A viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos, anunciada por aliados como uma tentativa de aproximá-lo do presidente norte-americano Donald Trump, acabou produzindo mais dúvidas do que demonstrações de força política. Sem confirmação oficial de encontro com Trump e em meio ao agravamento das denúncias envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, a ida do parlamentar ao Texas e a Washington passou a ser vista por analistas políticos também sob outro prisma: o de uma possível operação para administrar ou até apagar rastros das negociações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e a produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Entenda na TVT News.
O comentário mais contundente veio da jornalista Daniela Lima, durante participação no programa TMC 360. Ao analisar a viagem, ela levantou suspeitas sobre o real objetivo da agenda internacional do senador do PL.
“Tem duas formas de ver essa viagem”, afirmou Daniela. “Ou como uma: ‘nossa, vamos aí aproveitar para ver se a gente encontra o Trump’ e colocar uma pauta para a imprensa ficar falando disso. Ou tentar entender se ele não está indo olhar lá as contas da produtora que está registrada no Texas.”
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A observação da jornalista faz referência direta à empresa ligada à produção de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. Segundo reportagens da série “Vaza Flávio”, publicada pelo The Intercept Brasil, parte dos recursos negociados entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro teria sido enviada para estruturas empresariais sediadas nos Estados Unidos.
Daniela Lima chamou atenção para outro detalhe considerado sensível: a relação entre os endereços ligados à produtora e pessoas próximas de Eduardo Bolsonaro, que vive nos EUA desde o ano passado.
“Em tese também ali num endereço que tem a ver com o advogado do irmão dele autoexilado lá fora”, afirmou a jornalista.
A fala ampliou suspeitas já existentes após as revelações do Intercept sobre a participação direta de Eduardo Bolsonaro na estrutura financeira do filme. Contratos obtidos pelo site mostram que o deputado cassado atuava como produtor-executivo da obra, com atribuições ligadas à captação de recursos, interlocução com investidores e gestão financeira do projeto.
As denúncias ganharam novas proporções após a divulgação de mensagens e áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Segundo os documentos revelados pela série “Vaza Flávio”, o senador teria articulado junto ao banqueiro um financiamento de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época — para viabilizar o longa-metragem.
Parte dos valores já teria sido transferida em operações investigadas pela Polícia Federal.
A viagem aos Estados Unidos ocorre justamente no momento em que pesquisas eleitorais passaram a registrar desgaste da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro após a explosão do escândalo. Levantamentos recentes da BTG/Nexus, AtlasIntel e Datafolha mostraram crescimento da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o senador do PL.
Segundo aliados de Flávio, a tentativa de obter uma fotografia ao lado de Trump serviria para recuperar fôlego político e reorganizar a narrativa pública da campanha.
O problema é que a própria reunião passou a ser cercada de incertezas.
Casa Branca não confirma encontro de Trump com Flávio
A agenda oficial divulgada pela Casa Branca não incluiu qualquer encontro entre Trump e Flávio Bolsonaro. Segundo a imprensa brasileira, interlocutores do senador passaram então a trabalhar com a possibilidade de uma reunião alternativa com o vice-presidente JD Vance.
A ausência de confirmação oficial acabou reforçando avaliações de que a viagem poderia se transformar em um constrangimento político para o senador.
Daniela Lima ironizou a situação ao afirmar que talvez este não fosse “o melhor momento” para Flávio Bolsonaro desembarcar justamente no país onde está sediada a estrutura empresarial ligada ao filme investigado.
“Não sei se é o melhor momento pro Flávio Bolsonaro fazer uma viagem pros Estados Unidos”, comentou. “País onde em tese está sediada a empresa que levou R$ 64 milhões do Vorcaro para fazer um filme.”
A jornalista também questionou a dimensão financeira do projeto cinematográfico.
Segundo ela, o custo do filme bolsonarista já ultrapassaria produções brasileiras de enorme reconhecimento internacional. Daniela mencionou, inclusive, Ainda Estou Aqui, ao afirmar que “só com esses R$ 64 milhões” o longa “Dark Horse” já estaria custando quase três vezes mais do que obras brasileiras consagradas.
As suspeitas sobre movimentações financeiras internacionais se somam ainda às investigações em andamento no Supremo Tribunal Federal. O ministro Flávio Dino já determinou apurações preliminares sobre possíveis irregularidades envolvendo emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas à produtora do filme.
Além disso, oficiais de Justiça enfrentaram dificuldades para intimar o deputado Mario Frias, apontado como produtor-executivo da obra e responsável pelo envio de R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil, entidade relacionada à produtora GoUp Entertainment.
Enquanto isso, a viagem de Flávio aos EUA continua envolta em ambiguidades.
Publicamente, aliados dizem que o senador pretende discutir segurança pública, combate ao crime organizado e a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas. Nos bastidores, porém, integrantes do governo Lula avaliam que a movimentação busca sobretudo mudar o foco da crise política provocada pelo caso Vorcaro.
A hipótese levantada por Daniela Lima adiciona um novo componente ao episódio: a possibilidade de que, mais do que buscar apoio eleitoral de Trump, Flávio Bolsonaro esteja tentando administrar diretamente estruturas financeiras e empresariais vinculadas ao escândalo do filme “Dark Horse”.
The post Flávio nos EUA: foto com Trump ou “limpar rastros” do caso Vorcaro? appeared first on TVT News.