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“Entre nós, a dor nacional”: Agronegócio, desertos verdes e a ameaça à natureza

Paisagem de Sorriso (MT): acima, monocultura de soja; abaixo, os lotes de um projeto de produção agroflorestal
Foto: Fellipe Abreu/Mongabay

Por Fernanda Alcântara
Da Página do MST

O Brasil sangra e a “dor nacional”, que Caetano Veloso cantou lá atrás, não é poesia. Nesta Jornada Nacional em Defesa da Natureza e Seus Povos, o Plano Nacional do MST, Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis, a partir do lema “Combater o Agronegócio é Cuidar da Natureza”, puxa a fila e avisa sobre a realidade que temos diante de nós e os caminhos para enfrentar os problemas que se aprofundam no campo brasileiro.

O termo “deserto verde”, mais do que uma metáfora impactante, se tornou uma definição técnica e política para descrever um modelo de ocupação do território que avança sobre diferentes regiões do país. O conceito está associado, principalmente, às extensas monoculturas de eucalipto e pinus, mas também pode ser aplicado às grandes áreas ocupadas por soja e cana-de-açúcar. São paisagens que, à primeira vista, podem parecer exuberantes, mas que escondem ecossistemas empobrecidos, com pouca biodiversidade, escassa diversidade de vida e uma presença humana cada vez mais reduzida.

Nesse contexto de disputa pelos territórios, a expansão da silvicultura industrial, baseada principalmente no cultivo de eucalipto e pinus, tem provocado impactos ambientais significativos. Entre eles estão o elevado consumo de água, o comprometimento de nascentes e a pressão sobre aquíferos e mananciais subterrâneos em diversas regiões do Brasil.

Mas a situação é ainda mais grave do que aparenta. O que as grandes empresas chamam de “reflorestamento” é, na prática, a expansão de monoculturas que empobrecem a biodiversidade e afetam diretamente as populações que dependem desses territórios. Por trás desse modelo está um projeto que privilegia os interesses do capital transnacional, deixando em segundo plano a função social da terra, a soberania nacional e a vida dos povos e comunidades tradicionais. Na perspectiva da luta de classes, esses desertos verdes são a expressão visível da aliança entre o latifúndio predatório e o capital financeiro global.

Pacto colonial atualizado

Representação do trabalho escravo no clico da cana-de-açúcar, no período colonial no Brasil. Imagem: Reprodução

Para a pesquisadora e advogada Larissa Packer, a expansão dos desertos verdes no Brasil faz parte de um processo mais amplo de atualização do pacto colonial, em que o agronegócio ocupa lugar central na reorganização da economia global.

Estruturado pela integração da agricultura com a indústria mecânica, química, de petróleo e gás, residuais à indústria bélica norte-americana do pós-guerra, o agronegócio recolocou os termos do pacto colonial da plantation (baseada em grandes extensões de terra, mão de obra escarva e monocultivos para a exportação), mantendo a continuidade da divisão internacional do trabalho entre o Norte industrial, fornecedor de tecnologias e o Sul agrícola, fornecedor de recursos naturais e commodities de baixo valor agregado.”

Larissa Packer

O resultado é a manutenção de uma relação desigual, que aprofunda a dependência econômica e enfraquece a soberania dos povos sobre seus territórios e recursos naturais. A produção industrial de árvores como o eucalipto, portanto, emula a lógica do agronegócio de grãos: plantio em larga escala, flexibilização extrema de leis trabalhistas — muitas vezes descambando para o trabalho análogo à escravidão — e flagrante desrespeito aos ciclos da natureza.

Eliandra Fernandes, da coordenação nacional e do setor de Saúde do MST no Espírito Santo, expõe como a monocultura do eucalipto é o pilar central do agronegócio capixaba, destruindo bens naturais de forma irreversível para servir à produção de celulose.

Plantação de eucalipto em Minas Gerais. Foto: Bianca Souza (CAV)

Rios foram fechados, seus cursos foram mudados para canalizar água para a fábrica que fica no município de Aracruz; grandes extensões de terras foram apropriadas pela empresa para simplesmente passar um canal que leva água para a fábrica de produção de celulose. Existem lagos que foram construídos através de barragens que são utilizados com produtos para clarear essa água que vai para a fábrica – esse lago fica em Barra do Riacho e é chamado de lago azul.”

Eliandra Fernandes

Para o Movimento, a água, que deveria ser um bem comum, foi sequestrada pela silvicultura, deixando para as comunidades quilombolas e camponesas apenas o rastro de peixes mortos e mananciais contaminados por venenos proibidos até no exterior.

Neste sentido, os dados levantados por Eduardo Carline sobre o impacto ambiental da silvicultura e de outras commodities em 2024 e 2025 revelam a velocidade assustadora dessa transição. No estado de São Paulo, sob a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), houve a transição de 4.738,3 hectares de áreas de formação natural para a silvicultura em apenas um ano.

Simultaneamente, no Tocantins, a gestão de Wanderlei Barbosa (Republicanos) permitiu a transição de mais de 300 mil hectares de formação natural para monoculturas de árvores, enquanto a soja avançou sobre outros 181,2 hectares, no mesmo período. Sob a ótica da geopolítica agrária, esses números materializam o que Packer descreve como a transformação de territórios em “zonas de sacrifício”, onde a vegetação nativa é triturada para dar lugar ao deserto monocolor que alimenta as bolsas de valores estrangeiras.

Esta política, existente tanto no Brasil como em outros países na América Latina, fortalece a condução de política fundiária, cambial, tributária, ambiental e trabalhista orientada aos interesses da indústria colonial extrativa-minerária e agroalimentar, lembra Parcker. “Como consequência, persistimos com uma estrutura fundiária altamente concentrada: 1% dos imóveis detém cerca de 47% da área agricultável (IBGE/2017), que tem como pano de fundo a indústria da grilagem de terras públicas e coletivas, com a massiva tomada de terras para instalação, principalmente, do complexo soja-carne e a consequente produção de zonas de sacrifício com a limpeza da terra de florestas, biodiversidade e gente”.

Ilustração das culturas da cana – de – açúcar e eucalipto, que alimentam o deserto verde. Imagem: Reprodução

Enquanto isso, o bioma do Cerrado e a da Amazônia sofrem pressões críticas e crescentes. O Cerrado, tido como a principal zona de expansão e investimentos das cadeias globais de valor do agronegócio, teve ao redor de 50% de sua vegetação nativa desmatada, e uma migração de cerca de 30% da população rural, entre 1980 e 2010, com uma média 3,6 milhões de pessoas expulsas do campo para ocupar as periferias urbanas. Enquanto isso, os monocultivos de soja saltaram de 540 mil hectares em 1975, para cerca de 25 milhões de hectares hoje, representando a metade da área plantada de soja no país.

Pela primeira vez, aparecem áreas maiores que 1 milhão de hectares de soja colhida, como em Alto Teles Pires e Parecis no estado do Mato Grosso, barreiras na Bahia e no sudoeste Goiano. A expansão desse modelo agroexportador de baixo valor agregado gera o que Larissa Packer denomina de “dor econômica”, mantendo o país preso a uma estrutura agrária que impede o desenvolvimento industrial e tecnológico soberano.

É uma dor intergeracional, que vem do processo de instalação da ‘plantation’ e esse deslocamento forçado das populações rurais; a dor é ecológica, pelo desmatamento e degradação dos ecossistemas e da água, com essa ruptura metabólica acelerada que o agronegócio e a indústria extrativa fez; é dor econômica, de manter o país como agrário-exportador de baixo valor agregado. É a dor do trabalhador, primeiro com a escravidão e com o genocídio, e atualmente ainda tendo que lutar por um mínimo de dignidade, que é a escala 6×1“.

Enquanto exibe recordes de produtividade, as dívidas do agronegócio acumulam-se e são socializadas através do Estado. Na semana passada (27/05), a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado autorizou o acesso ao Fundo Social do Pré-Sal para renegociar R$ 180 bilhões em dívidas do setor. É mais do que uma evidência de que o dinheiro público está subsidiando bancos e o agronegócio, enquanto o povo brasileiro paga a conta com a destruição de seus biomas e o encarecimento do custo de vida.

Imagem: Reprodução

Packer denuncia que até o discurso ambiental foi sequestrado pelo capital: o setor tenta se reposicionar através das chamadas “finanças verdes”, pintando a “guerra contra a fome” de verde para capturar recursos públicos. “O Plano Setorial para Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária, com vistas ao Desenvolvimento Sustentável (2020-2030) – ABC+, renomeado para RenovAgro, considera como práticas elegíveis de uma agricultura de baixo carbono formas de manejo altamente controversas, tanto do ponto de vista ecológico como social”, afirma. Por isso, programas como o Caminho Verde Brasil e o RenovAgro são criticados por subsidiar práticas como o uso intensivo de calcário e fertilizantes, além do plantio direto com sementes transgênicas e glifosato, sob o rótulo enganoso de “regeneração”.

Expansão de Commodities no Brasil (2007-2024)

Gráfico: MST

A engenharia do extermínio

Para além dos números econômicos, o avanço do deserto verde opera o que Larissa Packer classifica como uma “limpeza de gente” nos territórios, um processo de deslocamento interno forçado que atinge duramente o Cerrado. Segundo a pesquisadora, desde a década de 80, mais de 30% da população nessas áreas perdeu seu território para a instalação do complexo soja-carne e do monocultivo florestal. “Isso não é migração — é deslocamento forçado”, enfatiza Packer, demonstrando que o esvaziamento do campo é uma necessidade estrutural da monocultura mecanizada.

Esta análise se sustenta com os dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE, que confirmam a perda de 4,3 milhões de habitantes nas áreas rurais brasileiras nos últimos 12 anos, uma redução que supera a população de estados inteiros como a Paraíba ou o Amazonas. O campo brasileiro está se tornando um espaço sem camponeses, onde o envelhecimento da população e a fuga da juventude para os centros urbanos em busca de sobrevivência fragilizam os laços comunitários e a resistência cultural.

Este modelo de desenvolvimento produz ao mesmo tempo uma crise de saúde pública sem precedentes. Conforme explica Packer, a dinâmica do agronegócio não se reverte em produção de comida, mas na criação de desertos alimentares onde os produtos saudáveis e frescos — frutas, legumes e verduras — tornam-se cada vez mais caros em comparação aos ultraprocessados.

Citando dados alarmantes, a pesquisadora aponta que em 2019 ocorreram 57 mil mortes prematuras no Brasil associadas ao consumo de ultraprocessados. Um número que supera o total de homicídios no país no mesmo período. “Esta modificação do padrão alimentar e da qualidade nutricional anuncia outra grande crise, a de saúde pública, principalmente entre os mais pobres”, projeta Packer.

A sede da terra e a engenharia da esterilidade

Este deserto que está sendo criado no país tem como impacto técnico-ecológico imediato a desregulação dos ciclos hídricos; por serem espécies de crescimento ultrarrápido, essas árvores operam como verdadeiras bombas de sucção, absorvendo quantidades de água que levam ao secamento de nascentes e à exaustão definitiva de mananciais subterrâneos. O capital florestal transforma a abundância em escassez, convertendo territórios outrora férteis em zonas em que a água se torna um artigo de luxo ou de uso exclusivo das fábricas.

Foto: Brenda Baleiro/ PA

Paulo Rogerio Gonçalves, do Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), traz o diagnóstico do “chão da fábrica” no Tocantins, explicando que o desmatamento promovido pelo agronegócio destrói a arquitetura viva do solo. Segundo Paulo, a vegetação nativa possui raízes que formam percursos naturais para que a água da chuva alimente os lençóis freáticos; no entanto, quando o trator passa e a monocultura se instala, esses canais físicos são destruídos.

Assim, sem a capacidade de infiltração, a água que deveria recarregar o subsolo escorre pela superfície, gerando um processo erosivo que remove até 50 toneladas de solo por hectare, resultando no assoreamento massivo dos rios. “Construindo uma condição de impossibilidade de um manejo ecológico do solo, e com este assoreamento o solo vai perdendo sua capacidade de ter a mesma fauna, uma microfauna. Assim, podemos ter um solo esterilizado que não permite nem a descida de água nem a sobrevivência de insetos, fungos e bactérias que são importantes para a manutenção de um solo vivo”, afirma Paulo.

O cenário de escassez hídrica ganha contornos dramáticos quando analisamos o impacto regionalizado no Matopiba. Paulo alerta para a crise do Aquífero Urucuia, um recurso estratégico que abastece as bacias do rio São Francisco e do Tocantins, e que está sendo exaurido pela monocultura de soja no oeste da Bahia, onde se concentram 3 milhões de hectares de plantio. O esgotamento é tão severo que cerca de 70% da água que deveria migrar para as áreas de recarga já não consegue mais circular, provocando o secamento de rios inteiros; no leste do Tocantins, há relatos de cursos d’água que secaram por extensões de até 30 quilômetros. Conforme aponta o levantamento técnico, regiões como Dianópolis e Almas já enfrentam condições de semiárido, com a seca constatada e os poços comunitários atingindo o nível zero de produção.

E essa crise hídrica funciona como mais uma ferramenta de expulsão populacional silenciosa. Paulo relata que, sistematicamente, quando chega o mês de setembro, as famílias camponesas são obrigadas a se deslocar para as cidades por absoluta falta de água para beber. A situação é corroborada por cenários prospectivos da Embrapa, que preveem uma redução drástica na precipitação anual do Tocantins até 2050.

Outra dimensão importante são os chamados “rios aéreos” importantes para a manutenção do regime de chuvas no continente. Segundo Paulo, a umidade evaporada dos oceanos se desloca pelo território e é constantemente reabastecida pela evaporação das florestas, especialmente da Amazônia, o que permite a continuidade do transporte de água na atmosfera. Nesse processo, as áreas florestadas funcionam como corredores que sustentam o fluxo de umidade mas, com o avanço do desmatamento e a formação de extensas áreas sem cobertura vegetal, esses corredores são interrompidos, dificultando a circulação dos rios aéreos e comprometendo a chegada das chuvas a diferentes regiões.

Imagem: Reprodução

Mas enquanto o agronegócio altera os “rios aéreos” ao impedir a transpiração das florestas nativas, o povo do campo assiste ao desaparecimento das chuvas que historicamente vinham do leste, restando apenas a resistência dos corredores que ainda resistem na Amazônia.

A instalação dos desertos verdes opera uma transformação radical na biodiversidade, convertendo biomas complexos em o que o Movimento classifica como “cemitérios biológicos”. Conforme demonstram as pesquisas realizadas por camponeses atingidos, a introdução de clones de eucalipto em larga escala prejudica severamente a sobrevivência de abelhas, o que desencadeia um efeito cascata que compromete a polinização e, consequentemente, a produção de alimentos em toda a região.

o uso intensivo de agrotóxicos é a arma química que mantém a hegemonia da monocultura. Eliandra Fernandes denuncia que o agronegócio florestal faz uso de substâncias que, embora permitidas pela legislação brasileira flexível, são proibidas na Europa devido à sua toxicidade extrema. “Para além das plantações, eles prejudicam as pessoas, que são contaminadas pelo ar, que tomam água contaminada, que comem o peixe contaminado. Esses são casos recorrentes no Espírito Santo, inclusive nas comunidades quilombolas que estão sendo nesse momento impactadas pela morte dos peixes em seus lagos por substâncias usadas nos monocultivos de eucalipto e empresas que estão ao redor das comunidades”.

O levantamento de Eduardo Carline corrobora essa pressão química, inserindo a silvicultura no mesmo rol de commodities como a cana-de-açúcar, que em estados como Pernambuco e Paraíba avançam sobre áreas de formação natural, esterilizando o solo para o plantio industrial. Finalmente, a engenharia da morte se completa com o respaldo do poder político, que atua para desregulamentar a proteção ambiental. O lobby da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) logrou aprovar o Projeto de Lei 1366/22, que excluiu a silvicultura do rol de atividades potencialmente poluidoras, liberando as multinacionais como a Suzano da obrigação de licenciamento ambiental e do pagamento de taxas de fiscalização.

Reforma Agrária Popular: Agroecologia é o caminho

Diante do avanço dos desertos verdes, a Reforma Agrária Popular aponta um caminho concreto de enfrentamento em democratizar a terra, recuperar áreas degradadas, proteger a água e produzir alimentos saudáveis. Não existe soberania alimentar, nem soberania popular quando os bens da natureza estão concentrados nas mãos de corporações transnacionais. Sem controle sobre o território, as sementes e a água, os povos também perdem o poder de decidir seu próprio destino.

Diferente do “reflorestamento” de mercado, o MST foca na plantação de milhões de árvores nativas em todos os biomas, integrando a floresta à produção de alimentos saudáveis. Com o desafio audacioso de plantar 100 milhões de árvores em todo o Brasil, o Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos saudáveis segue transformando áreas de assentamentos, acampamentos, escolas e centros de formação em polos de recuperação da biodiversidade. É a mística da terra liberta se transformando em ação política para resfriar o planeta, garantindo que a terra sirva para alimentar o povo e não para engordar balanços financeiros no exterior.

Foto: Juliana Adriano

Durante a pandemia, por exemplo, foi a Reforma Agrária Popular que garantiu a distribuição de alimentos, em especial às cidades pequenas e periféricas, como estratégia para combater a insegurança alimentar e reduzir o custo de vida. Ao todo, foram mais de 10 mil toneladas de alimentos fruto da Reforma Agrária Popular para a mesa dos trabalhadores. Ao fortalecer a agricultura familiar, o Movimento cria cinturões verdes de produção de alimentos que se contrapõem os desertos verdes do capital.

O MST também investe na formação de sua base social para a transição agroecológica, como por exemplo a Escola Popular de Agroecologia e Agrofloresta Egídio Brunetto, no Extremo Sul da Bahia, situada justamente no berço de um dos maiores desertos verdes do país. Há dez anos, a escola promove a transformação de territórios degradados em áreas de produção diversa, provando que é possível recuperar nascentes e solos exauridos através do manejo agroecológico.

Contra o conceito de “zonas de sacrifício” do agronegócio, o MST, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) cunharam a proposta dos “Territórios de Abastecimento Popular de Alimentos e Resiliência Climática”. Esse conceito visa institucionalizar políticas públicas que apoiem quem realmente cuida da biodiversidade: as comunidades camponesas que há gerações gerenciam o patrimônio genético do país.

São as digitais históricas das comunidades camponesas que vêm produzindo territórios agrobiodiversos de abastecimento popular de alimentos e resiliência climática”

– Larissa Packer

Como aponta Larissa Packer, esse é o projeto que funciona e que tem sido sistematicamente desacreditado pelo lobby das finanças verdes. “Mesmo que à margem dos institutos de estatística, são estes territórios que vêm garantindo a produção de renda para as famílias do campo, de alimentos saudáveis a partir da agroecologia e agroflorestas, pouco dependentes de insumos externos e não atrelados às oscilações dos mercados internacionais, e portanto, mais resilientes às crises, à preservação de espécies e variedades da agrobiodiversidade e o patrimônio genético do país, a regulação do microclima e hídrica, a contenção da contaminação e esgotamento de ecossistemas, solos e água, a prevenção de doenças e comorbidades, etc.”

Enquanto o agronegócio usa programas como o RenovAgro para intensificar o uso de glifosato, a agroecologia regenera o território de forma real e profunda. “Eu queria linkar a ‘dor nacional’ por isso: ela entranha muitas camadas de dores. E a gente tem que, nas próximas gerações, ir desatando essas dores, curando e construindo outras estradas a partir daqueles que se colocam como projeto. Aprender com a dor, curar e ir costurando outras a partir deles”, finaliza Packer.

Por fim, a luta contra o deserto verde é a luta pela permanência digna no campo. A agroecologia gera mais empregos e fixa as famílias no território, interrompendo o ciclo de violência e abandono que caracteriza o êxodo rural. Se os desertos verdes não são uma solução ambiental, a alternativa real, capaz de preservar os bens comuns e garantir o futuro, reside na coragem de fazer a Reforma Agrária e semear a agroecologia em cada palmo de terra deste país.

*Editado por Solange Engelmann

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