
Hoje falo com você, cuja existência se fez miserável, pois tudo o que lhe faria ser você foi retirado. Você que diz aos outros: “Não querem saber quem sou eu de verdade”, mas passa os dias e as noites se perguntando quem é, o que deveria ser e como ser.
E o “como ser” é o que prevalece, porque já lhe disseram: “Não corra muito rápido, obedeça, não responda, não diga palavrões, não fale alto, não pule, não tire as coisas do lugar, não se meta… Seja sombra de homem. Sorria, emudeça, não apareça!”
Vivemos em um mundo anestesiado, soterrado pela autocobrança, positividade e produtividade, onde se expressa a “sociedade do cansaço”, descrita pelo filósofo coreano Byung-Chul Han. Nessa sociedade, os indivíduos tendem a ser apenas o que se espera deles, pois não restam forças para ser quem poderiam ser.
O adoecimento mental vem para aqueles que se reprimem e vem também para aqueles que assumem uma luta contra o sistema. Não vejo a possibilidade de dizer que há equilíbrio se esses indivíduos não estão unidos: aqueles que querem ser, os que sabem quem são e os que não sabem ou têm medo de ser.
Tire um tempo, então, para descobrir quem é. É possível que não o reconheçam, mas isso não significa que deixarão de gostar do seu verdadeiro ser — ou pode ser que sim. No final das contas, a barreira não é exatamente ser quem é, mas o medo de ficar só. Mas, se o aceite custa a morte da sua existência genuína, de que vale essa vida que leva? E para onde ela o leva? E por que não lutar pela sua liberdade de ser, de pensar?
A ausência de tempo costuma ser a resposta. Cá estou eu, sem tempo, colocando para fora esses pensamentos insistentes, quando poderia estar rolando o feed de uma das minhas redes sociais durante o almoço, faltando poucos minutos para começar a aula. Talvez a religião não seja mais o ópio do povo; talvez a palavra tenha se transmutado e a tecnologia seja a nova entidade a ser endeusada — uma entidade que já não nos culpamos por adorar, mas da qual não nos apropriamos. Pelo contrário: mantemo-nos reféns dela, com medo dos julgamentos ou simplesmente envolvidos em uma acolhedora alienação que não nos faz pensar em nada enquanto vemos paródias, pessoas dançando e fazendo reviews de produtos de alto custo, para sentirmos, na imaginação, a sensação de consumir e possuir.
Esse tempo é falso, os sentimentos são falsos e o vazio continua ali quando damos de cara com a realidade, com a escassez, com o trabalho, com os medicamentos que têm nos tornado minimamente “funcionais” — não para nós, mas para um esquema de desenvolvimento no qual significamos pequenas engrenagens. Contudo, as conexões que podemos criar podem ser verdadeiras e têm o potencial revolucionário que precisamos despertar para vencer esse cansaço socialmente imposto. Isso depende de nos darmos conta de que estamos lado a lado, movendo o mesmo moinho e moendo nossa própria gente.
Seja radical a ponto de encontrar, na raiz do seu ser, quem você é. Não tenha medo da palavra “revolução”. Para mudar esse sistema, precisamos que a maior parte das engrenagens estejam dispostas a parar. Você já está dando tudo de si; a falha não está nas peças, mas nesse modelo em que ninguém se encaixa sem ter que deixar de existir.
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