A 30ª Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo ocupou a Avenida Paulista, em 7 de junho, com uma mensagem voltada diretamente ao ano eleitoral e ao direito de seguir nas ruas. Em meio à queda de patrocínio, ataques nas redes e à aprovação em primeiro turno de um projeto que tenta restringir eventos LGBTQIA+ em espaços públicos, o ato adotou o tema “A rua convoca, a urna confirma” para defender voto, democracia e direitos.
Segundo levantamento do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da ONG More in Common, a Parada reuniu 36,8 mil pessoas no horário de pico da concentração, registrado às 14h37. A 30ª edição teve 14 trios elétricos e a presença de artistas como Pabllo Vittar, Urias, Gloria Groove, Pepita, Diego Martins, Jup do Bairro, Melody, MC Soffia, Isma, Katy da Voz e As Abusadas, MC Trans, Zumbicore e Thiago Pantaleão.
O ato também contou com a presença da ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, da secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, Symmy Larrat, da secretária nacional LGBT do Partido dos Trabalhadores, Janaína Oliveira, além de parlamentares e representantes de partidos de esquerda.
Três décadas de direitos na Avenida Paulista
O diretor da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), Matheus Emílio Pereira da Silva, destacou o papel histórico da Parada na construção de direitos da população LGBTQIA+. Segundo ele, temas que hoje são reconhecidos pelas instituições brasileiras passaram primeiro pela Avenida Paulista.
“Em 2005 tratamos sobre o direito à união estável e, uma década depois, isso foi reconhecido pelo STF [Supremo Tribunal Federal]. Já tratamos sobre a criminalização da LGBTfobia. Em 2006 trouxemos esse tema e, depois, o STF também veio a reconhecer isso, equiparando a questão ao crime de racismo. Falamos sobre direitos da população trans, direito à doação de sangue, direito à adoção. Todos esses foram temas que, antes de estarem nos tribunais, passaram por aqui. Isso mostra a importância da Parada de São Paulo nessas três décadas de lutas”, afirmou.
Apesar das conquistas, Silva defendeu que os direitos da população LGBTQIA+ sejam assegurados também pelo Legislativo. “A gente precisa de um compromisso do nosso Legislativo para assegurar esses direitos na letra da lei e não apenas com decisões judiciais como nós temos atualmente”, disse.

Governo defende políticas públicas e participação social
Durante a Parada, a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, destacou o lançamento da campanha “O Brasil é de Todas as Cores para Todas as Pessoas”. A iniciativa busca fortalecer a construção de uma sociedade mais inclusiva, diversa e livre de discriminação.
A ministra também parabenizou a APOLGBT-SP pelos 30 anos da manifestação e reafirmou o compromisso do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a diversidade.“É com luta política na rua e com política pública que a gente consegue garantir direitos das pessoas LGBTQIA+. S
omos um governo a favor da liberdade, não uma liberdade que nega a existência das pessoas, não uma liberdade que nega o direito de amar, o direito de existir, o direito de ser quem a gente é, mas uma liberdade que valoriza e reconhece a potência das pessoas LGBTQIA+”, afirmou.
A secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, Symmy Larrat, ressaltou a importância da presença do governo federal no ato. “A presença na marcha reafirma o compromisso desta gestão com a construção de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+.
Estar aqui é fundamental para ouvir as demandas da sociedade e compreender o que ainda precisa ser aprimorado. Afinal, não é possível construir políticas públicas efetivas sem escuta e diálogo. Por isso, é emocionante ver essa imensidão de pessoas reunidas”, disse.
A secretária nacional LGBT do PT, Janaína Oliveira, relembrou conquistas como a criação da secretaria LGBTQIA+ no governo federal e a transversalização do tema em diferentes ministérios, com espaços de diversidade e participação social em suas estruturas.
“Quando se tem um governo que fortalece a democracia, a população LGBTQIA+ volta a fazer parte do debate. Isso coloca essa população de volta ao centro da construção das políticas públicas. Este mês do orgulho, principalmente em sua forma de organização, tem muito a ver com a participação social, que é uma característica do PT”, afirmou.
Ataques ameaçam patrocínio e ocupação das ruas
A Parada deste ano foi precedida por ataques vindos de frentes diversas, em um ambiente marcado pelo avanço da extrema direita e pela falta de regulação das plataformas digitais. Em 16 e 17 de maio, quando se celebra o Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, a entidade de monitoramento de discursos de ódio nas redes Sleeping Giants Brasil denunciou a remoção de cinco perfis LGBTQIA+ do Instagram, que juntos somam mais de 1,7 milhão de seguidores.
Segundo a APOLGBT-SP, organizadora do evento, houve queda de cerca de 60% no patrocínio em relação a anos anteriores.
A diminuição do apoio financeiro ocorre em meio ao avanço de discursos conservadores e ao recuo de políticas corporativas de diversidade. A Associação Comercial de São Paulo estimou que a Parada movimentaria R$ 466,2 milhões na economia da capital neste ano, queda de 15% em relação ao ano anterior, quando foram injetados R$ 548,5 milhões na cidade.
Segundo a entidade, a redução de R$ 82,3 milhões está diretamente ligada à perda de patrocinadores.Outro ataque à comunidade LGBTQIA+ foi aprovado em 20 de maio, quando a Câmara Municipal de São Paulo votou, em primeiro turno, o Projeto de Lei nº 50/2025, de autoria do vereador Rubinho Nunes (União Brasil).
O texto proíbe a presença de crianças e adolescentes em eventos públicos ou privados que “façam alusão ou fomentem práticas LGBTQIA+”, mesmo acompanhados pelos pais ou responsáveis.
O projeto também prevê que eventos com temática LGBTQIA+ sejam realizados apenas em espaços fechados e com controle de entrada, proíbe a ocupação e interdição de vias públicas e estabelece classificação indicativa para maiores de 18 anos. Em caso de descumprimento, as multas podem chegar a R$ 1 milhão. Para virar lei, o texto ainda precisa ser aprovado em segundo turno.
Disque 100 reforça canal de denúncia na Parada
Uma grande bandeira do Disque Direitos Humanos, o Disque 100, também esteve presente durante a 30ª Parada LGBTQIA+ de São Paulo. Vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o canal recebe, registra, analisa e encaminha denúncias de violações de direitos humanos.
Entre as ocorrências atendidas estão casos de LGBTfobia, violência física, psicológica e sexual, discriminação e outras formas de violência contra a população LGBTQIA+. O serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, é gratuito e assegura sigilo e anonimato aos denunciantes.
Com informações da Agência Brasil e do Ministério dos Direitos Humanos