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Para entender a indústria do Holocausto

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Este é o prefácio do livro A Indústria do Holocausto: reflexões sobre a exploração do sofrimento judeu, de Norman Finkelstein, publicado pela Autonomia Literária, parceira editorial do Outras Palavras.
O autor está no Brasil para o lançamento. Participa da Feira do Livro 2026 (Praça Charles Miller, Pacaembu, São Paulo), até 7 de junho. É o convidado principal do painel Holocausto e Palestina, em 4 de junho (às 16h45) no Auditório Museu do Futebol, contíguo ao estádio)

Em A Indústria do Holocausto, o autor judeu estadunidense Norman Finkelstein revela algo que se tornou um lugar comum no debate contemporâneo: de que os defensores do Estado de Israel fazem um uso político do sofrimento dos judeus no holocausto para justificar os seus crimes no Oriente Médio. Embora publicado em 2000, antes da “Guerra ao Terror” e da ascenção global das extrema-direitas, o livro é extremamente relevante para entender a atuação da Indústria do Holocausto durante o genocídio em Gaza iniciado em outubro de 2023. O seu modus operandi segue basicamente o mesmo.

Por exemplo, referências ao holocausto judaico foram utilizadas de forma recorrente por lideranças israelenses para explicar o ataque da resistência palestina em 7 de outubro de 2023, que deixou mais de mil israelenses mortos. Em cerimônia do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto realizada em 27 de janeiro de 2024, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ergueu uma cópia em árabe do Mein Kampf para criticar a ação, movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça, que acusou Israel de cometer o genocídio em Gaza. “Em nome de quem eles [os sul-africanos] vieram? Em nome do Hamas — em nome dos ‘novos nazistas’ — que vieram a cometer genocídios contra nós”, afirmou Netanyahu.1

Na representação sionista, a história colonial israelense de limpeza étnica e apartheid contra os palestinos como razão explicadora para a violência anticolonial promovida pelos guerrilheiros palestinos foi substituída por uma narrativa na qual o Hamas é visto como o portador contemporâneo de um ódio ancestral irracional aos judeus — agora dirigido contra o Estado de Israel. Logo, esse ataque foi reduzido a mais um ato terrorista voltado à construção de uma “Palestina livre do rio ao mar”, com o objetivo final de expulsar todos os judeus do território.

A manipulação do histórico slogan da resistência palestina, que reivindica a Palestina como uma nação indivisível entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo, em oposição à sua partilha imposta pelo imperialismo ocidental, tornou-se uma das principais armas culturais das elites sionistas para reviver o medo do holocausto no século XXI. O efeito tem sido a censura a sinais de solidariedade à Palestina. Na Alemanha, essa frase foi proibida. Em São Paulo, um artista foi pressionado pelo movimento sionista, com o auxílio da polícia e de políticos, a excluir o termo “do rio ao mar” de uma obra que pintou na empena de um edifício ocupado por militantes sem-teto na esquina das avenidas Paulista e Rebouças.

A instrumentalização desse slogan palestino para enquadrá-lo como um manifesto antissemita é um exemplo da “guerra semiótica”, como classificou Edward Said,2 travada contra os palestinos e da qual faz parte a Indústria do Holocausto. Junto de todo o discurso orientalista que busca desumanizar os povos árabes e muçulmanos, seu objetivo é justificar o colonialismo israelense dentro da estratégia do imperialismo ocidental para o Oriente Médio. O recurso mais poderoso em ação durante o genocídio em Gaza é a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (ihra, na sigla em inglês), que equipara críticas a Israel a formas de antissemitismo. Entre elas está a comparação entre as ações de Israel e as do regime nazista na Segunda Guerra Mundial. A analogia com os algozes dos judeus europeus é intolerável para os sionistas contemporâneos.

Eu mesmo sempre evitei aproximar o holocausto da violência promovida por Israel contra os palestinos, para não travar o diálogo a respeito da situação na Palestina. No entanto, em entrevista concedida em 8 de outubro de 2023, concordei com o questionamento de um jornalista sobre as semelhanças entre o Gueto de Varsóvia e a Faixa de Gaza.3 Em reação, recebi ameaça de morte de um ex-professor universitário de São Paulo que atua como assessor de uma das mais importantes organizações do lobby israelense no Brasil. Esse é um exemplo extremado do regime de intimidação criado pela Indústria do Holocaustro.

De toda forma, essa atitude virulenta me levou a refletir sobre se eu não estaria relativizando em excesso o genocídio sofrido por meus antepassados – constam cerca de oitocentas pessoas chamadas Huberman no registro de mortos da Shoah,4 termo em hebraico que significa catástrofe e é utilizado para se referir ao holocausto judeu. Estaria eu traindo a memória da opressão sofrida pelo meu próprio grupo diante do esforço de me solidarizar com os oprimidos de hoje, os palestinos?

A resposta veio em poucos meses, quando o mundo passou a associar aos sobreviventes dos campos de concentração nazistas as imagens de palestinos em Gaza em situação de fome severa, como resultado do cerco imposto pelo Estado de Israel. A comparação entre o genocídio nazista e o israelense não era apenas possível, mas útil para compreender as formas de ação de regimes fascistas que perseguem projetos de pureza racial.

A força dessa comparação foi colocada à prova quando, em fevereiro de 2024, Lula a realizou: “O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existiu em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu. Quando Hitler resolveu matar os judeus”. O presidente brasileiro foi acusado de antissemitismo pelo governo israelense e classificado como persona non grata. O ministro das Relações Exteriores de Israel, Israel Katz, convocou o embaixador brasileiro, Frederico Meyer, para uma repreensão formal e pública no Yad Vashem, o Museu do Holocausto de Jerusalém – uma prática incomum. O ato foi considerado uma humilhação pelo governo Lula, que congelou as relações diplomáticas com Israel.

Para demonstrar sua insatisfação com o governo brasileiro, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, convidou o ex-presidente Jair Bolsonaro para visitar o país. No entanto, Bolsonaro foi impedido de viajar por estar com o passaporte retido em razão da investigação por tentativa de golpe de Estado, em 2022. Em seu lugar, foram os governadores de extrema direita Tarcísio de Freitas (São Paulo) e Ronaldo Caiado (Goiás). No retorno, eles prontamente adotaram a definição de antissemitismo da ihra, incentivando outros governadores bolsonaristas a tomar a mesma decisão.

Ao menos doze estados, o Distrito Federal e municípios brasileiros, como São Paulo e Rio de Janeiro, já acataram a definição da ihra durante o genocídio em Gaza. A adoção tem caráter educativo e cultural, isto é, as pessoas não podem ser punidas criminalmente com base nela, mas sua concepção de antissemitismo pode ser empregada em materiais escolares e artísticos, como no ensino do Holocausto e da questão Palestina-Israel em escolas públicas. Isso estaria ocorrendo em São Paulo, com permissão do governo Tarcísio, por meio da atuação da organização StandWithUs Brasil, principal defensora da ihra no país. A manipulação da história do holocausto, ao focar excessivamente no sofrimento judaico e excluir as demais vítimas do regime nazista, assim como ao conectá-la diretamente às dinâmicas da questão Palestina-Israel para justificar os crimes israelenses, faz parte do modus operandi da Indústria do Holocausto nos Estados Unidos revelada por Finkelstein.

No início de 2025, o ex-ministro de Bolsonaro e deputado federal coronel Eduardo Pazuello (PL-RJ) apresentou, a pedido da Embaixada de Israel, um projeto de lei que inseria a definição de antissemitismo da ihra no Código Penal brasileiro.5 Já em março de 2026, poucos dias após Pazuello retirar o seu projeto de tramitação, a deputada federal de centro-esquerda Tábata Amaral (PSB-SP), que já participou de diversos eventos da Indústria do Holocausto, liderou um novo projeto de lei, assinado também por políticos de extrema-direita — particularmente aqueles alinhados com a bancada evangélica —, para a adoção do ihra nas políticas públicas brasileiras.6

Ao redor do mundo, o emprego desse instrumento não tem servido para combater a discriminação racial contra judeus, mas para censurar ativistas solidários à causa palestina – incluindo judeus.7 Eu e o professor Reginaldo Nasser, que coordenamos o Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais (Geci) da puc-sp, fomos chamados pela mantenedora da instituição, a Fundação São Paulo (Fundasp), a responder por acusações de antissemitismo em razão de publicações na página do Geci no Instagram sobre a história do Hamas.

A acusação anônima, feita por estudantes da puc-sp, foi mediada pela Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp). Como resultado do processo administrativo, a Fundasp adotou parcialmente a definição de antissemitismo da ihra, tornando-se a única universidade brasileira a assumir tal postura – disseminando medo de perseguição na comunidade acadêmica. Outras pessoas solidárias à Palestina, como o jornalista judeu Breno Altman, que assina a orelha deste livro, também foram falsamente acusadas de antissemitismo com base na definição da ihra.8

Diante dessa crescente pressão sobre a sociedade civil brasileira e o governo, em julho de 2025, o presidente Lula decidiu retirar o Brasil de sua posição de Estado observador da ihra. A saída abriu mais uma crise com a Indústria do Holocausto brasileira, que interpretou o gesto como um abandono da memória da Shoah. A decisão foi justificada pela forte pressão em favor do emprego legal da definição de antissemitismo da ihra. Lula vinha sendo acusado reiteradamente de antissemitismo pelo lobby israelense no Brasil por suas críticas ao genocídio israelense em Gaza.

Para colocar panos quentes na situação, em janeiro de 2026 o presidente escalou a ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, para uma visita ao Bom Retiro, tradicional bairro judaico de São Paulo. A ministra visitou o Memorial do Holocausto e a Casa do Povo, instituição judaica antifascista criada em 1946. Na mesma semana, Evaristo e a ministra Gleisi Hoffmann se reuniram com lideranças da comunidade judaica no Brasil em torno do tema “o enfrentamento do antissemitismo no Brasil”.

O encontro contou com representantes da esquerda sionista e antissionista, rabinos, acadêmicos, políticos e membros da Indústria do Holocausto: os irmãos Cláudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), e Fernando Lottenberg, comissário da Organização dos Estados Americanos (oea) para o Monitoramento e Combate ao Antissemitismo, além de Carlos Reiss, coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba. Reiss era o representante brasileiro na ihra e foi um grande crítico da decisão federal de deixar o órgão.

A reunião revela duas dinâmicas fundamentais da Indústria do Holocausto debatidas por Finkelstein. Em primeiro lugar, mostra como, em meio a um genocídio perpetrado pelo Estado de Israel, a questão do antissemitismo e da memória do holocausto permaneceu mais relevante e recebeu mais atenção do governo brasileiro do que as vítimas do massacre em curso: os palestinos. Durante os dois anos de genocídio em Gaza, a comunidade palestina e os movimentos de solidariedade à causa não foram recebidos pelo primeiro escalão do Executivo federal para uma reunião de mesmo nível daquela realizada com integrantes da comunidade judaica.

O antissemitismo de fato está crescendo globalmente, como se observa em ataques a sinagogas e cemitérios judaicos no Brasil e no atentado em Bondi Beach, na Austrália, durante a celebração de Hanukkah, que provocou a morte de quinze pessoas. No entanto, os casos de antissemitismo recebem uma atenção desproporcional em relação aos episódios de racismo antipalestino, que justificam a devastação completa da Faixa de Gaza e provocaram a morte de ao menos 70 mil palestinos. Isso sem falar na tolerância em relação àqueles que ainda negam o genocídio em curso e a Nakba, a grande catástrofe do povo palestino ocorrida entre 1947 e 1949, quando cerca de 750 mil palestinos foram expulsos e quinhentos vilarejos foram destruídos por milícias sionistas no processo de construção do Estado de Israel.

Outro fenômeno observado por Finkelstein e presente no contexto brasileiro é o fortalecimento recente da memória do holocausto como produto da questão Palestina-Israel. O Museu do Holocausto de Curitiba foi aberto em 2011, seguido pelo Memorial do Holocausto de São Paulo, em 2017, e pelo Memorial às Vítimas do Holocausto no Rio de Janeiro, em 2023. A cidade de São Paulo ainda conta com o Museu Judaico, inaugurado em 2021, que também aborda a história do holocausto. Isso sem mencionar o Centro da Cultura Judaica, mantido pela Unibes Cultural.

Na capital paulista, não há dois ou três grandes centros de exposição destinados exclusivamente à memória do povo negro ou indígena. O Museu Afro Brasil se dirige à produção de artistas negros brasileiros, muitas vezes com temáticas políticas, mas não tem como objetivo central narrar a história da escravidão ou da permanência de estruturas de apartheid no Brasil. Ademais, somente em 2023 foi inaugurado o Museu das Culturas Indígenas, o primeiro na cidade dedicado aos povos originários. Outras comunidades imigrantes mais numerosas em São Paulo, como a armênia, a italiana, a árabe e a japonesa, não mobilizam a memória politicamente da mesma forma que a comunidade judaica.

Esse movimento museológico em torno do holocausto coincide com o fortalecimento do movimento de solidariedade à Palestina no Brasil e com um contexto em que a questão Palestina-Israel passou a se tornar uma pauta cada vez mais presente no debate público brasileiro. Contribuem para isso as crises diplomáticas entre os países nas administrações petistas, o crescimento do segmento evangélico e o alinhamento ideológico observado no governo Jair Bolsonaro.9 A manipulação do antissemitismo se tornou um instrumento da extrema-direita brasileira, impulsionada pelos evangélicos sionistas e a Indústria do Holocausto, para conter laços de solidariedade do governo Lula com a Palestina. O objetivo da Indústria do Holocausto não é a preservação da memória judaica, mas a sua manipulação como instrumento de poder geopolítico.

A Indústria do Holocausto no centro da aliança Estados Unidos-Israel

The Fateful Triangle: The United States, Israel and the Palestinians, de Noam Chomsky,10 havia revelado, em 1983, a importância estratégica de Israel para o imperialismo estadunidense na Guerra Fria. Em uma análise que vale ainda hoje, Chomsky nota que a aliança entre os países não é baseada em valores como democracia e liberdade, mas no enfrentamento a inimigos comuns – o pan-arabismo dirigido por Gamal Abdel Nasser e, depois de 1979, o islamismo revolucionário liderado pelo Irã – que obstruem o acesso estadunidense às reservas de petróleo da região.

Ao apontar, nesta obra, para a exploração política e econômica da história do holocausto por parte do establishment sionista estadunidense e do Estado de Israel, Finkelstein contribuiu de forma decisiva para revelar outros pilares que sustentam a aliança entre Estados Unidos e Israel. Ao revelar parcela das dinâmicas intestinais da sociedade estadunidense que fundamentam a “amizade especial” entre os países, a sua publicação dialoga com a de John Mearsheimer e Stephen Walt que, em 2007, chamou atenção para a atuação do lobby israelense nos corredores de Washington.11

Os lobistas pressionam principalmente os poderes Executivo e Legislativo dos Estados Unidos, além de influenciar a grande mídia, a fim de moldar os tomadores de decisão da política externa estadunidense em favor dos interesses israelenses no contexto da “Guerra ao Terror”. Mearsheimer e Walt chegam a argumentar que a invasão do Iraque teria ocorrido principalmente por pressão do lobby israelense e que iria contra o interesse nacional estadunidense. Argumento semelhante tem sido utilizado para explicar a agressão conjunta de Estados Unidos e Israel ao Irã, iniciada em fevereiro de 2026.

Embora o papel do lobby israelense tenha de ser analisado com cautela para não ser exagerado, a obra de Mearsheimer e Walt oferece um enquadramento institucional complementar ao livro de Finkelstein sobre a Indústria do Holocausto – não por acaso, ambas as publicações sofreram resistência do mercado editorial estadunidense, que não desejava comprar briga com interesses poderosos em Washington e Nova York. No entanto, Finkelstein aborda o conteúdo moral que fundamenta essa aliança e constitui o consentimento popular em torno dela para além do lobby das burguesias petroleiras, que almeja tomar os campos do Oriente Médio, e do complexo industrial-militar, que possui robustos investimentos em Tel Aviv.

A Indústria do Holocausto representa a aliança dos Estados Unidos com Israel como a defesa do Estado judeu sob a ameaça de um novo holocausto — e, por extensão, da civilização ocidental como um todo. Na raiz dessa construção está a ideia da “civilização judaico-cristã”, defendida por sionistas protestantes desde o século XIX e que se tornou um termo para designar a fronteira moral, política e ideológica que une Estados Unidos, Europa e Israel contra seus inimigos: o Islã, o comunismo, o ateísmo e demais ameaças provenientes do Oriente. Esse é o verniz cultural que constrói o consentimento para o papel de bucha de canhão que Israel desempenha contra os inimigos das potências imperialistas no Oriente Médio — os movimentos nacionalistas ou islâmicos que restringem o acesso irrestrito ocidental aos recursos naturais da região, especialmente o petróleo.

Para justificar a sua inclusão como “ocidentais”, os judeus — e, portanto, Israel — foram classificados como os guardiões dos valores da civilização ocidental por terem sido as grandes vítimas da suposta maior barbárie já cometida pelos europeus. Embora o holocausto judeu não tenha sido o maior genocídio da história quando comparado aos extermínios coloniais executados pelos próprios europeus contra povos ameríndios, africanos e asiáticos, ele se tornou excepcional porque foi a primeira vez que tamanha barbárie foi cometida dentro da Europa. Essa é a verdadeira excepcionalidade da Shoah, que os promotores da Indústria do Holocausto não gostam de admitir, a fim de preservar o estigma de excepcionalidade que repousa sobre os judeus, seu genocídio e seu Estado-nação.12

Como resultado, o que observamos é que a homogeneização racista dos judeus não foi rompida — apenas houve uma inversão do sinal, de negativo para positivo — a partir da integração de Israel à estrutura imperialista liderada pelos Estados Unidos. Esse fenômeno é conhecido como filosemitismo: um suporte e apreço inato aos judeus, normalmente manifestado através do apoio ao Estado de Israel. Assim, o sionismo não rompeu com a camisa de força racista que o antissemitismo lhe impôs; apenas lutou por seu lugar ao sol no mundo dos brancos.

Para isso, como nota o palestino Joseph Massad, cumpriu a tarefa de oprimir povos vistos como inferiores aos judeus na hierarquia racial global — os árabes e os muçulmanos.13 A estrutura racista que produziu o nazismo e o genocídio dos judeus na Europa segue intacta. A extrema-direita contemporânea apenas substituiu, como base de seu regime de supremacia racial, o antissemitismo pela islamofobia. Israel desempenha uma função central nesse processo.

Logo, a Indústria do Holocausto não está preocupada em desfazer os vetores racistas que originalmente levaram à subjugação dos judeus no interior da modernidade ocidental. Sua missão não é universal, como deveria ser aquela que zela pela memória de um dos maiores genocídios da história, mas identitária: centrada na defesa da permanência do Estado de Israel como eixo central do imperialismo ocidental e das elites sionistas como parte das classes dominantes em nações como Estados Unidos, França e Brasil.

Esse, no entanto, não foi um projeto unânime dentro das comunidades judaicas e a única alternativa política construída pelo judaísmo organizado no século XX. A imposição da hegemonia sionista sobre as comunidades judaicas e a constituição de uma ideologia comum sobre o antissemitismo moderno foram processos históricos fundamentais para o sucesso da Indústria do Holoucasto e a ascenção política das elites sionistas nesses países e no mundo. A capacidade de avanço colonial de Israel sobre o Oriente Médio foi combinado à supressão sionista sobre segmentos judaicos comunistas no contexto da Guerra Fria.

A hegemonia sionista sobre o judaísmo e o papel da Indústria do Holocausto

No final do século xix, o jornalista austro-húngaro Theodor Herzl, após cobrir o Caso Dreyfus14 na França, chegou à conclusão de que seria impossível a assimilação dos judeus às democracias liberais europeias por causa do antissemitismo estrutural dessas sociedades. Para Herzl, a solução seria o êxodo judaico por meio da colonização de uma terra virgem. “Uma terra sem povo para um povo sem terra”, diz o slogan sionista. Esse, entretanto, não era o único entendimento que os judeus elaboravam a respeito da discriminação racial a que estavam sujeitos na Europa.

Entre as classes trabalhadoras judaicas, o socialismo internacionalista, que defendia o fim dos Estados e das classes, era a principal força mobilizadora de corações e mentes. Isso era especialmente verdadeiro na Rússia czarista, onde os judeus viviam uma espécie de apartheid, submetidos à segregação na chamada Zona de Assentamento e expostos a constantes linchamentos – os pogroms. Um resultado disso foi a formação do Bund – União Geral Operária Judaica da Lituânia, Polônia e Rússia – em 1897.15

O Bund defendia um nacionalismo cultural que reivindicava a autonomia da cultura ídiche em meio às questões do movimento operário russo. Pregava o princípio de doikeyt (hereness), isto é, a ideia de que os judeus deveriam se envolver nas lutas contra a opressão onde viviam, em conjunto com os demais trabalhadores não judeus, em vez de se engajar na formação de um Estado territorial judaico alhures, como defendia o movimento sionista. Diante do avanço da colonização sionista da Palestina, o Bund rejeita o sionismo, em 1901. Acreditava-se que a luta pela emancipação era universal, e não exclusiva aos judeus.

Para além do Bund, muitos judeus se envolveram na causa operária russa e participaram das revoluções de 1905 e 1917, como Leon Trotsky. O Bund se manteve como um partido importante até a Revolução Russa, quando Lênin ordenou — equivocadamente — sua dissolução para impedir o que entendia como divisões no interior do movimento dos trabalhadores. O Bund polonês permaneceu relevante até a Segunda Guerra Mundial, protagonizando a resistência à ocupação nazista, especialmente no Levante do Gueto de Varsóvia, em 1943.

Nas comunidades judaicas ao redor do mundo, incluindo Estados Unidos e Brasil, o comunismo antissionista bundista foi uma ideologia relevante mesmo depois da criação do Estado de Israel. No Brasil, o Partido Comunista Brasileiro (pcb) manteve um setor judaico a partir dos anos 1930. A Casa do Povo foi criada em São Paulo, em 1946, como uma frente antifascista liderada por judeus comunistas e com a participação de sionistas socialistas. A Conib, fundada em 1948, não nasceu como mera representante do lobby israelense no Brasil, mas enquanto um órgão expressivo da pluralidade do judaísmo nacional.

Nos Estados Unidos, boa parte das entidades judaicas, como o American Council for Judaism, não era sionista e defendia a integração à sociedade estadunidense. Em 1947, o governo dos Estados Unidos apoiou o Plano de Partilha da Palestina na onu de maneira cética, temendo desagradar tanto as nações árabes ricas em petróleo quanto seus eleitores judeus. O próprio Estado de Israel, em seus primeiros anos, tampouco era alinhado integralmente ao Ocidente.

Além de serem ideologicamente socialistas, muitos israelenses admiravam a União Soviética por seu papel na derrota do nazismo e, especialmente, na libertação dos campos de concentração. Os soviéticos foram, ainda, fundamentais na aprovação da Partilha da Palestina ao entregar não apenas seu voto, mas também os da Ucrânia e da Bielorrússia. Ainda em 1948, se não fosse a venda de armas tchecas para Israel, sob autorização soviética, os israelenses poderiam ter sido derrotados na Guerra Árabe-Israelense. Além disso, a política de não alinhamento de Israel em sua primeira década de existência conferiu ao país um convite para a Conferência de Bandung, em 1955.16

Foi a transformação de Israel em ativo militar que mudou a história e construiu a hegemonia do sionismo sobre o judaísmo — além de dar a luz à Indústria do Holocausto, demonstra Finkelstein. O poderio demonstrado na Campanha do Sinai, contra o Egito, em 1956, ainda foi alvo de duras críticas por parte do establishment judaico nos Estados Unidos, que via Israel como uma rogue nation. No entanto, Finkelstein nota que essas mesmas pessoas se tornaram defensoras do Estado judeu quando os Estados Unidos decidiram firmar a aliança após a vitória israelense na Guerra dos Seis Dias, em 1967. O autor observa corretamente que um Israel em paz com seus vizinhos árabes ou, ainda, integrado ao movimento terceiro-mundista, não teria nenhuma utilidade para os Estados Unidos. Pelo contrário, poderia até se tornar um inimigo, como ocorrera com o pan-arabismo.

A partir de então, as lideranças judaicas estadunidenses, de fonte para denunciar judeus comunistas à perseguição Macartista, começaram a ser convidadas para a Casa Branca para discutir o interesse nacional com o presidente. Logo Israel tornou-se sua religião. Uma passagem importante do livro é quando Finkelstein nota como esse movimento na direção do sionismo coincide com o afastamento das elites judaicas do movimento pelos direitos civis no final dos anos 1960, no momento em que este passou a assumir pautas econômicas em defesa de ações afirmativas. Incluídas, ainda que imperfeitamente, na branquitude, as elites judaicas — agora convertidas ao sionismo — poderiam se dar ao luxo de assumir posturas reacionárias contra o movimento antirracista estadunidense, mesmo que suas pautas auxiliassem, em última instância, no combate ao antissemitismo real.

Do ponto de vista estrategico, se tornou mais vantajoso assumir a postura sionista de que o antissemitismo seria um mal atávico do mundo gentil, especialmente visíviel no Oriente Médio. O Hamas não é o primeiro inimigo de Israel a ser classificado de neonazista, posição que já foi ocupada por Nasser durante os anos 1950 e 1960. Na imprensa israelense, ocidental e na própria diplomacia europeia, era comum Nasser ser representado como o “Hitler no Nilo”.17 Em carta de 1963 dirigida ao presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, o premiê israelense, David Ben-Gurion, afirmou que “Nasser está, de fato, adotando a ideologia nacional‑socialista dos nazistas” e recorda que “por muitos anos o mundo civilizado não levou a sério” as declarações de Hitler sobre a intenção de exterminar os judeus e adverte que algo semelhante poderia ocorrer com Israel caso Nasser obtivesse uma vitória militar.18

No Brasil, o golpe de 1964 foi um marco na divisão entre o establishment judaico, que se tornava crescentemente sionista e desejava manter boas relações com o governo federal, e os setores comunistas da classe trabalhadora judaica, que resistiram à ditadura militar. Em São Paulo, a combinação entre a ascensão socioeconômica da comunidade judaica, que levou ao êxodo do bairro operário do Bom Retiro, o fortalecimento da ideologia sionista após 1967 e a repressão militar sobre os movimentos comunistas resultou, por exemplo, no fechamento da Casa do Povo no início da década de 1980.19 O movimento comunista judaico sempre deu protagonismo à resistência dos partisans ao nazifascista. No entanto, essa narrativa foi substituída pela da Indústria do Holocausto fabricada nos Estados Unidos à medida que se desestruturou o segmento não sionista organizado da comunidade judaica.

Essa hegemonia do sionismo sobre a identidade judaica reforçou apenas uma forma de ser judeu no mundo: submeter-se aos interesses da nação israelense. Na prática, isso significa cumplicidade com o expansionismo territorial judaico na Palestina e a eliminação do seu povo nativo. Como pano de fundo, todos os judeus do mundo seriam educados com a ideia de que Israel representa um último refúgio em caso de um novo holocausto. Essa ideia, completamente alienada da realidade, ignora como Israel é o lugar mais perigoso para ser judeu no mundo. No entanto, não como vítima de antissemitismo, mas como colono submetido à violência oriunda da resistência anticolonial palestina.

Logo a manipulação da memória do holocausto e da acusação de antissemitismo torna-se instrumento fundamental para manter a hegemonia sionista sobre as nações ocidentais e suas comunidades judaicas. Os não judeus, exceto aqueles extremamente sionistas, são idealizados como atavicamente antissemitas: todos os árabes, especialmente os grupos islâmicos, seriam novas encarnações de um mal irracional e cruel que odeia os judeus por uma suposta inveja por serem o “povo escolhido”, tal como Hitler e Ramsés ii.20

Para o sionismo, o ódio aos judeus seria um mal incorrigível, e não haveria alternativa senão encerrar-se em uma “Esparta” exclusivamente judaica contra os inimigos que desejam eliminar os judeus da face da Terra. Esse judeopessimismo – para tomar de empréstimo a analogia com a ideologia “afropessimista”,21 que faz juízo semelhante a respeito do racismo antinegro no mundo – abre mão do universalismo que sempre orientou a ética humanista judaica em prol do particularismo excludente e genocida do Estado de Israel.

Superando o particularismo sionista na direção de um universalismo judaico-palestino

No início de 2026, estive em duas cerimônias do mesmo shabat – uma na noite de sexta-feira e outra na manhã de sábado – em duas sinagogas diferentes de São Paulo. Por essa razão, foi feita a leitura da mesma parashá, ou seja, a porção semanal da Torá. A parashá tratava do momento em que Deus escolhe Moisés para liderar os israelitas na libertação da escravidão no Egito Antigo.

Na sexta à noite, o debate girou em torno da ideia de “povo escolhido”. Esse conceito é particularmente relevante para a Indústria do Holocausto, pois o antissemitismo atávico dos gentios seria fundamentado em uma inveja incorrigível em relação à excepcionalidade dos judeus. Finkelstein relembra muito bem como a ideia de superioridade faz parte da formação da maioria dos judeus do mundo. É revelador do identitarismo que constitui a formação judaica secular o trecho resgatado do escritor estadunidense Philip Roth: o que uma criança judia estadunidense herda não é “nenhum conjunto de leis, nenhum conjunto de ensinamentos e nenhum idioma e, por fim, nenhum Senhor… mas um tipo de psicologia: e essa psicologia pode ser traduzida em três palavras: ‘Judeus são melhores’”.

Finkelstein também recorda alguns dos argumentos que eu mesmo ouvi ao longo da vida para justificar essa superioridade. Entre eles estão o número de prêmios Nobel recebidos por judeus; o espírito empreendedor dos judeus, em particular dos israelenses, imbuídos de chutzpah,22que ergueram uma nação rica em poucas décadas; e a sobrerrepresentação em setores de prestígio, como advocacia e medicina – o Hospital Israelita Albert Einstein, avaliado como um dos melhores do mundo, é a joia da coroa da comunidade judaica paulistana.

Eu reconheço esse identitarismo na minha formação, em especial na preferência por comediantes judeus e por seu humor ácido, irônico e autodepreciativo. A respeito dessa ideia de “povo escolhido”, diz uma antiga piada judaica:

Diante de Hashem [Deus], o crente pergunta: “É verdade que somos o Teu Povo Escolhido?”
“Claro”, responde Deus.
“Então já não está na hora de escolher mais alguém?”, retruca o insolente.

A piada expressa o sentimento contraditório do judeu em ser o “povo escolhido”. No entanto, o rabino trouxe uma nova interpretação a respeito desse conceito. A ideia de ser escolhido não quer dizer ser especial e, portanto, superior aos demais. Os judeus seriam escolhidos para carregar uma mensagem de libertação contra a escravidão imposta pelos egípcios aos israelitas e a outros povos. No entanto, assim como a história do holocausto, a memória da escravidão no Egito Antigo também apaga as vítimas não judaicas. Os núbios, no atual Sudão, os líbios, os levantinos e os cananeus – habitantes de territórios correspondentes às atuais Palestina/Israel, Líbano, Jordânia e Síria – foram outros povos escravizados como consequência de guerras ou adquiridos via comércio.

Deus teria escolhido os israelitas, em especial Moisés, para confrontar o faraó e libertar o povo hebreu, conduzindo-o durante o êxodo até a Terra Prometida. Mas, como bem apontou o segundo rabino na discussão da parashá no sábado pela manhã, não foram libertos apenas os israelitas, mas todos aqueles escravizados pelo faraó. E vieram a se assentar na Terra Prometida, junto dos israelitas, todos aqueles que não tinham refúgio em sua terra natal. Por essa leitura dos acontecimentos bíblicos, a Israel antiga teria sido, portanto, uma terra de libertação da escravidão para todos os povos submetidos ao cativeiro no Egito Antigo. Isto é, representava o princípio da universalidade, que veio a fundamentar a ética humanista judaica, e não um enclave exclusivamente judaico da Antiguidade.

Contudo, como nota Karl Marx, a “história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa”.23 Milênios depois, quando os judeus foram submetidos novamente à escravidão, agora pelos nazistas, e almejaram reconstituir Israel como seu refúgio de liberdade, a sobreposição do particularismo sionista ao princípio universalista da tradição humanista judaica fez da Israel moderna uma farsa. A representação sionista do mundo como atavicamente antissemita – reforçada diuturnamente pela Indústria do Holocausto – apresenta como única alternativa o fechamento exclusivista dos judeus em seu Estado, em detrimento da vida e da dignidade do outro.

O filósofo judeu-francês Emmanuel Levinas viu no judaísmo a possibilidade de realização de um universalismo, pois teria introduzido valores de justiça e responsabilidade social, constituindo o exercício da religião como responsabilidade ética pelo outro. Preso pelo nazismo durante a ocupação da França, em 1939, o filósofo tornou-se um grande crítico dos nacionalismos europeus, que impõem limites à ética humana. Ele, no entanto, não assume uma postura antissionista, pois vê importância histórica na refundação de Israel, desde que isso não reduza o judaísmo a um nacionalismo, nem torne a identidade judaica exclusivista.24

A história da Israel moderna até poderia ter sido diferente, ainda que também problemática, caso reproduzisse a mesma lógica da Israel antiga e abrigasse todas as vítimas do holocausto: romas, pessoas com deficiência, negros, lgbtqia+ e comunistas. Embora os palestinos continuassem sujeitos a um processo colonial europeu, a pluralidade dos grupos que comporiam essa sociedade provavelmente impediria a realização do projeto sionista de supremacia racial visto no Estado de Israel.

Retornado da história contrafactual para do sionismo real na Palestina, a ética humanista e universalista vista por Levinas na tradição judaica foi substituída, com a hegemonia sionista sobre todas as formas de ser judeu no mundo, por um exclusivismo identitário encerrado em um Estado ultramilitarizado, orientado por ideais racistas de “choque de civilizações” contra nações árabes e muçulmanas. Como temia Levinas, o judaísmo foi reduzido ao sionismo, e a identidade judaica ficou encerrada em si mesma.

Judith Butler recorre a Levinas para subvertê-lo em relação à questão palestina, radicalizar seu pensamento e elaborar, junto do pensamento de outras intelectuais judias como Hannah Arendt, o que classifica como tradição judaica “diaspórica”: fundamentada na relação com outros povos não judeus; enraizada em uma tradição ética que não se limita ao próprio grupo identitário; crítica da soberania estatal absoluta; e defensora da coabitação25 entre diferentes povos como condição básica da política.26

Esse sionismo “diaspórico”, ainda visto nas franjas das comunidades judaicas ao redor do mundo que resistem à patrulha sionista, seria uma forma de Butler trazer para a contemporaneidade a tradição judaica humanista secular. A filósofa estadunidense aponta que Israel se tornou uma exceção a essa tradição diaspórica e reivindica o abandono do exclusivismo nacional que caracteriza o sionismo pelo judaísmo. Isto é, defende o antissionismo como posição fundamentada na tradição judaica diaspórica, como forma de elaborar uma crítica judaica a Israel e construir a reconciliação com os palestinos. Contudo, ela ressalta a necessidade de, ao mesmo tempo, negar a excepcionalidade da crítica judaica a Israel com o objetivo de impedir a construção de uma nova forma de particularidade judaica.

A violência a que Israel submete o povo palestino os colocou em uma situação de luta revolucionária constante por liberdade. Hoje, a centralidade que a Questão Palestina tem para o mundo faz o povo palestino emular a posição de “povo escolhido” a carregar a mensagem de libertação universal. Portanto a emancipação judaica virá do reencontro com essa mensagem e a partir de um engajamento ativo com a causa palestina. Isto é, por meio do rompimento com o particularismo sionista e do reconhecimento verdadeiro da humanidade do outro antes de qualquer pertencimento nacional ou religioso, tal como prega o princípio humanista judaico.

Butler demonstra que a realização de uma universalidade legítima envolve combater falsos multiculturalismos que ocultam o caráter colonial da situação palestina, bem como encarar a pluralidade concreta que constitui os povos que coabitam o mesmo território sem homogeneizar suas identidades. Isso passa pela conjunção das identidades nacionais judaica e palestina na formação de uma nova forma de identificação política anticolonial comum, libertadora e igualitária.

O seu projeto deixa claro o tamanho do desafio do movimento de descolonização do território da Palestina, que inclui, implicitamente, a descolonização do judaísmo pelo sionismo. Um primeiro passo na direção de um processo que seja universal e emancipador a todos e todas é desfazer as mentiras construídas pela Indústria do Holocausto e reconhecer as histórias e humanidades de todos os povos oprimidos: do Egito Antigo, do holocausto nazista e do genocídio israelense. Por essa razão, essa obra de Finkelstein é uma contribuição fundamental para aqueles que lutam pela libertação da Palestina.


Notas:

1 Lazaroff, Tovah; Spungin, Tal. Benjamin Netanyahu holds up Mein Kampf to protest ICJ, calls Hamas “new Nazis”. The Jerusalem Post, 27 jan. 2024. Disponível em: <https://www.jpost.com/israel-hamas-war/article-783989>. Acesso em: 30 mar. 2026.

2 Said, Edward W. A questão da Palestina. Tradução de Sonia Midori. São Paulo: Ed. Unesp, 2012.

3 Huberman, Bruno. Gaza vive opressão maior que a do Gueto de Varsóvia e de Soweto. Opera Mundi, 8 out. 2023. Disponível em: <https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/gaza-vive-opressao-maior-que-a-do-gueto-de-varsovia-e-de-soweto/>. Acesso em: 30 mar. 2026.

4 Didi-Huberman, Georges. Cascas. Tradução de André Telles. São Paulo: Editora 34, 2017.

5 BRASIL. Projeto de Lei n. 472, de 2025. Institui a nível nacional a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=2855888&filename=PL%20472/2025>. Acesso em: 30 mar. 2026.

6 BRASIL. Projeto de Lei n. 1.424, de 2026. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=3105410&filename=PL%201424/2026>. Acesso em: 30 mar. 2026.

7 Gordon, N. Antisemitism and Zionism: The Internal Operations of the IHRA Definition. Middle East Critique, v. 33,n. 3,, p. 345-360, 2024.

8 Altman, Breno. A verdadeira prova de antissemitismo. Folha de S.Paulo, 2026. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/03/a-verdadeira-prova-de-antissemitismo.shtml>. Acesso em: 30 mar. 2026.

9 Huberman, Bruno. Why the Brazilian Jewish Left Is Not Anti-Zionist. Historical Materialism, Leiden: Brill, v. 32, n. 1, p. 58-86, 2024.

10 Chomsky, Noam. The fateful triangle: the United States, Israel, and the Palestinians. Boston: South End Press, 1983.

11 Mearsheimer, John J.; Walt, Stephen M. The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2007.

12 Englert, Sai. The State, Zionism and the Nazi Genocide: Jewish Identity-Formation in the West between Assimilation and Rejection. Historical Materialism, v. 26, n. 2, p. 149-177, 2018.

13 Massad, Joseph. The persistence of the Palestinian question: Essays on Zionism and the Palestinians. Routledge, 2006.

14 Dreyfus foi um general judeu falsamente acusado de traição após a derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana (1970-1971). O seu caso revelou a força do antissemitismo na sociedade francesa apesar de décadas de assimilação dos judeus.

15 Clemesha, Arlene. Marxismo e judaísmo: história de uma relação difícil. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Boitempo, 2025.

16 Israel recusou o convite depois que foi confirmada a presença de palestinos como parte da delegação da Transjordânia.

17 Bakan, Abigail B.; Abu-Laban, Yasmeen. Antisemitism as anti-Jewish racism: reflections on an anti-racist analytic. Historical Materialism, v. 32, n. 1, p. 225-266, 2024.

18 Prime Minister Ben-Gurion to President Kennedy, 12 May 1963, with State Department memo attached, 14 May 1963, Secret. National Security Archive, George Washington University, Washington, DC, 2019. Disponível em: <https://nsarchive.gwu.edu/document/18724-national-security-archive-doc-25-prime-minister>. Acesso em: 30 mar. 2026.

19 Huberman, Bruno. Why the Brazilian Jewish Left Is Not Anti-Zionist. Historical Materialism, Leiden: Brill, v. 32, n. 1, p. 58-86, 2024.

20 O faraó egípcio que teria escravizado os israelitas no século xiii a.C.

21 Okoth, Kevin Ochieng. África vermelha: resgatando a política negra revolucionária. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2025.

22 Termo em ídiche que significa “audácia”, usado para explicar a suposta capacidade inovadora particular dos israelenses.

23 Marx, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011.

24 Sessler, Tal. Leibowitz and Levinas: between Judaism and universalism. Boston: Academic Studies Press, 2022.

25 Coabitação é um conceito de Arendt empregado por Butler que defende a convivência civil, plural e democrática entre grupos diferentes. Embora esses grupos não tenham escolhido viver em uma mesma comunidade, diante dos desafios impostos pelo processo histórico, optam pela coabitação ao invés de perseguir projetos políticos exclusivistas baseados em identidades étnicas, como do nazismo e do sionismo.

26 Butler, Judith. Caminhos divergentes: judaicidade e crítica do sionismo. Tradução de Rogério Bettoni. São Paulo: Boitempo, 2017.

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