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Caso Master: rastro do dinheiro chega ao Senador Flávio Bolsonaro e amplia crise em ano eleitoral

A Operação Compliance Zero expõe a rede política construída em torno do Banco Master e leva o rastro do dinheiro até a negociação milionária entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Em ano eleitoral, o caso já pressiona o Congresso por uma CPMI e envolve suspeitas de fraude financeira, emendas parlamentares, risco ao Fundo Garantidor de Créditos e perguntas ainda sem resposta sobre recursos públicos e privados mobilizados no entorno da família Bolsonaro.

“Siga o dinheiro” é uma máxima antiga das investigações políticas e financeiras. No caso Master, ela deixou de ser apenas uma expressão de método. Tornou-se o fio condutor de um escândalo que começou com suspeitas de fraude bilionária no sistema financeiro, avançou sobre relações políticas de Daniel Vorcaro e agora alcança diretamente Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro e pré-candidato à Presidência da República em 2026.

No centro da nova frente do caso está Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro produzido nos Estados Unidos e apresentado por aliados como uma superprodução internacional. O longa, porém, aparece agora como uma espécie de cavalo de troia: por trás da narrativa épica sobre o ex-presidente, surgem áudios, mensagens, emendas parlamentares e uma negociação milionária ainda mal explicada.

A revelação também deslocou o caso para o centro do Congresso. Após a divulgação dos áudios atribuídos a Flávio Bolsonaro, parlamentares passaram a pressionar pela instalação de uma CPMI do Banco Master para investigar a relação entre Daniel Vorcaro, o financiamento de Dark Horse e a rede política formada em torno do banco.

O Congresso já acumulava iniciativas de CPI ou CPMI sobre o caso, incluindo novos pedidos articulados depois do vazamento. Deputados também pediram a criação da CPMI e a apuração do elo entre Flávio e Vorcaro. A disputa pela comissão mostra que o escândalo deixou de ser apenas financeiro: tornou-se uma crise política em ano eleitoral.

A Polícia Federal afirma que a Operação Compliance Zero revelou o que pode ser a maior fraude contra o Sistema Financeiro Nacional já registrada no Brasil. Em seis meses de apuração, até 14 de maio, a operação já havia motivado 21 prisões temporárias ou preventivas, 116 mandados de busca e apreensão e bloqueios e sequestros de bens próximos a R$ 27,71 bilhões. A investigação teve início em 2024, a pedido do Ministério Público Federal, e mira o esquema que, de acordo com a PF, era chefiado por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

A operação também expôs uma rede de relações que atravessa bancos, fundos, agentes públicos e lideranças políticas. As apurações apontam conexões de Vorcaro com políticos, criminosos, servidores públicos de alto escalão, diretores do Banco Central e até agentes da própria PF.

A instituição financeira entrou em colapso após sucessivas suspeitas de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, organização criminosa, manipulação de mercado e emissão de títulos sem lastro. Em janeiro, na segunda fase da operação, a PF cumpriu 42 mandados de busca e apreensão e determinou bloqueio de bens acima de R$ 5,7 bilhões.

O filme no caminho do dinheiro

A nova peça do caso surgiu em 13 de maio, quando foram revelados áudios e mensagens atribuídos a Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O senador pediu ao banqueiro cerca de R$ 134 milhões para custear Dark Horse. Do total, Vorcaro teria liberado ao menos R$ 61 milhões. Os diálogos ocorreram às vésperas da primeira prisão de Vorcaro no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025 para apurar crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e fraudes nas negociações entre o Banco Master e o BRB.

Em um dos áudios divulgados, Flávio Bolsonaro menciona a urgência do envio dos recursos. “Apesar de você ter dado a liberdade de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando. É porque está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso e fico preocupado com o efeito contrário com o que a gente sonhou para o filme”, diz o senador. Em outra mensagem, Flávio afirma que não poderiam deixar de pagar Jim Caviezel, ator escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e Cyrus Nowrasteh, diretor do longa.

Flávio Bolsonaro confirmou ter buscado financiamento de Daniel Vorcaro para o filme, mas disse que se tratava de patrocínio privado, sem relação com a investigação da PF. O senador afirmou que não ofereceu vantagens em troca e que o contrato teria sido firmado antes de notícias sobre a apuração envolvendo o banqueiro. A produtora GOUP Entertainment, responsável por Dark Horse, também negou ter recebido “um único centavo” de Vorcaro ou de empresas ligadas a ele. A explicação, no entanto, não encerrou as perguntas.

O problema não está apenas na existência de um filme sobre Jair Bolsonaro. Está no valor, na origem do dinheiro, no contexto eleitoral e na identidade do financiador procurado. O montante de R$ 134 milhões coloca Dark Horse em outro patamar. O valor supera o orçamento de Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, que teria custado R$ 45 milhões. Um compromisso de US$ 24 milhões, como relatado nas mensagens, faria do filme uma das produções brasileiras mais caras já realizadas.

As ‘mil versões’ de Flávio

A defesa pública de Flávio Bolsonaro passou por mudanças de enquadramento. Primeiro, o senador havia negado relações com Vorcaro e sustentado que adversários tentavam criar uma “narrativa” para associar Jair Bolsonaro ao caso Master. Depois da divulgação dos áudios, admitiu a negociação, mas passou a descrevê-la como uma iniciativa privada de um filho em busca de financiamento para um filme sobre o pai. Horas antes de as mensagens virem a público, Flávio disse a jornalistas em Brasília que não tinha associação com Vorcaro.

A crise, portanto, tornou-se também semântica. A cada etapa, uma palavra: primeiro não havia relação; depois havia uma busca por patrocínio; em seguida, uma relação privada; mais adiante, uma cobrança por parcelas atrasadas. Nenhuma dessas formulações responde ao ponto central da investigação jornalística e política: por que um senador da República, pré-candidato à Presidência, pediu a um banqueiro investigado pela PF uma quantia milionária para financiar um filme sobre seu pai, também figura central da campanha bolsonarista de 2026?

A reação interna no campo adversário foi imediata. Integrantes da campanha de Lula avaliaram que a resposta de Flávio foi um “gol contra” porque, no entendimento petista, o senador passou a falar apenas para a base mais fiel do bolsonarismo e deixou sem resposta o eleitor de centro que tenta disputar. A avaliação é que o áudio dificulta a tentativa de equiparar as relações do Banco Master com diferentes campos políticos, porque há uma voz atribuída ao próprio Flávio Bolsonaro cobrando recursos de Vorcaro.

Operação Compliance Zero

A Compliance Zero já havia aproximado o Banco Master de figuras relevantes da direita e do Centrão antes do vazamento envolvendo Flávio. O caso mais expressivo é o de Ciro Nogueira, presidente do PP e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. A PF afirma que uma emenda apresentada por Ciro à PEC 65/2023, que trata da autonomia do Banco Central, teria sido elaborada por assessores do Banco Master e entregue ao senador para ser apresentada como se fosse de sua autoria. A proposta ficou conhecida como “Emenda Master” e ampliaria a garantia ordinária do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

De acordo com a PF, Ciro receberia de Vorcaro entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais, além de vantagens como custeio de viagens internacionais, hospedagens e despesas em restaurantes. A investigação também registrou que Vorcaro teria dito a interlocutores que a emenda “saiu exatamente como mandei”. O texto acabou rejeitado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado por inconstitucionalidade e inadequação técnica.

A dimensão pública do caso aparece de forma direta no Fundo Garantidor de Créditos. Embora seja uma entidade privada mantida por contribuições de instituições associadas, o FGC funciona como mecanismo essencial de proteção do sistema financeiro e dos investidores. O fundo encerrou 2025 com R$ 123,2 bilhões em caixa, mas teve de separar R$ 40,6 bilhões para restituir clientes do conglomerado Master com investimentos dentro do teto de R$ 250 mil. Depois das liquidações da Will Financeira e do Banco Pleno, o impacto total nas reservas alcançou R$ 57,4 bilhões, equivalente a 46,6% do total disponível.

É por isso que a tese de “dinheiro privado” não encerra a discussão. O caso envolve um banco em liquidação, clientes afetados, possível fraude contra o sistema financeiro, risco bilionário ao FGC e uma rede de relações políticas investigadas. Também envolve dinheiro público de outra natureza: emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas ao ecossistema da produtora do filme sobre Jair Bolsonaro.

Emendas, produtora e falta de transparência

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou a abertura de apuração preliminar sigilosa sobre repasses de emendas parlamentares para entidades ligadas à GOUP Entertainment, produtora de Dark Horse. A decisão foi provocada por representação da deputada Tabata Amaral e alcança emendas relacionadas ao deputado Mário Frias, ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, roteirista e produtor executivo do filme. A Advocacia da Câmara informou, do ponto de vista processual, não ter identificado irregularidades nas duas emendas de Frias mencionadas na representação, mas a apuração segue como parte do esforço para esclarecer o fluxo de recursos.

Deputados estaduais de São Paulo indicaram ao menos R$ 700 mil a entidades ligadas a Karina Ferreira da Gama, uma das responsáveis pela GOUP. O levantamento localizou repasses ou tentativas de repasse ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura. Entre os nomes citados estão Valéria Bolsonaro, Lucas Bove e Gil Diniz, todos do PL, além de Luiz Fernando, do PT, que afirmou ter destinado recurso para aulas de teatro em São Bernardo do Campo, ainda sem empenho.

Outro levantamento apontou cifra maior: ao menos R$ 7,7 milhões em emendas de deputados e vereadores de São Paulo para entidades ligadas à produtora cinematográfica responsável por Dark Horse. A apuração cita, além da GOUP, o Instituto Conhecer Brasil, a Academia Nacional de Cultura e a Conhecer Brasil Assessoria. Também menciona emendas atribuídas a parlamentares do PL, como Alexandre Ramagem, Carla Zambelli, Marcos Pollon, Bia Kicis e Mário Frias, além de repasses municipais e estaduais em São Paulo. Mário Frias negou irregularidades.

Essa é uma das zonas mais sensíveis do caso. Não se trata apenas de saber se o filme recebeu ou não dinheiro de Vorcaro. A pergunta agora é mais ampla: quais entidades orbitam a produtora, quais projetos receberam recursos públicos, quem indicou as emendas, que serviços foram efetivamente prestados e se houve qualquer conexão entre a estrutura cultural, a campanha política bolsonarista e a rede financeira do Master.

O cerco chega à família

Até aqui, aliados de Jair Bolsonaro já apareciam no caminho da Compliance Zero. Ciro Nogueira entrou no radar da PF pela chamada Emenda Master. Mário Frias aparece no capítulo das emendas ligadas ao ecossistema do filme. A partir dos áudios, porém, o caso deixa de rondar apenas aliados e passa a tocar diretamente a família Bolsonaro, com Flávio no centro da negociação e Jair como personagem do filme.

Há ainda uma frente que precisa ser tratada com cautela: a possível relação do projeto com Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A suspeita em apuração é que o projeto cinematográfico possa ter servido de fachada para financiar Eduardo no exterior. A informação deve ser apresentada como hipótese sob investigação, não como fato comprovado. O que já está dado, por ora, é que o volume de recursos, a produção nos Estados Unidos e a proximidade eleitoral ampliaram a pressão por explicações.

O calendário político torna tudo mais grave. Flávio Bolsonaro é pré-candidato à Presidência da República em 2026. O filme estava previsto para setembro, um mês antes da eleição. Eduardo Bolsonaro, por sua vez, segue nos Estados Unidos e passou a aparecer em articulações do PL para a disputa ao Senado em São Paulo, ainda que como possível suplente. Nesse ambiente, o filme deixa de ser apenas uma obra audiovisual. Passa a integrar a disputa de narrativa, imagem e mobilização eleitoral da família Bolsonaro.

A tentativa bolsonarista de transformar o escândalo do Master em um problema do governo Lula esbarra agora no conteúdo dos áudios e no próprio percurso da investigação. A relação institucional de bancos com autoridades públicas pode e deve ser apurada sempre que houver suspeitas. Mas, neste caso, a PF já identificou uma rede de interesses que envolve aliados do bolsonarismo, emenda apresentada no Congresso em favor de um desenho benéfico ao Master, emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas à produtora do filme e uma negociação direta entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Os fatos deslocam o eixo da narrativa.

Ninguém deve ser condenado por manchete. Mas o que já se sabe é suficiente para exigir transparência. O país precisa saber se os recursos prometidos para Dark Horse saíram de Vorcaro, por quais caminhos circularam, quem recebeu, quem intermediou, por que um filme sobre Jair Bolsonaro mobilizaria valores tão altos e se houve uso de dinheiro público, direta ou indiretamente, no entorno da operação. A máxima central permanece a mesma desde o início: siga o dinheiro.