
O chamado Bloco Operário-Camponês foi uma importante experiência de luta e serviu para acumular forças na história da classe trabalhadora brasileira, que vivia um momento de ascensão organizativo, sobretudo com o apoio e orientação da Internacional Comunista. Esse é o 11º capítulo de nossa série “A História oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro” exclusiva aqui no nosso jornal A Verdade.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
HISTÓRIA ( Parte 11) – O Partido Comunista criou o Bloco Operário – depois transformado em Bloco Operário e Camponês – para disputar as eleições com candidatos próprios, aproveitar o espaço político visando principalmente a difusão da plataforma dos comunistas e ampliar o prestígio e crescer a organização junto às massas populares no embalo da campanha e buscando conquistar tribunas parlamentares à serviço da classe operária em suas lutas e denúncias.
Com apenas cinco anos de fundado o PC avançava na política e vencia as tendências anarquistas, sabotadoras da participação do operariado nas disputas eleitorais partidárias. Os comunistas rompiam a bolha e ampliavam sua influência junto as massas populares nas disputas pelo voto, sem arrefecer o ânimo de estar na vanguarda de todos os movimentos sociais e lutas específicas dos trabalhadores nos sindicatos e greves e na organização da juventude e das mulheres da classe obreira.
Os movimentos anarquistas ou sindicalistas economicistas dos primórdios da classe operária esbarravam nos limites das doutrinas ácratas ou corporativas. Sem a visão mais ampliada e científica da luta de classes do proletariado contra o capitalismo foram superados pela concepção científica Marxista-Leninista da história da luta de classes, pela ciência da revolução proletária – fusão de teoria e prática – capaz de conduzir a luta dos trabalhadores à vitória contra a burguesia e o seu Estado.
Os anarquistas negavam a necessidade do partido dirigente da classe operária e sempre combateram os partidos comunistas em todo mundo. Inclusive onde os partidos comunistas dirigiram e realizaram a revolução, tornando-se contrarrevolucionários, servindo objetivamente as forças reacionárias da burguesia com suas críticas retóricas “esquerdistas”. Condenavam a ideia da organização superior da classe, do Estado Maior Operário.
Numa falsa concepção de prevalência da liberdade individualista sobre o coletivo, não aceitavam o centralismo da democracia proletária da maioria. Como se fosse possível vencer e manter as conquistas de uma guerra sem um Comando Superior, um Estado Maior. Por todas essas limitações e deformações, no que tenha de idealmente generoso e heroico nas lutas de anarquistas no Brasil e alhures, é necessário demonstrar as suas debilidades e combater essa concepção ideológica pequeno-burguesa.
As ações diretas, imediatistas, sem a correta compreensão dessas ações táticas com objetivos estratégicos são saltos para o nada. Lenin lecionava com a autoridade de quem liderou e realizou na prática a Revolução Russa, que sem ‘teoria revolucionária não possível se fazer a revolução’, levar o proletariado ao céu através da Torre de Babel anarquista é impossível, cada construtor falando seu idioma e sem entender a superioridade do idioma comum traduzido pelo partido comunista e sua ciência.
Preconizar a imediata extinção do Estado, mas se abster “moralmente” de travar a luta política ideológica do poder do Estado. Essa inconsequência anarquista poderia ser tratada como poesia de líricos e românticos, se na prática não servisse a contrarrevolução, como serviram combatendo o PCUS e Estado Soviético antes e depois da gloriosa revolução operária-camponesa socialista da Rússia em 1917.
Marx e Engels os enfrentou e criticou na teoria e na prática desde a organização da 1ª Internacional. Lenin e Stálin, continuadores da obra Marxista, enfrentaram os “esquerdistas” anárquicos e trotskistas. Sob diferentes máscaras essas concepções anticomunistas e antirrevolucionárias proletárias, historicamente, serviram e ainda servem mais ao banquete da burguesia capitalista do que à causa do proletariado que afirmam defender.
O terceiro Congresso do PC
A “Sessão brasileira da Internacional – PCB” representava a vanguarda do proletariado na luta contra a burguesia. Mas, internamente, enfrentava facções de tendências anarco-sindicalistas, a mazela do ‘criticismo esquerdista’, pensamento pequeno-burguês criticado por Lenin na obra “Esquerdismo, doença infantil do comunismo” contra o anarquista Kropotkin.
A eles se juntaram os oportunistas “trotskistas” na Rússia e mundo afora, respingando no Brasil. Dos seguidores de Leon Trotsky, o ressentido fracionista, derrotado no XII Congresso do PCUS, que promoveu essa dissidência que traz a marca do seu nome, no movimento comunista. Após ser derrotado por Stálin na votação dos delegados do congresso, o ex-menchevique que aderiu ao bolchevismo no curso da revolução, passou a criticar o Congresso, o Partido e o Estado Soviético.
Sob pretexto de condenação da “burocracia e tirania stalinista”, abandona o Partido, exila-se e passa a sabotar a construção do socialismo na URSS servindo na prática à propaganda antirrevolucionária e anticomunista. Para os Marxista-Leninistas, a prática é o critério da verdade. A maioria dos delegados do Congresso não votou no intelectual de origens mencheviques e que fez oposição a Lenin, nas teses da aliança operária-camponesa, da revolução socialista e do socialismo na Rússia – defendia a tese da “revolução permanente”.
Os delegados escolheram Josef Stálin, bolchevique histórico, fiel camarada e continuador da obra teórica e prática de Lenin. O exilado e renegado Trótski, no exterior, municiava o discurso da reação burguesa internacional contra à Rússia soviética revolucionária. Stálin à frente do partido e do Estado dedicou-se à edificação do país destroçado pela guerra imperialista e ameaçado pela guerra civil, à frente do Partido Bolchevique enfrentou e derrotou os inimigos externos e internos da revolução.
Em poucas décadas demonstrou a superioridade material e moral do socialismo, retirando a Rússia atrasada do arado de madeira e edificando uma potência industrial vigorosa com conquistas espaciais, inclusive. Mas os trotskistas brasileiros batiam na mesma tecla de acusações dos “métodos burocráticos de direção”, de “falta de democracia” e acusavam uma suposta “submissão do PCB à “Internacional stalinista”.
Nesse clima turbulento de acusações, realizou-se o III Congresso do PCB, entre 29 de novembro de 1928 e 4 de janeiro de 2029. Foram 36 dias de debates para vencer a pauta extensa de 16 pontos. A Comissão Sindical, liderada por Joaquim Pimenta, criticava o Comitê Central de “correia de transmissão”, usar “métodos de instrumentalização dos sindicatos”. Condenava interferência do partido nas organizações operárias e sindicatos.
Na prática, Pimenta não compreendia o papel dirigente do Partido. Achava que defendia sindicatos revolucionários, mas queria que essas organizações não tivessem influência do partido comunista e revolucionário. Uma receita da cozinha anarquista como se fosse fazer omeletes sem os ovos, esbarrando na mesma pretensão antipartidária dos ácratas e economicistas.
Os trotskistas se juntam aos “pimentistas” na “Oposição de Esquerda”. Conjunção com o oportunismo. Defender que sindicatos criados e conquistados pela luta da classe operária fiquem sem a direção ideológica dos comunistas é uma capitulação e uma traição. Marx ensina que as classes dominantes que dominam os meios econômicos, domina os meios produtores da ideologia.
A liberdade de que falavam os críticos “esquerdistas” de viés anarquistas e trotskistas, esquerdismo retórico, contrabando ideológico que confunde a classe operária e ao cabo serve mais aos interesses da burguesia. Atitude antipartidária e anticomunista mascarada com retórica esquerdista e “permanentemente revolucionária”. O Congresso selou o rompimento dessas facções. Os trotskistas foram expulsos.
31 delegados participaram representando Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, DF e Rio Grande do Sul (Minas e Bahia não mandaram). Sobre a luta interna, Astrojildo Pereira, Secretário Geral do PCB e membro da Executiva da IC, afirmou: “O III Congresso […] se empenhava em muitas incompreensões a respeito dos fatores que entravam e se entrosavam […] sobre o papel que a classe operária devia representar no movimento revolucionário em marcha”.
Em janeiro de 1920 realiza-se o I Congresso da Juventude Comunista Brasileira –JC. Da consolidação da juventude que saltava de 120 para 300 membros organizados. 15 delegados representantes da juventude de Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro – DF, Campos, Niterói, Vitória/ES, Rio Grande do Norte e Ceará. Dos participantes, 85% eram operários da indústria.
Entre as resoluções do Congresso da JC, decidem com unidade ideológica: Adotar a linha política da Internacional Comunista de “classe contra classe”; organizar células e “Centros Jovens Proletários”; priorizar o trabalho juvenil no meio sindical, cultural e estudantil. A “banda de música da revolução” como se referia Lenin aos jovens comunistas, tocou unida, e ampliou o seu trabalho organizativo da juventude obreira, em todo Brasil.
O ‘racha’ trotskista do III Congresso
Falar em “dissidência trotskista” é redundância ou pleonasmo, como vício de linguagem tipo “sair para fora”. Fracionar e dissidir é a essência desta tradição ideológica pequeno-burguesa, contrarrevolucionária e hostil ao Marxismo-Leninismo. De fraseologia esquerdista, tem origem remota no menchevismo personalizado pelo ideólogo Leon Trotsky.
Embora muitos se proclamem “leninistas”, na prática, rejeitam o Leninismo. Os grupos trotskistas aqui e em toda parte atacavam o poder soviético, a 3ª IC, articularam a dissidência na tal IV Internacional. Reunião de grupos que se dividem endogenamente quais as amebas, sem aderência na classe operária. Do esquerdismo retórico e oportunista da “revolução permanente” que jamais logrou derrubar os capitalistas em qualquer rincão do mundo.
Do Cavalo de Troia aparentemente revolucionário e essência separatista e contrarrevolucionária, fracionista e liquidacionista. Nas fileiras do PCB foram expurgados no III Congresso. A chamada “Oposição de Esquerda” e “Bolcheviques-leninistas”, paradoxalmente, criticava a “bolchevização” e a influência da burocracia da 3ª Internacional “Stalinista” no PCB. Eis que temos “leninistas” contrários ao Partido e a IC por ele fundados.
Os dirigentes mais conhecidos dessa fração dissidente foram João Pimenta, Joaquim Barbosa e Rodolfo Coutinho. Juntam-se à hostilização do Partido trotskistas Mário Pedrosa e Lívio Xavier saídos do PCB da “Oposição de Esquerda” – OE. Esses “dissidentes de esquerda”, porém, logo se dividem. Surge o “Grupo Comunista Lenine”. Meses depois, surge um “novo” grupamento – “Liga Comunista Internacionalista”.
Esses “rachas” banalizados nas disputas teóricas dessa tradição trotskista entraram para o anedotário. No dizer do outro, “Onde há três trotskistas, há três partidos. Quatro formam uma Internacional”.
No Brasil e no mundo a fragmentação dos grupos trotskistas cingidos à pequena-burguesia intelectualizada mostra-se incapaz de construir algo sólido. Incapaz de superar as veleidades personalistas e romper com o individualismo, no vício que Stálin denomina de “orgulho comunista”. Do personalismo vaidoso prevalecer sobre as decisões do coletivo partidário.
Não é casual que nos países capitalistas as “obras de Leon Trotsky” sejam mais conhecidas nos meios acadêmicos e culturais que as obras de Lenin e Stálin. Na prática é inofensiva as “profecias” dos arautos da “IV Internacional” e seu radicalismo retórico de “revolução permanente”, de marxismo de cátedra. Espada de papel tanto quanto a dos “atualizadores do marxismo” da tal “nova esquerda” o disfarce mascarado da socialdemocracia da “democracia de valor universal” e outras bazófias.
Das cortinas de fumaças coloridas, diversionistas, que arrefecem a luta de classes, a necessidade da revolução proletária, reduzem o papel do partido dirigente do autêntico Marxismo-Leninismo, a teoria revolucionária absolutamente atualizada no capitalismo em sua fase imperialista. Dimitrov refere-se à socialdemocracia como antessala do fascismo. E a história humana tem comprovado esse movimento. A rendição e conciliação de classes à burguesia e seu Estado opressor, abandono da luta revolucionária do proletariado no deslumbre de tapetes vermelhos de palácios e parlamentos.
Muitas tarefas
A agenda de atividades foi movimentada em 1929: Congressos Nacional e da Juventude, direção da greve dos gráficos de São Paulo de 72 dias, Congresso Sindical Nacional no Rio de Janeiro e criação da CGTB – Confederação Geral dos Trabalhadores. Participação do Congresso Internacional de Trabalhadores, em Montevidéu com Mario Grazini pela CGTB. Copartícipe da fundação da Confederação Sindical Latino-Americana. Participação na I Conferência Latino-Americana dos Partidos Comunistas, em Buenos Aires.
Em Moscou, Astrojildo Pereira, Secretário Geral do PC brasileiro, realiza tarefas do Secretariado da Executiva da IC. Participação ativa e direção de greves pelo país, sobretudo, Rio e São Paulo. Criação do BOC – Bloco Operário e Camponês e participação da disputa eleitoral. Com o operário marmoreiro, Minervino de Oliveira, pela primeira vez na história do Brasil um negro disputa a Presidência da República.
Essa intensa atividade enfrentou a ira de classe dos capitalistas poderosos. Tratavam as greves como “caso de polícia” e a repressão policial invadiu sedes de entidades de trabalhadores – CTGB, Centro de Jovens Proletários e o Comitê de Mulheres Trabalhadoras no Rio de Janeiro. Sequestraram os arquivos e prenderam 69 trabalhadores pelo “crime ideológico” de lutar por melhores condições de trabalho e vida.
A máscara da legalidade e da “democracia” burguesa caía por terra mais uma vez. Confiscam todo material de campanha eleitoral do BOC, da ameaça comunista da foice e martelo conclamando: “Proletários do mundo uní-vos! Votar no Bloco Operário e Camponez é votar na Revolução!”; “Bloco Operário e Camponez – Concentrae os votos sobre os candidatos proletários – Otávio Brandão e Minervino Oliveira – Organizai-vos nos sydicatos!”
Apesar de toda repressão, os dois candidatos do BOC foram eleitos vereadores. A classe trabalhadora brasileira, cada vez mais organizada, ganhava força, somava experiência e pegava gosto pelas vitórias.
