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Trump acima de tudo: após encontro com os Bolsonaro, EUA atacam o PIX e ameaçam tarifa contra o Brasil

Depois do encontro de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP) com Donald Trump na Casa Branca, em 26 de maio, os Estados Unidos voltaram a mirar o PIX, propuseram tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e ampliaram pressões sobre temas internos do país.

O sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, criado, regulado e operado pelo Banco Central, passou a ocupar o centro de uma ofensiva que combina pressão comercial, disputa eleitoral e interferência sobre decisões nacionais.

Usado por mais de 170 milhões de pessoas físicas, presente no cotidiano de trabalhadores, pequenos comerciantes, empresas, famílias e prestadores de serviço, o PIX deixou de ser apenas uma ferramenta de pagamento.

Virou a forma mais concreta de explicar soberania ao brasileiro comum: uma tecnologia pública nacional, gratuita para pessoas físicas, disponível 24 horas por dia e essencial para o funcionamento da economia.

O movimento veio em pacote. Washington ameaçou taxar produtos brasileiros, voltou a pressionar o PIX e passou a tratar facções criminosas brasileiras, como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), como organizações terroristas.

No Brasil, o governo Lula reagiu afirmando que o sistema de pagamentos não está em negociação. “O PIX é um patrimônio nacional. É uma conquista do povo brasileiro”, disse o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).

O PIX materializa a soberania em uma experiência cotidiana. É o pagamento do almoço, da passagem, do remédio, do serviço, da feira, do pequeno negócio, da transferência entre familiares. É tecnologia pública brasileira operando em escala nacional, com baixo custo, disponibilidade permanente e regras definidas pelo Banco Central.

Os números dimensionam o que está em jogo. O sistema já foi usado por mais de 170 milhões de pessoas físicas, cerca de 80% da população brasileira. Em janeiro de 2026, registrou mais de 7 bilhões de transações. Em outubro de 2025, movimentou mais de R$ 3 trilhões. O Banco Central também registrou recorde de 313,3 milhões de transações em um único dia, em 5 de dezembro de 2025.

O PIX foi lançado oficialmente em 16 de novembro de 2020, mas suas bases foram estruturadas pelo Banco Central antes disso, a partir de 2018, dentro de uma agenda de modernização do sistema financeiro. Por isso, a tentativa bolsonarista de reivindicar a paternidade política do sistema sempre esbarrou em um dado simples: o PIX é uma infraestrutura pública de Estado, não um produto de campanha, de governo ou de família.

A novidade agora é que nem a paternidade do PIX o clã bolsonarista tem se dado ao trabalho de disputar como antes. O foco passou a ser outro: transformar o sistema em moeda de pressão externa contra o próprio país.

O encontro com Trump e a ofensiva contra o Brasil

Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, esteve com Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca em 26 de maio. A reunião foi fechada à imprensa, mas o próprio senador disse depois, em Washington, que foram tratados temas como crime organizado, tarifas, terras raras e minerais críticos. Ele estava acompanhado do irmão Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do aliado Paulo Figueiredo.

Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos desde 2025. Em março daquele ano, pediu licença do mandato de deputado federal e passou a atuar em Washington em busca de apoio internacional ao grupo político da família. A licença parlamentar terminou em 20 de julho de 2025. Em 2026, a página da Câmara dos Deputados registra que Eduardo Bolsonaro “não está em exercício”.

O encontro ocorreu em meio ao esforço da família Bolsonaro para reposicionar Flávio como nome presidencial da direita e após o desgaste provocado pelo caso Banco Master.

Em maio, reportagens revelaram mensagens e áudios que ligavam o senador a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em tratativas para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Flávio confirmou ter procurado Vorcaro para tratar do projeto, mas negou irregularidades e disse que se tratava de uma iniciativa privada, sem contrapartida pública.

O caso ampliou a pressão sobre a pré-candidatura de Flávio. Daniel Vorcaro é investigado no escândalo do Banco Master, alvo de operação da Polícia Federal por suspeitas de fraude bilionária.

A revelação das conversas aproximou a crise financeira do banco da disputa presidencial e expôs uma contradição para o bolsonarismo: enquanto tenta se apresentar como alternativa ao governo Lula, seu principal nome presidencial passou a responder politicamente por uma negociação milionária com um banqueiro investigado.

A articulação não começou agora. Desde 2025, integrantes da família Bolsonaro e aliados próximos têm buscado transformar disputas internas brasileiras em pressão internacional. O PIX já havia entrado no radar de Washington dentro de investigações comerciais sobre serviços digitais e meios de pagamento. Agora, reaparece no mesmo ambiente em que os Estados Unidos ameaçam impor nova tarifa ao Brasil e pressionam o país em temas de segurança pública.

A própria fala de Eduardo Bolsonaro ajuda a revelar a lógica política da operação. Ao comentar as pressões norte-americanas, ele afirmou: “Nós fizemos um pedido aos americanos para que qualquer tipo de tarifa ou retaliação nesse sentido comercial, que ela demorasse, que ela esperasse pelo menos até a eleição desse ano. Porque, se o Flávio Bolsonaro for eleito, teremos outra diretriz do governo federal.”

Em tradução política, o recado é direto: adiem a punição ao Brasil até a eleição, porque um eventual governo bolsonarista mudaria a posição do país. A frase desloca a soberania brasileira para o calendário eleitoral da família Bolsonaro. Coloca tarifas, PIX e interesses nacionais no campo da barganha externa.

O que está em jogo para quem usa o PIX

A ofensiva contra o PIX não é um debate técnico distante da vida real. O sistema mudou a forma como o brasileiro paga e recebe. Reduziu o peso de tarifas bancárias, acelerou pagamentos, ampliou a concorrência no setor financeiro e permitiu que pequenos negócios recebessem sem depender exclusivamente de maquininhas, cartões, boletos ou intermediários privados.

É isso que incomoda. O PIX funciona como infraestrutura pública e aberta, com regras iguais para instituições nacionais e estrangeiras autorizadas a operar no país.

Na resposta oficial aos Estados Unidos, o governo brasileiro afirmou que o sistema não discrimina empresas estrangeiras, não cria barreiras indevidas e não impede a atuação de companhias norte-americanas no mercado brasileiro.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também saiu em defesa do sistema. Para a entidade, o PIX é infraestrutura de pagamento, não produto comercial. Favorece a competição, melhora o funcionamento do sistema de pagamentos e não cria barreiras para novos participantes, independentemente do porte ou do segmento de atuação.

Ao atingir o PIX, a pressão norte-americana alcança uma das experiências mais bem-sucedidas de tecnologia pública brasileira. O ataque não se dirige apenas a uma ferramenta. Mira uma política que tornou o sistema financeiro mais acessível, reduziu custos e deslocou parte do poder econômico concentrado em empresas privadas de pagamento.

A resposta do Brasil

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu em duas frentes: defesa do PIX e contestação das tarifas.

Em evento público em Goiás, Lula responsabilizou o clã Bolsonaro pela ofensiva norte-americana e afirmou que o governo não aceitará interferência sobre o sistema brasileiro de pagamentos. “O tal do bolsonarista foi nos Estados Unidos. Ele não estava focado e pediu para o Trump intervir no Pix brasileiro. Você acha que a gente vai deixar? Não vai deixar”, disse.

O presidente também destacou que a retaliação econômica não atinge apenas o governo. “Ele não sabe que ele não vai prejudicar o Lula. Ele vai prejudicar é o povo brasileiro. Ele vai prejudicar os empresários brasileiros. Ele vai prejudicar é o agronegócio”, afirmou.

Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), classificou a proposta de tarifa de 25% como injusta e descabida. Ao comentar a atuação da oposição junto aos Estados Unidos, afirmou que “falsos patriotas” colocam interesses pessoais e eleitorais acima do interesse público. “Sempre que o diálogo avança, infelizmente, falsos patriotas, sabotadores prejudicam, colocam os seus interesses pessoais e eleitorais acima do interesse do país e do interesse público”, disse.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reforçou a posição do governo. “O PIX, como esse símbolo maior da nossa soberania financeira, não está em nenhum momento em questão para debate”, afirmou. O ministro Márcio Elias Rosa também foi direto ao tratar do tema: não há hipótese de o PIX ficar na mesa de negociação com os Estados Unidos.

A posição oficial do governo brasileiro rebate a acusação de que o país adota práticas comerciais injustas. O Brasil argumenta que o sistema de pagamentos é regulado pelo Banco Central, opera sob regras públicas e não impede a participação de empresas estrangeiras.

Também aponta que os Estados Unidos acumulam superávit nas trocas comerciais com o Brasil e que parte expressiva dos produtos norte-americanos entra no país sem imposto de importação.

Tarifa, PIX e crime organizado no mesmo pacote

A pressão norte-americana não veio isolada. Em poucos dias, os Estados Unidos classificaram CV e PCC como organizações terroristas, voltaram a atacar o PIX e propuseram tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. São temas diferentes, mas tratados por Washington como instrumentos de pressão sobre o Brasil.

No comércio, a medida ameaça setores produtivos e exportadores. Segundo o governo brasileiro, a proposta de tarifa atinge diretamente parte relevante das vendas brasileiras ao mercado norte-americano, com impacto potencial sobre indústria, agronegócio, emprego e renda.

Na segurança pública, a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas abre uma discussão sensível sobre cooperação internacional e limites da interferência externa em decisões internas do país.

O Brasil já coopera com outros países no enfrentamento ao tráfico de drogas, ao tráfico de armas, à lavagem de dinheiro e ao crime organizado transnacional. O ponto contestado é outro: a tentativa de enquadrar problemas internos de segurança pública em uma lógica definida unilateralmente por Washington, com possíveis efeitos sobre a autonomia brasileira.

É nesse contexto que a defesa do PIX ganha sentido mais amplo. O sistema virou símbolo porque concentra, em uma ferramenta usada todos os dias, a disputa entre autonomia nacional e pressão externa. No caso dos Bolsonaro, a contradição é mais evidente: o grupo que se apresenta como patriota aparece associado à tentativa de usar a força política dos Estados Unidos para pressionar o Brasil.

Quem tem medo do PIX?

O incômodo com o PIX tem uma razão objetiva. O sistema mostrou que uma infraestrutura pública pode ser mais eficiente, barata e acessível do que soluções privadas dominadas por grandes empresas. Para milhões de brasileiros, reduziu custos e simplificou transações. Para pequenos negócios, abriu uma alternativa de recebimento imediato. Para o sistema financeiro, ampliou a competição.

A expansão do PIX também atravessou fronteiras, ainda que não exista, por enquanto, um “PIX internacional” nos moldes de uma transferência direta entre contas de diferentes países. O que há são soluções oferecidas por instituições privadas que permitem a brasileiros pagar em reais em estabelecimentos no exterior, enquanto o comerciante recebe na moeda local. Esse tipo de operação já aparece em locais frequentados por brasileiros, como Portugal, França, Estados Unidos, Argentina e Chile.

O dado reforça a importância da tecnologia brasileira. O PIX deixou de ser apenas uma inovação doméstica. Tornou-se referência internacional em pagamentos instantâneos e passou a integrar uma disputa global sobre quem controla as infraestruturas financeiras do futuro.

A disputa em torno do PIX ajuda a revelar o conteúdo real da palavra soberania. Não se trata de um discurso abstrato. Trata-se de decidir se uma tecnologia pública brasileira, criada para servir à população e ao funcionamento da economia, pode ser colocada sob pressão de outro país por conveniência eleitoral de uma família política.

O governo brasileiro afirma que não. O PIX não está na mesa de negociação. É infraestrutura pública, conquista popular e instrumento de autonomia financeira. E quem defende o contrário, aparentemente, joga contra o Brasil.