exclusão que atravessa raça, classe, território e identidade de gênero.
E dentro desse cenário alarmante, o estado de São Paulo aparece repetidamente entre os líderes em números absolutos de violência contra essa população.
A contradição é cruel. O estado mais rico do Brasil, que concentra investimentos, tecnologia, grandes empresas e centros financeiros, continua sendo também um dos territórios mais violentos para travestis, mulheres trans, jovens gays periféricos, lésbicas masculinizadas, pessoas não-binárias e corpos dissidentes que desafiam as normas impostas pela sociedade conservadora.
Essa violência não começa no assassinato. Ela começa muito antes. Começa quando uma criança LGBTQIAPN+ sofre violência dentro da própria casa. Quando a escola se torna um espaço de humilhação e abandono. Quando o mercado de trabalho fecha portas para corpos dissidentes. Quando pessoas trans são expulsas de casa ainda na adolescência e encontram nas ruas o único espaço possível de sobrevivência.
A LGBTfobia também é institucional.Ela se manifesta no abandono das políticas públicas, no sucateamento dos equipamentos sociais e na ausência de investimentos concretos para garantir dignidade à população LGBTQIAPN+.
Nos últimos anos, movimentos sociais, coletivos periféricos e organizações de direitos humanos têm denunciado o enfraquecimento das políticas de diversidade no estado de São Paulo.
A crítica ao governo de Tarcísio de Freitas cresce justamente porque, diante do aumento da vulnerabilidade social e da violência, a atual gestão não demonstra prioridade política real para enfrentar a exclusão vivida pela população LGBTQIAPN+.
Enquanto o governo fortalece discursos voltados ao mercado, à militarização e aos interesses econômicos, milhares de pessoas LGBTQIAPN+ seguem sem acesso pleno à cidadania básica.
A ausência de ampliação de políticas fundamentais, como o Programa Transcidadania, evidencia o descompromisso estrutural com a sobrevivência da população trans e travesti.
Um programa que deveria ser ampliado como política permanente de reparação social segue limitado diante da enorme demanda existente.
Isso é grave porque pessoas trans e travestis continuam sendo empurradas para contextos extremos de vulnerabilidade.
O Brasil ainda convive com índices alarmantes de evasão escolar, desemprego, violência física e expectativa de vida reduzida dessa população.
Sem políticas públicas robustas, o Estado contribui diretamente para a manutenção desse ciclo de exclusão.
O abandono também aparece no sucateamento dos equipamentos públicos, na precarização dos serviços de acolhimento, na ausência de investimentos em saúde mental, cultura, empregabilidade e educação inclusiva.
E quando o Estado se ausenta, a violência ocupa espaço. Não existe neutralidade quando governos deixam de investir em políticas de proteção social.
Cada equipamento desmontado, cada programa sem verba, cada pauta de diversidade silenciada representa mais vulnerabilidade, mais exclusão e mais risco para quem já vive à margem.
Além disso, o crescimento dos discursos conservadores e fundamentalistas fortalece ataques constantes contra direitos LGBTQIAPN+. Pautas ligadas à diversidade, identidade de gênero e educação sexual passaram a ser tratadas como ameaças políticas por setores da extrema direita, criando um ambiente de medo e perseguição institucional.
A consequência disso aparece nas ruas. Aparece nos corpos violentados. Nas vidas interrompidas.
Nos jovens expulsos de casa. Nas travestis assassinadas. Nas pessoas LGBTQIAPN+ que vivem diariamente tentando sobreviver em um país que insiste em negar sua humanidade.
Por isso, falar sobre o 17 de maio é falar sobre luta de classes, sobre desigualdade social, sobre racismo estrutural e sobre disputa de projeto de sociedade.
A população LGBTQIAPN+ periférica não precisa apenas de representatividade simbólica. Precisa de investimento público, políticas permanentes, acesso à moradia, saúde, educação, cultura, segurança alimentar e dignidade.
E mesmo diante de tanta violência, a resistência continua viva. Ela vive nas casas de acolhimento. Nos coletivos culturais. Nas ocupações artísticas. Nas batalhas de rap. Nas paradas do orgulho. Nas mães que acolhem filhos expulsos de casa. Nas organizações sociais que sobrevivem sem apoio estatal. Nos artistas periféricos que transformam dor em denúncia política.
A resistência LGBTQIAPN+ brasileira sempre foi construída pelas mãos da própria comunidade.
O 17 de maio, portanto, não é apenas uma data de celebração, mas um grito político contra o abandono, contra o conservadorismo e contra qualquer governo que trate nossas vidas como secundárias.
Porque enquanto pessoas LGBTQIAPN+ continuarem morrendo pela simples condição de existir, não haverá democracia plena. E enquanto houver violência, haverá resistência.
O post Combater a LGBTfobia é enfrentar o abandono político e social no Brasil apareceu primeiro em Vermelho.