
A velha prática da direita brasileira de transformar a máquina pública em agência de marketing político e fundo pessoal de campanha ganhou um novo e sofisticado capítulo em São Paulo. Sob a administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB), aliado de primeira hora do bolsonarismo, a fachada da “inclusão digital” serviu de cortina de fumaça para um esquema de violação em massa de privacidade, desvio de finalidade e abuso de poder econômico nas urnas.
No centro do furacão está o Instituto Conhecer Brasil (ICB, uma ONG comandada por Karina Ferreira da Gama, produtora executiva da cinebiografia de Jair Bolsonaro, “Dark Horse”). O que deveria ser um projeto de instalação de Wi-Fi livre, orçado inicialmente em R$ 108 milhões e já inflado para R$ 157 milhões, revelou-se uma sofisticada engrenagem de coleta ilegal de dados para beneficiar a reeleição da gestão e alimentar o ecossistema político-ideológico da direita.
A fazenda de dados e o desprezo pela lei
A engenharia do esquema é tão audaz quanto ilegal. Para acessar o Wi-Fi público, o cidadão é obrigado a fornecer seu número de celular. A partir desse cadastro, o ICB, que não possui qualquer expertise em telecomunicações, subcontratou a empresa Talk Communications por R$ 2,7 milhões. O objeto real? Realizar disparos em massa. O contrato previa 12 campanhas com mais de 675 mil mensagens cada, totalizando um potencial de 8,1 milhões de disparos — uma rede de spam financiada com dinheiro do contribuinte paulistano.
A manobra esnoba não apenas a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), ao compartilhar informações sensíveis sem qualquer termo de consentimento, mas também o Marco Civil da Internet e a legislação eleitoral. Como revelado pelo Intercept Brasil, a prática de usar bases de dados públicas para disparo de mensagens promocionais sem consentimento é proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na prática, a prefeitura de Nunes forneceu a munição e o cofre para que a ONG de aliados políticos fizesse propaganda da gestão durante o período eleitoral, configurando um abuso que a democracia brasileira tenta, a duras penas, coibir.
O rastro bolsonarista: de “Dark Horse” ao cofre paulistano
Não se trata de um caso isolado de má gestão, mas de uma simbiose corrupta entre a direita nacional e o seu braço local. Karina Ferreira da Gama não é uma empresária de tecnologia; é uma figura central na engrenagem de financiamento do bolsonarismo. Recentemente, veio à tona que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou R$ 134 milhões com o Banco Master justamente para custear “Dark Horse”.
O que o escândalo do Wi-Fi escancara é o modus operandi dessa rede: utiliza-se de ONGs e produtoras culturais/religiosas para captar recursos públicos desviados de suas finalidades originais. O dinheiro do paulistano que precisa de internet nas periferias acaba subsidiando a máquina de propaganda de uma facção política que se arvora em defensora da moralidade, mas que opera nas sombras da terceirização fraudulenta.
ONGs de fachada: o velho novo esquema da direita
A escolha do ICB para gerir um contrato de R$ 157 milhões não foi um “erro” da prefeitura de Nunes; foi uma característica do projeto. Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) datada de 2012 já classificava o ICB, sob a mesma presidência de Karina, como uma “entidade de fachada”. Na época, o instituto não tinha folha de pagamento, nem quadro pessoal, e servia apenas como laranja para drenar emendas parlamentares do Ministério da Cultura.
Mais de uma década depois, a direita aliada ao governo federal e municipal aperfeiçoou o método. O ICB subcontratou sete empresas para executar o serviço de Wi-Fi, ficando com o papel de intermediária financeira e política. O Tribunal de Contas do Município (TCM) chegou a alertar sobre 20 irregularidades no edital, incluindo a fragilidade na proteção de dados. A prefeitura de Nunes e a secretaria comandada à época pelo deputado Bruno Lima (Podemos) fizeram maquiagens no papel para agradar o TCM, mas na prática, entregaram a base de dados de milhões de cidadãos nas mãos de operadores de marketing político.
A blindagem e a impunidade
Enquanto especialistas em direitos digitais, como a advogada Flávia Lefèvre, apontam a gravidade de uma prefeitura que “coleta dados de forma ilegal” para “fazer propaganda eleitoral”, a resposta dos envolvidos segue o roteiro habitual da corrupção bolsonarista: negação, terceirização de culpas e silêncio. A prefeitura de Nunes emitiu notas genéricas desconhecendo irregularidades, e a Talk Communications alegou que “desconhece os termos do edital” — uma confissão involuntária de que foi contratada exatamente para operar na margem da lei, longe dos olhos dos órgãos de controle.
O escândalo do Wi-Fi de São Paulo é a radiografia de uma direita que não governa, mas que saqueia. Transformou a gestão da maior cidade do país em um balcão de negócios onde a privacidade do cidadão é moeda de troca, a lei é um detalhe burocrático e o Estado existe apenas para financiar os filmes, as campanhas e os luxos de seus aliados.
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