O novo mapa-múndi lançado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desloca mais do que continentes. Ao colocar o Brasil no centro e inverter o eixo Norte-Sul, a nova representação cartográfica propõe outra forma de olhar o mundo, em sintonia com a ascensão política, econômica e diplomática do Sul Global.
Há uma força invisível no formato do mundo que aprendemos a desenhar na escola. Desde pequenos, nos acostumamos a ver o planeta sempre do mesmo jeito: Europa e Estados Unidos no alto, grandes e imponentes, enquanto América do Sul e África aparecem espremidas na parte de baixo.
Por isso, quando o IBGE apresentou o novo mapa-múndi com o Brasil no centro e a América do Sul em posição de destaque, o impacto foi imediato. O que poderia parecer apenas uma provocação visual revela uma mudança mais profunda na forma como o país passou a se enxergar e a se posicionar no cenário internacional.
O mundo visto a partir do Sul
O mapa mexe com algo que vai além da geografia. Ele toca a psicologia coletiva de um país historicamente habituado a associar o “Norte” ao desenvolvimento, à superioridade e ao centro das decisões, enquanto o “Sul” foi colocado, durante séculos, no lugar do atraso, da dependência e da periferia.
Ao romper essa lógica, o IBGE evidencia que topo e fundo do planeta são convenções. A nova cartografia reorganiza o olhar e sugere que o Brasil e a América do Sul não precisam aparecer como margem de um mundo definido por outros centros de poder.
O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, destacou o peso simbólico da mudança ao afirmar que, “aos 90 anos, o IBGE transforma a cartografia em afirmação política e civilizatória, pois coloca o Brasil no centro, inverte o eixo Norte-Sul e revela os continentes em proporções reais”. Para ele, o novo mapa-múndi “desafia séculos de visão eurocêntrica e reposiciona o Sul Global no centro do debate sobre biodiversidade, poder e futuro do planeta”.
Cartografia e identidade nacional
A estratégia de usar mapas para formar mentalidades nacionais não é inédita. A China faz isso há gerações. Nas escolas chinesas, as crianças não estudam com a mesma representação mais difundida no Ocidente. O mapa chinês coloca o Oceano Pacífico e a Ásia no centro, deslocando outras regiões para as margens. A imagem reforça a própria história do país, que tradicionalmente se entende como o “Reino do Meio”.
Ao adotar uma postura semelhante, o Brasil começa a desenhar sua própria centralidade. A nova representação sugere que o ponto de partida para olhar o mundo também pode ser a nossa própria casa, e não apenas os centros tradicionais de poder político, econômico e cultural.
Essa mudança no olhar de estudantes e cidadãos dialoga com a política externa brasileira dos últimos anos. O novo mapa expressa um país que busca deixar de apenas assistir às decisões tomadas pelas potências tradicionais e passa a disputar espaço nas agendas globais.
Esse movimento aparece na expansão do Brics, bloco de países em desenvolvimento que ganhou novos membros e ampliou seu peso no debate econômico internacional. Também se manifesta no fortalecimento do Mercosul, com a chegada da Bolívia, e na retomada da integração regional como eixo estratégico para o Brasil.
A agenda brasileira no debate global
A liderança brasileira ganhou visibilidade durante a presidência do G20, quando o país levou à mesa das maiores economias do mundo temas como combate à fome, redução da pobreza e tributação dos super-ricos. São pautas marcadas pela experiência social e econômica do Sul Global e que passaram a ocupar posição central nas discussões internacionais.
A diretora de Geociências do IBGE, Maria do Carmo, também ressaltou o papel social da geografia durante as celebrações dos 90 anos do instituto. “Isso mostra como as áreas de Cartografia e de Meio Ambiente são importantes e estão sempre contribuindo com informações para o cumprimento da nossa missão: o conhecimento da realidade e o exercício da cidadania”, afirmou.
A virada econômica do Sul Global
Os números ajudam a explicar por que essa mudança de perspectiva não é apenas simbólica. O Sul Global deixou de ser uma promessa distante e se consolidou como um dos motores da economia mundial. Segundo dados econômicos globais divulgados pelo site oficial do G20 Brasil, os países que formam o Brics Plus já superaram o G7 em poder de compra real, concentrando mais de 35% da economia global.
Com as novas expansões, essas nações também detêm mais de 40% do petróleo do planeta e abrigam aproximadamente metade da população mundial. A força demográfica, energética e produtiva desses países altera o equilíbrio internacional e dá novo peso às agendas vindas do Sul.
Mudar a posição do Brasil nas salas de aula é também enviar um recado às próximas gerações: o país participa do centro do debate global. Seja nas discussões sobre clima, biodiversidade, desenvolvimento, energia, comércio ou combate à desigualdade, o mundo visto a partir do Sul também pode ser visto a partir do centro.