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Peça Reset Brasil encena a periferia paulista e resgata resistência dos povos originários

Foto: Cassandra Mello

A peça Reset Brasil, encenada pelo coletivo de arte popular Estopô Balaio, retoma as raízes históricas de resistência dos povos originários em São Paulo e retrata a opressão sofrida por trabalhadores no capitalismo. Tendo como palco a periferia da capital paulista a peça impacta e convida quem a assiste a uma reflexão sobre a necessidade de superar o capitalismo e suas opressões.

Ligia Borini, Guilherme Santucci e Breno Rocha | São Paulo


CULTURA – Quem dirá que arte, vida, e luta são separados? Ao adentrar a história de São Paulo e vivência de moradores da Zona Leste, a peça de rua Reset Brasil do coletivo Estopô Balaio não só provoca o conscientizar sobre viver marginalizado pelo Estado, mas também resgata a dignidade dos moradores-atores que contracenam com o dia a dia dos moradores-não-atores do bairro, tendo as ruas, muros, e casas não apenas como palco mas também como protagonistas.

O coletivo Estopô Balaio é um grupo grande e majoritariamente migrante, periférico e indígena que conversa de forma artística com a comunidade atual da antiga Ururay — nome indígena da região que hoje engloba São Miguel Paulista, Itaim Paulista e Jardim Romano. Com uma perspectiva que destaca a relação do cotidiano, arte e pesquisa social, seu trabalho não é apenas sobre teatro, mas sobre vivências, práticas e questões que afetam diretamente as pessoas do extremo leste paulista.

A peça Reset Brasil começa em um palco simbólico de São Paulo: o transporte público. A jornada inicia na estação Brás e segue pelo metrô até São Miguel Paulista, um bairro marcado por uma história contínua de migração em busca de sobrevivência e dignidade. Conhecido por abrigar a maior população nordestina fora do Nordeste, São Miguel Paulista também carrega memórias de resistência que antecedem a independência do Brasil.

Foto: Cassandra Mello

Arte como denúncia social

A essência de resistência e pertencimento da região remete a 1562, quando o aldeamento de Ururay protagonizou uma das mais significativas resistências indígenas contra a escravização e catequização impostas pelos colonizadores, plantando sementes de luta e identidade que ainda hoje ecoam na cultura local. Esse levante marcou o ponto de partida para o cerco ao Piratininga — antigo nome dos campos do planalto paulista onde, após a vitória dos colonizadores, Anchieta fundou a cidade de São Paulo.

Sementes são essas que, ao serem desenterradas pelas pesquisas do Estopô Balaio, revelaram raízes fortes e profundas: “Descobrimos só depois que Ururay era — quero dizer, é — aqui.” Também conta a equipe que, ao olhar as imagens dos primeiros migrantes nordestinos para São Paulo apresentados pelo historiador tupinambá Casé Angatú, a identidade era nítida: “Reconhecemos corpos indígenas.”

Além de retratar a realidade do trabalhador no capitalismo a peça Reset Brasil retoma as raízes dos povos indígenas que habitavam o atual estado de São Paulo antes da colonização.

A falta de espaços adequados para a quantidade de moradores e atores envolvidos desde o início foi apenas uma das razões que levou o coletivo para as ruas. Em um momento emblemático em que faziam um exercício cênico deitados na rua, os vários atores contam que chegou a polícia, que disse ter sido acionada por uma denúncia de chacina.

O desentendimento, marcado por um imaginário fértil de agressão de corpos marginalizados, é um sintoma de uma luta maior – a opressão policial, racial, e elitista que culminou na formação do movimento Mães da Leste. Só no estado de São Paulo, de Janeiro a Novembro de 2024, registrou-se uma média de duas vítimas letais por dia segundo dados do Ministério Público Estadual. Com o assassinato constante, brutal e impune de crianças da Zona Leste pela violência policial, a organização integra o itinerário da peça Brasil Reset reiterando como a luta civil por dignidade, território e vida não terminou com a vitória dos colonizadores na guerra de Piratininga – apenas ganhou nuances contemporâneas.

Um morador chegou a comentar que, após o teatro aparecer em uma reportagem na TV, a rua onde morava foi arrumada logo a seguir. Outro espectador, que não frequenta o bairro, reconheceu-o alagado em uma matéria de noticiário e entrou em contato com a equipe Estopô Balaio perguntando se havia alguma maneira de ajudar.

Esse trabalho coletivo que resulta em soluções comunitárias é a pesquisa da peça, entrelaçando-se com as próprias atividades de ajudar com os problemas da região: o apoio comunitário durante as enchentes no Jardim Lapena, o acolhimento das crianças nos espaços ao redor do teatro e o convite a ambos crianças e adultos para participarem das atividades culturais promovidas pelo coletivo.

O trabalho do Coletivo Estopô Balaio é a expressão de uma história que escolheu a arte como instrumento de resistência. O resultado é uma luta justa, que conquista e reivindica seu espaço físico e ancestral, ensinando-nos que os tempos passados precisam ser superados para dar lugar a novos tempos, cada vez mais urgentes. Por isso, a arte deve contribuir para uma revolução socialista, a superação do capitalismo, verdadeiro algoz dos povos originários e da cultura popular.