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Coletivo Marmitas da Terra/Mãos Solidárias e Comunidade 29 de Janeiro lançam livro sobre moradia digna

Foto: Larissa Urquiza

Por Jan Schoenfelder, do Coletivo Marmitas da Terra/Mãos Solidárias PR*
Da Página do MST

Produzido pelo coletivo Marmitas da Terra/Mãos Solidárias junto dos moradores da Comunidade 29 de Janeiro, o livro “Sementes de um Novo Amanhã”  (Editora Expressão Popular, 2026) revela o cotidiano da ocupação 29 de Janeiro, localizada no bairro Uberaba, na divisa entre uma linha do trem e a Avenida Comendador Franco, a meio caminho entre o centro e o aeroporto de Curitiba. 

São histórias verídicas, recolhidas de e recontadas por, na sua maioria, crianças e adolescentes. Um roteiro de como coexistir e sobreviver diante da desigualdade que empurra populações economicamente devastadas para a periferia, nega direitos, limita o espaço e tenta desumanizar sua existência. 

A ocupação do terreno ermo aconteceu no início do período da Covid-19. Foi o último recurso de pessoas que, ao perder seus empregos e ficando sem lastro para bancar o aluguel, montaram acampamento para se proteger, a princípio com telhado de plástico e piso de papelão, improvisos que com o tempo foram sendo substituídos por paredes firmes e tetos de verdade.

Frágeis as casas, frágeis as ruas abertas na base da enxada, as paredes de lona, o solo instável  e encharcado. Fortes, porém, a organização e as relações, cimentadas no terreno duro da resistência. 

Um lugar pra chamar de seu

O livro narra a chegada de uma jovem chamada Lia, que visita pela primeira vez o assentamento urbano. Ela percorre as ruas, com o olhar de quem vê de fora, puro, desarmado, preparado para aprender e não para julgar. Poder-se-ia dizer que o olhar é revestido de inocência, atendendo ao significado ancestral do nome, Lia, “aquela que tem os olhos doces”. Uma personagem fictícia num território de luta.

Tão logo chega, é surpreendida pelo terreno maltratado, que sacode o carro assim como a vida sacode as pessoas. Entra na ocupação, desconcertada pela fisionomia do terreno, e se surpreende com o inesperado. “Não parece terra de morar”, pensa, pisando com cuidado, como que se certificando de que o solo não vai ceder e a derrubar.

“Não é qualquer terra que sobra pra gente”, diz alguém que, com sua resposta direta e firme, desafia a exclusão forçada, dando a entender a verdade coletiva: o que sobra é preparar com as próprias mãos o terreno onde ocupar o espaço de direito de cada um. 

É claro que a ocupação é um local catalisador de vulnerabilidades, em que a insegurança psicológica gerada pelo medo de perder o abrigo está presente no dia a dia. Mas ao mesmo tempo é o local das ações de grupo, onde ninguém larga a mão de ninguém.

Foto: Larissa Urquiza

Depois de cinco anos, a comunidade continua sem os serviços básicos de luz, água e saneamento. Mesmo com a incerteza por morar em uma área não legalizada, existe uma sensação incipiente de pertencimento, de inclusão. 

Esse é um dos papéis do livro. Na primeira noite, Lia não consegue conciliar o sono, pensando que para dormir sem medo e estar confortável é preciso ter o direito da existência restituído. Quando sua história é contada, tudo passa a existir de verdade e o sentido das coisas muda.

Cada pequena reflexão transpira a ética do movimento social constituído pela 29 e o amor pelo lugar que é o seu território. Como por exemplo a horta de orgânicos, um verdadeiro espelho da comunidade.

Iniciada com projeto apoiado pelo coletivo Marmitas da Terra/Mãos Solidárias, a horta surgiu onde antes havia apenas plástico, entulho e cacos de vidro. Foi cansativo, com sol extenuante e a impressão de que nunca ficaria pronta. E do mesmo modo foi o lugar de jogar as sementes, assim como o terreno das casas foi o lugar de esperança. E onde se planta isso, dessa forma, tudo cresce sem veneno e em benefício mútuo.

Força da coletividade

Foto: Larissa Urquiza

O nome 29 de Janeiro demarca o dia em que em assembleia os moradores decidiram ficar: “gente que não desistia”. A comunidade deixou o anonimato e a invisibilidade a que são submetidas populações excluídas e agora se projeta na forma de livro para que sua história seja conhecida e estudada. E jamais negligenciada. 

Sementes de um Novo Amanhã é como um mapa da luta, quando se chega a um ponto em que, ou se corre, ou se fica para enfrentar. Um relato de quem afirma para si mesmo e para os outros que o pertencimento é um direito. Que ter um espaço próprio para tocar a vida é consolidar esse direito. E que, mesmo nas condições mais difíceis e sem CEP, é na organização coletiva que se forjam as transformações.

Livro

Foto: Larissa Urquiza

Sementes de um Novo Amanhã (Expressão Popular, 2026)
Preço: R$ 35,00
Para adquirir o livro você pode entrar em contato através do Instagram do coletivo Marmitas da Terra: @marmitas_daterra

* Jan Schoenfelder é chef e jornalista, compõe o Coletivo Marmitas da Terra/Mãos Solidárias PR

**Editado por Fernanda Alcântara

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