Notícias

Memorial da Retomada: por um futuro ancestral contra a política de morte e o capitalismo

O Acampamento Terra Livre (ATL) é a maior assembleia dos povos indígenas do Brasil, e é realizada anualmente em Brasília. Diante de tantas ameaças, climáticas e políticas, é importante refletir sobre a importância e a significação de um encontro como esse para o futuro de nossa nação.

Mick Aimirim Poti | Caruaru (PE)


CARTAS- O Acampamento Terra Livre, em Brasília — a maior mobilização indígena do país, que chegou à sua 22ª edição em abril de 2026, reunindo povos de todos os territórios. O mês de abril, que o calendário oficial insiste em domesticar como uma celebração dos povos indígenas, precisa ser chamado pelo nome que realmente traz sentido: mês de luta, memória e resistência. É o tempo em que a luta secular dos nossos ancestrais se encontra com a urgência brutal de um país que ainda se recusa a nos escutar — e que insiste em negar nossa existência no presente.

É desse chão que afirmamos: a resposta somos nós. Nós, povos indígenas, habitantes deste território muito antes de qualquer Estado, muito antes de as cidades se erguerem como centros de concentração de riqueza e exclusão. Nossas aldeias seguem sendo o avesso dessas metrópoles que sugam energia, exploram corpos e transformam a vida em mercadoria.

Nossa permanência aqui é uma derrota histórica para o projeto de extermínio — e é exatamente por isso que seguimos sendo alvo. O que está em curso não é apenas negligência. É uma política de morte: uma política que decide quem pode viver e quem pode morrer; que escolhe quais territórios podem ser destruídos, quais corpos podem ser descartados e quais vidas são consideradas sacrificáveis em nome do lucro.

Essa política tem base institucional, sustentação econômica e representação direta na organização do país. Hoje, enfrentamos um Congresso inimigo dos povos, comprometido com os interesses do agronegócio predatório, da mineração e do grande capital. Um Congresso que legisla contra a demarcação de terras, contra os direitos sociais e dos trabalhadores e contra a própria vida.

Esse projeto não atua sozinho. Ele é parte de um sistema maior: o chamado capitalismo canibal — um modelo que se alimenta da destruição da natureza, da exploração da classe trabalhadora e do extermínio dos povos para se manter de pé. Historicamente, fomos nomeados como povos canibais — uma narrativa construída para justificar invasões, violências e extermínios. Mas é preciso inverter essa lógica e encarar a realidade.

Quem, de fato, devora quem?

O que vemos hoje é a ação concreta desse sistema, que consome sem limites e corrói as entranhas não apenas da Terra, mas da própria humanidade. Um modelo que transforma tudo em mercadoria: o território, o corpo, o tempo e a vida.

Esse sistema não apenas explora. Ele esgota. Ele adoece. Ele destrói. Produz fome em meio à abundância. Produz doença em meio ao avanço tecnológico. Produz ganância onde deveria haver partilha. E, como consequência direta, produz morte. Não se trata de metáfora. Trata-se de um projeto que, para continuar existindo, precisa seguir consumindo terras, rios, florestas, culturas e pessoas.

Mas essa luta não está apenas nos territórios indígenas. Ela atravessa o campo e explode nas periferias das cidades.

Onde o concreto tenta apagar a história, a classe trabalhadora e periférica segue resistindo — nas ocupações urbanas, nas ações violentas do Estado, no trabalho precarizado, nas longas jornadas e na negação de direitos. É o mesmo sistema, atuando em diferentes frentes, com ações que invadem territórios indígenas e destroem comunidades tradicionais.

A luta por terra, por moradia, por trabalho digno, por saúde e por educação é uma só.

Indígenas, quilombolas, trabalhadores do campo, da cidade e das periferias não são iguais em suas trajetórias, mas enfrentam o mesmo inimigo estrutural — e compartilham raízes profundas de resistência. Reconhecer as diferenças não divide. Fortalece a unidade de quem luta.

Nenhum povo pode ser invisibilizado. Nenhuma luta pode ser adiada. O que está em jogo é a própria possibilidade de existir. As eleições que se aproximam aprofundam essa disputa. Não se trata apenas de escolher representantes, mas de enfrentar um projeto de poder que se expande pela América Latina e pelo mundo, contaminando a mente e o coração das pessoas, tal qual um vírus, adoecendo a sociedade.

Mais uma vez, nos vemos na polarização política: de um lado, a possibilidade de manter e ampliar os espaços de organização popular e resistência, ainda que de forma precária, mas mantendo os moldes democráticos. Do outro, o avanço de forças que defendem abertamente a retirada de direitos, a entrega dos territórios, das riquezas e a intensificação da violência em todos os setores.

Esse projeto serve ao capital. Serve aos interesses de quem lucra com a mineração, com a grilagem, com a privatização da energia, com a exploração da força de trabalho e com as guerras em curso. Hoje, milhares de requerimentos para mineração avançam sobre a Amazônia e invadem terras indígenas. Ao mesmo tempo, as cidades entram em colapso: enchentes, deslizamentos, fome, vulnerabilidade e precarização.

Isso não é acaso. É projeto. Quando chamam hidrelétricas e grandes empreendimentos de “energia limpa”, escondem os rastros de destruição: territórios violados, comunidades expulsas, populações adoecidas — e mortos.

A conta do lucro segue sendo paga por quem está na base da pirâmide social e que segue sustentando a economia do país. Por isso, nos juntamos às vozes dos mais de 14 mil indígenas para dizer: nosso futuro não está à venda!

A terra não é mercadoria. A vida não é produto

A luta dos povos indígenas é parte inseparável da luta dos demais povos tradicionais, da classe trabalhadora e das periferias. É uma luta contra a exploração, contra a expropriação e contra a lógica que transforma tudo em fonte de lucro.

A saída não virá de cima. Não virá de acordos vazios nem de promessas institucionais. Ela virá da organização coletiva entre os povos e seus territórios. Da união entre campo, cidade e floresta. Da construção de um projeto político que enfrente, de fato, o poder do capital. Não se trata apenas de resistir. Trata-se de construir mundos possíveis, sociedades humanas plurais e diversas.

Um mundo onde a vida esteja no centro. Onde o território seja respeitado. Onde o trabalho não seja exploração. Onde o futuro não seja mercadoria. A ancestralidade não é passado. É direção. É tecnologia de futuro. E é por isso que seguimos. Porque, diante da política de morte, reafirmamos a vida. Diante do capitalismo canibal, afirmamos a coletividade.

E, diante da destruição, reafirmamos:

A resposta somos nós!

 

 

*Mick Aimirim Poti é do povo Karaxuwanassu