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Operação mira produtora de filme de Bolsonaro contratada por Ricardo Nunes

A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) está no centro de uma operação deflagrada nesta segunda-feira (1º) pela Polícia Civil de São Paulo que investiga suspeitas de fraude em contrato milionário de Wi-Fi e possível desvio de verbas públicas para custear a produção do filme Dark Horse, biografia  ficcional do ex-presidente Jair Bolsonaro. A ação, batizada de Operação Wi-Fi, cumpre sete mandados de busca e apreensão em endereços ligados à produtora Go Up Entertainment, ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT).

A Polícia Civil aponta indícios de irregularidades desde a origem da contratação entre a Prefeitura e o ICB, presidido por Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora responsável pelo longa. Segundo o ofício enviado ao Judiciário, há suspeitas de fusão patrimonial entre a ONG e a Go Up, com possível uso de recursos do programa WiFi Livre SP para financiar atividades do filme. A investigação corre na 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA/DPPC) e foi autorizada pela Vara de Garantias do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

Contrato suspeito

O contrato original, firmado em 2024, previa R$ 108 milhões para instalação, operação e manutenção de 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito em áreas periféricas da capital até junho de 2025. Com aditivos assinados na gestão Nunes, o valor subiu para R$ 157,1 milhões. Até o momento, apenas cerca de 3.200 pontos foram entregues. A polícia destaca discrepância de preços em relação à Prodam, empresa pública municipal: enquanto a estatal cobrava cerca de R$ 230 pela instalação e R$ 306 mensais de manutenção por ponto, o ICB cobrava R$ 1.800 fixos mensais por ponto, valor considerado injustificadamente superior.

Relatórios anteriores já apontavam problemas na execução. Em maio, o Ministério Público de São Paulo abriu inquérito sobre o chamamento público, que contou com participação exclusiva do ICB, entidade sem histórico comprovado em telecomunicações. Análise de contas revelou milhões em notas canceladas, auto emitidas pelo próprio instituto e faturas sem valor fiscal. Parte dos valores foi glosada e devolvida à Prefeitura. A operação busca documentos, equipamentos e registros financeiros para esclarecer se houve direcionamento da licitação, fraude na execução do contrato e emprego irregular de verbas públicas.

A linha mais sensível da apuração envolve o possível redirecionamento de recursos para a produtora do filme. De acordo com a polícia, a confusão patrimonial entre ICB e Go Up Entertainment pode ter servido para lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo. O longa Dark Horse é financiado majoritariamente com recursos privados, entre eles aportes de Daniel Vorcaro, do Banco Master, tema de investigações paralelas da Polícia Federal. A operação atual, no entanto, foca em eventual uso indireto de dinheiro municipal via estrutura controlada por Karina Ferreira da Gama.

Ricardo Nunes ainda não se manifestou sobre o assunto

A Prefeitura de São Paulo informou que colabora com as investigações e que todo o material solicitado já estava disponível no sistema SEI. Em nota, a administração municipal afirmou que o contrato seguiu os princípios de legalidade, transparência e economicidade, e que é monitorado pelo Tribunal de Contas do Muni­cípio. Apenas 52 pontos estavam offline por manutenção no dia da operação, segundo a gestão. O prefeito Ricardo Nunes não se manifestou pessoalmente até o fechamento desta edição.

Karina Ferreira da Gama, em respostas anteriores a reportagens sobre irregularidades contábeis, negou conhecimento de notas canceladas e afirmou que questões de prestação de contas estão sendo regularizadas. A produtora Go Up Entertainment ainda não se pronunciou sobre a operação.

A ação desta segunda-feira aprofunda apurações que já tramitavam no MP-SP e na própria Polícia Civil desde maio. O caso envolve ainda emendas parlamentares recebidas pelo ICB e investigadas no Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto a investigação avança, a Polícia Civil busca esclarecer se parte do dinheiro destinado à conectividade em comunidades periféricas de São Paulo acabou, de fato, custeando uma produção cinematográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

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