
Cerca de 30 mil estudantes, professores, servidores e trabalhadores tomaram as ruas de São Paulo na tarde desta quarta-feira (20) numa das maiores marchas da educação dos últimos tempos. A coluna vertebral do ato eram os universitários das três grandes estaduais paulistas — USP, Unesp e Unicamp —, em greve há mais de um mês, que marcharam do Largo da Batata até a porta do Palácio dos Bandeirantes para entregar ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) uma conta que ele vem se recusando a pagar: a da educação pública destruída a conta-gotas.
Tarcísio não apareceu. Em seu lugar, mandou a polícia.
Centenas de agentes da Polícia Militar formaram um cordão de isolamento a cerca de 500 metros da sede do governo estadual, impedindo o avanço da multidão. O aparato era desproporcional — e revelador. Um governador que mobiliza tamanho efetivo militar para se proteger de estudantes com cartazes e bandeiras não demonstra autoridade: demonstra medo. Medo do povo que governa. Medo das perguntas que não sabe responder. Medo de olhar nos olhos de quem come comida com larva no restaurante universitário e dorme em moradia com teto caindo.
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Após cerca de quatro horas de protesto e uma hora de negociações mediadas pela própria PM, o governo cedeu o mínimo e autorizou a entrada de uma comissão no Palácio. Eram seis representantes estudantis — quatro da USP, um da Unesp e um da Unicamp —, dois advogados e a deputada estadual Mônica Seixas (Psol). Foram recebidos não pelo governador, não por um secretário, mas por integrantes da Casa Civil. O recado estava dado antes mesmo de a reunião começar.

O governo que não ouve
A presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, que integrou as negociações, não deixou margem para interpretações amenas ao relatar o encontro: “Foram indiferentes às pautas e se negaram a sair com o compromisso de uma próxima reunião de diálogo. Receberam protocolarmente, mas não encaminharam nada”, disse ao Portal Vermelho.
A reunião terminou sem acordo, sem agenda futura e sem que o governo desse qualquer explicação sobre a ação policial que, na madrugada de 10 de maio, retirou 150 estudantes da ocupação da Reitoria da USP a base de bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e cassetetes — enquanto os estudantes dormiam. Cinco foram hospitalizados. Quatro, detidos. A USP disse que não foi avisada previamente. Tarcísio defendeu a polícia.


Malena Rojas, diretora do DCE da Unicamp, resumiu o que os estudantes sentiram ao deixar o Bandeirantes por volta das 22h30: “Para nós, essa é uma posição intransigente e vexatória.”
Os representantes das três universidades saíram com uma certeza: a greve não para. “Nós exigimos o diálogo. Queremos negociar não só com as reitorias das nossas universidades, como também com o governo”, disse Pedro Chiquitti, do DCE Livre da USP. A resposta do governo foi o silêncio burocrático.
O que os estudantes exigem
A greve não nasceu do nada. Começou em 15 de abril na USP, como solidariedade aos servidores que protestavam contra uma gratificação de R$ 4.500 aprovada exclusivamente para professores — uma bonificação de R$ 239 milhões anuais que não contemplou quem limpa, quem cozinha, quem cuida. Depois que os servidores conquistaram avanços e encerraram a paralisação, os estudantes ficaram. Porque as suas pautas ainda não foram respondidas.
O auxílio de permanência estudantil — que garante que um jovem pobre possa estudar sem passar fome ou dormir na rua — está defasado e insuficiente. Hoje, os beneficiários recebem R$ 885 de auxílio integral e R$ 335 de auxílio-moradia. O movimento exige R$ 1.804 e R$ 340, respectivamente, além de bolsas no valor de um salário mínimo paulista para estudantes de baixa renda.
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Mas a lista vai além dos números. Os estudantes denunciam restaurantes universitários com larvas na comida, moradias com infiltrações, mofo, falta de água e vazamentos de gás — em 2026, no estado mais rico do Brasil. Danny Oliveira, diretora do DCE Livre da USP, colocou em palavras o que nenhum dado estatístico consegue traduzir completamente: “Em 2026, a gente volta a ver as universidades de São Paulo com falta d’água, com os estudantes passando sede na moradia, com as aulas sendo canceladas porque não tinha água para beber, com os bandejões atrasando a sua abertura porque não tinha como produzir alimento para os estudantes.”
O movimento também cobra a contratação de professores via concurso público, a melhoria das estruturas nos campi periféricos e do interior, e a ampliação dos repasses às universidades. Este último ponto é central e urgente: com a reforma tributária aprovada em 2024 prevendo a substituição gradual do ICMS pelo IBS até 2033, as universidades estaduais — hoje financiadas por fatias fixas do ICMS (5% para a USP, 2,2% para a Unicamp e 2,37% para a Unesp) — estão diante de um rombo estrutural anunciado. Sem uma emenda à Constituição estadual que transfira esse vínculo para o novo imposto, o dinheiro vai encolher ano a ano. O governo Tarcísio não tem proposta nem calendário para resolver o problema.
Além das pautas históricas, o movimento acrescentou duas exigências urgentes: retratação pública pela violência na desocupação da reitoria da USP e arquivamento do inquérito policial aberto contra os estudantes que participaram da ocupação.
A marcha, a repressão e a provocação da direita
O dia começou com tentativa de intimidação nas estradas. Dos 17 ônibus fretados pelo DCE da Unesp para trazer caravanas do interior, 12 foram parados e revistados pela Polícia Militar Rodoviária ao longo do percurso. O caso mais grave envolveu estudantes vindos de Bauru e Rio Claro: seus veículos foram interceptados na Rodovia Presidente Castello Branco, na altura de Pardinho, onde policiais fortemente armados ordenaram o desembarque de todos os passageiros para revistas detalhadas. Uma operação de intimidação que atrasou a chegada à capital — mas não impediu ninguém.
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No Largo da Batata, onde a concentração começou às 14h, a extrema direita também tentou fazer seu papel. O ex-deputado estadual Douglas Garcia (filiado ao União Brasil), notório pela proximidade com o bolsonarismo, apareceu ao local para filmar e hostilizar os manifestantes. Estudantes reagiram, pedindo sua retirada. A equipe do ex-parlamentar partiu para a agressão física. O tumulto durou minutos — García se retirou, e a marcha seguiu seu curso sem ser interrompida. Não foi a primeira vez: no dia 11, os vereadores Rubinho Nunes e Adrilles Jorge, também do União Brasil, foram a um protesto no centro de SP para provocar os estudantes. Rubinho saiu de lá com suspeita de fratura no nariz.

Às 16h15, a multidão deixou o Largo da Batata em direção ao Morumbi. Pela Avenida Faria Lima, pela Ponte Cidade Jardim, pelas grandes avenidas da zona oeste e sul, trinta mil vozes repetiam que Tarcísio é inimigo da educação pública. A deputada Paula Nunes (Bancada Feminista do Psol) deu ao ato sua dimensão mais estrutural: “Os poderosos do estado de São Paulo nunca aceitaram as cotas raciais. Nunca aceitaram que a Universidade de São Paulo tivesse a cara do povo. E é por isso que eles acham que a gente pode comer comida com larva no bandejão, pode ter moradia estudantil caindo na cabeça da nossa juventude.”
A greve, que começou firme na USP, se espalhou de forma massiva: na Unesp, já chegou a 66 dos 136 cursos; na Unicamp, a 65 dos 67. O movimento ganhou o estado.
A luta continua
A UNE já avisou: o silêncio do governo não vai calar ninguém. Em nota, a entidade convocou a continuidade da mobilização: “A indiferença do governo não vai calar a nossa voz. Se eles fecham as portas para o diálogo, nós abrimos os caminhos da resistência.”
Bianca Borges foi direta sobre os próximos passos: “Seguir a mobilização, insistir no diálogo com as reitorias sobre a pauta da permanência e na reivindicação por mais orçamento para o financiamento das estaduais, para garantir moradia, bandejão e bolsas de permanência no valor de um salário mínimo paulista para os estudantes de baixa renda.” Sobre novas manifestações, ela foi igualmente clara: “Ainda vamos deliberar nos fóruns do movimento estudantil, mas a ideia é que sigamos ocupando a rua, sim!”
Tarcísio colocou a polícia para barrar estudantes nas estradas de manhã, cercou seu próprio palácio à tarde e mandou burocratas para receber uma comissão à noite. Trinta mil pessoas foram até lá mesmo assim. E vão voltar.
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com agências
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