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União entre recicladores e MST transforma resíduos orgânicos em adubo

Reunião entre MST e Cooperlol. Foto: Filipe Augusto Peres

Por Filipe Augusto Peres

Da Página do MST

O MST e a Cooperativa de Trabalho dos Recicladores de Orlândia (Cooperlol), realizaram nesta sexta-feira (29), uma reunião para discutir a Estruturação do Projeto Piloto do Programa “Reciclar & Plantar”. O encontro aconteceu na sede da Cooperativa Agroecológica Mãos da Terra (COMATER), no assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto/SP, e teve como objetivo reunir a comunidade para construir um futuro mais sustentável, alinhando ações de reciclagem e cultivo da produção de alimentos saudáveis.

O projeto que já vinha sendo desenvolvido em Orlândia/SP, tem o objetivo de dar destinação sustentável aos resíduos orgânicos por meio de uma técnica inovadora de baixo custo, que acelera a produção de composto. A partir da experiência pioneira, agora o projeto será desenvolvido em parceria com a Cooperlol e as famílias Sem Terra do assentamento Mário Lago, ampliando seu alcance e impacto na região.

 Na reunião definiu-se os próximos passos do projeto na região sob o lema “transformando resíduos, cultivando vida”. O principal assunto da pauta foi a estruturação do projeto piloto, com foco na integração entre a reciclagem de resíduos e práticas agroecológicas. A iniciativa buscou consolidar um futuro mais sustentável e cheio de vida para o município, contando com a participação ativa da população e dos parceiros locais.

A Cooperativa de Trabalho dos Recicladores de Orlândia (Cooperlol) é uma cooperativa formada por catadores e catadoras desde 2005, fundada após o fechamento do lixão de Orlândia. Ela atua na coleta seletiva nas cidades de Orlândia e Sales Oliveira, com cerca de 120 toneladas de materiais recicláveis processados por mês. Com isso, além de promover a geração de renda para seus cooperados, a Cooperlol desenvolve ações que contribuem para a preservação ambiental e para a construção de modelos sustentáveis de gestão de resíduos.

O projeto nasceu em Orlândia, em maio de 2025, quando a Cooperlol e a Associação Regional Estadual do Desenvolvimento da Agricultura Familiar e Urbana Sustentável (AREDAFUS), ligada ao MST, firmaram um termo de cooperação na sede da cooperativa. Este acordo inicial estabeleceu as bases para a implantação de um projeto de compostagem de resíduos orgânicos urbanos, os quais são transformados em adubo para a produção agrícola no Assentamento Aparecida Segura.

A proposta previu como um módulo piloto de compostagem, utilizando resíduos coletados pela cooperativa e convertidos em composto para as lavouras, gerando benefícios ambientais, fortalecendo práticas agroecológicas e promovendo trabalho e renda. O contrato foi assinado pela presidenta da Cooperlol, Juliana Damiane de Paulo, e pela presidenta da AREDAFUS, Aparecida Donizeti Tomaz Almeida, conhecida como Dona Zete, que também esteve presente na atividade ao lado de outros companheiros e companheiras do assentamento Aparecida Segura que já atuam no projeto. Agora, a iniciativa chega ao assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto.

O termo de cooperação assinado durante a reunião estabelece um período inicial de seis meses para a execução do projeto piloto, que será acompanhado pelas duas organizações. Ao final desse período, as partes avaliarão os resultados e discutirão a viabilidade de sua ampliação. Com a extensão para o assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto, o projeto piloto ganha novos contornos e a expectativa é de que a experiência possa ser replicada para outras comunidades da região.

Parceria é selada no Assentamento Mário Lago

Nivalda Alves, presidenta da COMATER e integrante da Direção Estadual do MST/São Paulo, abriu a reunião e declarou sua admiração pelo trabalho desenvolvido pela cooperativa Cooperlol. Segundo Nivalda, se ela tivesse que escolher uma organização que cuida de pessoas, escolheria a cooperativa, pela felicidade que viu nas mulheres no dia da inauguração, o que considera uma forma admirável de trabalhar com o ser humano.

Juliana Damiane de Paulo, catadora de materiais recicláveis e diretora presidente da Cooperlol, tomou a palavra e agradeceu de coração o convite. Damiane começou contando um pouco da história da cooperativa, que surgiu a partir de um grupo de pessoas que trabalhavam no antigo lixão de Orlândia, local onde ela começou a acompanhar sua mãe desde os 10 anos de idade. Juliana relatou que, em 2005, com o fechamento do lixão, aquele grupo ficaria desempregado, mas eles bateram o pé e disseram ao prefeito:

Foto: Filipe Augusto Peres

“[…] A gente não quer trabalhar com ninguém não, a gente quer trabalhar com esclarecimento, a gente precisa de uma área, a gente sabe que a lei permite, vamos formalizar uma cooperativa, a gente quer trabalhar com aquilo que a gente sabe fazer e que a gente gosta de fazer”. – declarou a diretora presidente da Cooperlol.

Sobre o projeto de compostagem, Juliana revelou que a Cooperlol já havia sido aprovada em um edital do Ministério do Meio Ambiente para trabalhar com a geração de adubo orgânico, mas não sabiam como iniciar. E contou que foi a partir de uma reunião com o biólogo Carlos Eduardo Bevilacqua que a parceria se concretizou.

Carlos Eduardo Bevilacqua, se tornou responsável técnico pelo programa Reciclar & Plantar, e explicou os fundamentos técnicos da iniciativa. Bevilacqua lembrou que o programa surgiu com o objetivo de dar destinação sustentável aos resíduos orgânicos por meio de uma técnica inovadora de baixo custo que acelera a produção de composto e destacou que, enquanto a cadeia do resíduo sólido seco já possui certa estruturação, o resíduo orgânico ainda é um grande desafio no país, com menos de 1% sendo destinado corretamente. ele ainda alertou que o orgânico, quando vai para o aterro, gera gás metano, contribuindo para o aquecimento global. Em contrapartida, afirmou:

“A nossa proposta é justamente o contrário, destinar corretamente, gerar resultado social, ambiental, evitar que esse material vá para aterro sanitário ou outra localização inadequada e isso junto da transformação do material em composto para produção de alimento de boa qualidade”. – destacou Carlos.

Bevilacqua tranquilizou os agricultores quanto à qualidade do material recebido, explicando que o resíduo chega fresco, sem mau odor ou mosquitos, pois os geradores são orientados sobre o acondicionamento correto. E detalhou:

“A gente fala que chega até fresco ainda, porque quando entra essa fase de fermentação, gera gás metano, a gente não quer isso, a gente quer justamente evitar. […] A proposta é simples: devolver para a terra o que é da terra. Composto orgânico representa soberania para o agricultor. Deixamos de depender de adubação química e de insumos que vêm de fora, ao mesmo tempo em que resolvemos parte do problema ambiental das cidades”. – – explicou o responsável técnico do projeto.

Foto: Filipe Augusto Peres

Joaquim Lauro Sando, da Coordenação Estadual do MST, reforçou a importância e a responsabilidade do momento. Ele destacou que o projeto, como o biólogo Carlos havia colocado, estava criando uma dimensão muito maior e mais rápida do que o esperado, especialmente agora que está sendo estendido para o assentamento Mário Lago. Joaquim afirmou que a assinatura do termo carrega responsabilidades importantes para ambos os lados e foi enfático:

“A responsabilidade de fazer esse projeto dar certo é de todos nós que estamos aqui. O MST não está entrando como coadjuvante. Não somos um agregado a outro movimento social. Estamos juntos nesse processo”. – mencionou o Sando.

Joaquim também sublinhou a mudança de lógica na relação entre campo e cidade, explicando que aquilo que para a cidade é rejeito, para os agricultores se torna um insumo de valor inestimável, capaz de gerar produção de maior qualidade sem depender de multinacionais e do preço do dólar.

“Não estamos falando só de adubo. Isso é sobre dignidade, sobre construir autonomia, sobre fazer com que nossas famílias não dependam mais do modelo que está aí, mas que possam caminhar de forma independente, produzindo alimento saudável e cuidando da terra”, disse o coordenador Sem Terra.

*Editado por Lays Furtado

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