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Ao contrário do que disse Luciano Huck, Bolsa Família tem porta de saída e impulsiona a economia

A declaração de Luciano Huck sobre o peso do Bolsa Família na economia de Senhor do Bonfim, na Bahia, reacendeu uma discussão recorrente sobre o programa de transferência de renda. Ao contrário do que sugeriu o apresentador durante o Fórum Esfera, no Guarujá, dados do governo federal mostram que o benefício tem mecanismos de saída, acompanha o aumento de renda das famílias e movimenta a economia dos municípios.

Durante a edição anual do Fórum Esfera, organização criada para fomentar o pensamento e o diálogo sobre o Brasil e que reúne empresários, empreendedores e a classe produtiva, o apresentador foi questionado sobre o que acha do Brasil em uma escala de 0 a 10. A resposta rapidamente viralizou: “Em Senhor do Bonfim tem 56% de sua economia no Bolsa Família, ou seja, as pessoas criam um monte de mecanismos para permanecer no programa ad eternum”, resumiu.

A fala, além de incompleta e baseada em uma leitura distorcida dos dados, logo foi rebatida não só pelo prefeito da cidade baiana como por parlamentares da base governista. O ministro Wellington Dias, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, desmentiu os dados citados pelo apresentador. Em post no Instagram, o chefe da pasta afirmou que a “falta de informação também é uma arma perigosa” e que o trabalho do governo “não é de suposições”, mas baseado em dados.

“55% da economia vem dos serviços e 15%, da indústria e agropecuária”, rebateu. Ao comentar as declarações do apresentador, Wellington Dias disse que lida diariamente com informações falsas ou distorcidas sobre o Bolsa Família. Boa parte dos beneficiários do programa, lembrou o ministro, trabalha com carteira assinada.

Quase o dobro de retorno

Com base em estudos econômicos históricos aplicados a programas de transferência de renda, como os realizados pelo Ipea, estima-se que cada R$ 1 investido no Bolsa Família tenha efeito multiplicador na economia, movimentando aproximadamente R$ 2,40 no consumo das famílias e adicionando cerca de R$ 1,78 ao Produto Interno Bruto (PIB).

O governo federal orçou cerca de R$ 158 bilhões a R$ 159 bilhões para o programa em 2026. O Bolsa Família deve atender aproximadamente 19,9 milhões de famílias, com benefício mínimo de R$ 600.

Quase 20 milhões de lares

Mais de 19,08 milhões de famílias em todo o país começam a receber o pagamento do Bolsa Família referente ao mês de maio. O programa de transferência de renda do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) chega a 49,57 milhões de pessoas, com benefício médio de R$ 678,01 por domicílio. O investimento do Governo do Brasil é de R$ 12,9 bilhões neste mês.

Em maio, o programa conta com 159.248 novas famílias que aumentaram a renda e ingressaram na Regra de Proteção. O mecanismo garante que, durante até 12 meses, famílias que ultrapassarem o limite de renda de R$ 218 por pessoa possam continuar recebendo 50% do valor do benefício, desde que a renda não ultrapasse R$ 706 per capita. Ao todo, 2,26 milhões de famílias estão na Regra de Proteção.

Impulso à economia dos municípios

O Bolsa Família tem efeitos positivos na economia dos municípios, onde movimenta o comércio e impulsiona o consumo de alimentos, roupas e produtos de higiene. O impacto também é positivo em termos de emprego. Joana Silva, economista sênior do Banco Mundial, durante o seminário Bolsa Família 2.0, em 2023, afirmou que o Bolsa Família é um dos maiores programas de assistência à pobreza do mundo e que, mesmo não sendo um direito adquirido, tem características predeterminadas.

De maneira geral, os municípios que receberam mais pagamentos do programa tiveram crescimento maior do emprego formal, com maioria dos postos de trabalho no setor privado e salários de até dois mínimos, ocupados por pessoas com ensino fundamental completo. O aumento do emprego formal, entretanto, predominou entre não beneficiários do Bolsa Família, que representaram 64% da expansão das vagas no setor de serviços. Não houve aumento de salários ou de preços, nem realocação de empregos entre municípios, acrescentou.

Conforme estudos, dois terços dos gastos dos beneficiários são feitos em lojas formais e 54%, em serviços. Entre os efeitos causais do programa, Joana Silva citou o custo direto do emprego formal, que alcança US$ 5.131, com impacto de 2,16% no PIB local. Em comparação com outros programas de apoio à pobreza no mundo, o Bolsa Família tem valor marginal de fundo público acima da média internacional.

Famílias deixam o programa quando a renda aumenta

Com o aumento da renda pela conquista de emprego formal, pela abertura de um pequeno negócio ou pela melhora nas condições financeiras do domicílio, 2 milhões de famílias deixaram de receber o Bolsa Família entre janeiro e outubro de 2025. Os dados são da Secretaria Nacional de Renda de Cidadania (Senarc), do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

Das 2.069.776 famílias que deixaram de depender do programa de transferência de renda neste ano, a maioria, 1.318.214, saiu do benefício em razão do aumento dos ganhos totais no domicílio. Outras 24.763 fizeram o desligamento voluntário, enquanto 726.799 famílias concluíram o período na Regra de Proteção.

O mecanismo permite que o beneficiário continue recebendo metade do valor do Bolsa Família por até 12 meses, mesmo após superar o limite de R$ 218 mensais per capita, desde que a renda não ultrapasse R$ 706.

Rendimento dos mais ricos

Os dados sobre renda e desigualdade ajudam a dimensionar a relevância de políticas de transferência de renda em um país ainda marcado por forte concentração de rendimentos. Em 2025, o grupo formado pelos 10% mais ricos da população brasileira teve rendimento médio mensal de R$ 9.117 por pessoa. Esse valor é 13,8 vezes maior que o recebido pelos 40% mais pobres. Para essa parcela da população, o rendimento mensal foi de R$ 663, valor médio pago por programas como o Bolsa Família.

No ano anterior, essa relação entre os mais pobres e os mais ricos estava em 13,2 vezes. Apesar do aumento, o índice de 2025 é o segundo menor de uma série histórica iniciada em 2012.

Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgada pelo IBGE na sexta-feira, 8 de maio, no Rio de Janeiro. Para elaborar o levantamento, o instituto buscou informações sobre todas as formas de rendimento das famílias. Além de salários e bônus, entram na conta aposentadoria, pensão alimentícia, benefício social, bolsa de estudo, seguro-desemprego, aluguel e aplicações financeiras. O total calculado foi dividido pelo número de moradores do domicílio.

Segundo a mesma pesquisa, cerca de 18 milhões de famílias receberam dinheiro de algum programa do governo federal em 2025, o equivalente a 22,7% dos mais de 79 milhões de domicílios do país. Em 2024, a proporção era maior, de 23,6%. Já em 2019, último ano antes da pandemia de covid-19, 17,9% dos lares eram beneficiários de algum tipo de programa social. A diferença representa a inclusão de 5,5 milhões de famílias abrangidas por programas de ajuda em seis anos.