
Em um encontro marcado pela tensão geopolítica e pela solidariedade de classe, o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, reuniu-se nesta quarta-feira (10) com militantes da União da Juventude Socialista (UJS) e dirigentes do PCdoB em encontro virtual. O debate extrapolou as fronteiras bolivianas e se transformou numa reflexão sobre os desafios da esquerda latino-americana diante do avanço da extrema direita e das pressões geopolíticas dos Estados Unidos na região
Um dos pontos centrais da intervenção de Evo Morales foi a defesa da ideia de que a crise boliviana não pode ser analisada como um fenômeno isolado. Segundo ele, o que ocorre no país andino integra uma ofensiva mais ampla contra governos e movimentos populares em toda a América Latina.
Mais do que um relato sobre a crise interna boliviana, a fala de Morales funcionou como um alerta estratégico sobre a reconfiguração da doutrina de segurança dos Estados Unidos para a América Latina: a substituição da luta anticomunista pela “guerra ao narcoterrorismo” como pretexto para o controle dos recursos naturais da região.
A raiz indígena e a memória da soberania
Morales dedicou parte significativa de sua fala a recuperar a longa trajetória de resistência indígena na Bolívia, traçando um paralelo entre o cerco colonial e o atual cerco imperialista. Ao recordar lideranças históricas como Túpac Katari e Bartolina Sisa, ele procurou situar o movimento popular boliviano como herdeiro de séculos de luta contra a dominação colonial e a exclusão social.
Segundo Morales, a ascensão dos movimentos indígenas ao governo permitiu combinar organização sindical, participação política e defesa da soberania econômica. O ex-líder cocalero resgatou a memória de seu governo como um período de exceção na história boliviana, onde a dignidade indígena se traduziu em soberania econômica.
Ele relembrou medidas adotadas durante seus governos, como a nacionalização de recursos estratégicos e o fechamento de bases militares norte-americanas em território boliviano. A narrativa apresentada aos jovens procurou demonstrar que transformações estruturais exigem não apenas mobilização social, mas também a conquista do poder político.
“Nacionalizamos os hidrocarbonetos. Dissemos: se querem ser sócios, sejam sócios, mas não patrões”, recordou, ao destacar a inversão da lógica de exploração que elevou o PIB boliviano de US$ 9 bilhões em 2005 para mais de US$ 42 bilhões em 2019. Para Evo, o atual colapso econômico, marcado pela falta de combustível e insumos, não é um acidente, mas o resultado deliberado do retorno do neoliberalismo e da entrega do lítio e das terras raras aos interesses estrangeiros.
Críticas ao “novo Plano Condor”
Entre os momentos mais contundentes do debate esteve a análise de Morales sobre as formas contemporâneas de perseguição política na América Latina.
O ex-presidente sustentou que o antigo Plano Condor das ditaduras militares teria sido substituído por mecanismos institucionais de perseguição judicial e eleitoral. Segundo ele, juízes, procuradores e tribunais passaram a desempenhar papel semelhante ao que antes era exercido por aparatos repressivos das ditaduras do continente.
Morales também voltou a denunciar os processos judiciais movidos contra si após o golpe de 2019, classificando-os como tentativas de impedir sua participação política e de enfraquecer o movimento popular boliviano.
O lítio, o “Escudo” e a inversão da narrativa
O ponto alto da análise de Morales foi a desconstrução da narrativa de “narcoterrorismo” utilizada por Washington e endossada pelo governo de Rodrigo Paz. Evo inverteu a acusação: “Aqui não há narcoterrorismo. Aqui há narcoterrorismo de Estado”. Ele citou casos de corrupção envolvendo a elite atual, como o transporte de toneladas de cocaína em madeira e marijuana em aviões da Força Aérea Boliviana, para demonstrar que o rótulo de “terrorista” é uma ferramenta de guerra híbrida para criminalizar a protesto social e justificar a intervenção.
Morales denunciou a existência do “Escudo das Américas”, uma nova aliança político-militar que, sob a fachada de combate ao crime organizado, visa impedir a integração regional e proteger os monopólios sobre o lítio. “Já não é luta ao comunismo, senão ao narcoterrorismo. Nós não somos comunistas, já somos narcoterroristas para eles”, ironizou, ao explicar que a Doutrina Monroe segue viva, agora executada não apenas por generais, mas por juízes, fiscais e operações de inteligência financeira.
A trincheira da juventude e o internacionalismo
A resposta da juventude brasileira foi de alinhamento total à luta boliviana. Ana Prestes, secretária de Relações Internacionais do PCdoB, e Rafaela Elisário, da direção da UJS, reforçaram que a batalha na Bolívia é uma trincheira da mesma guerra enfrentada no Brasil contra a extrema-direita.
Morales ouviu manifestações de solidariedade à situação política boliviana e às mobilizações populares contra o governo de Rodrigo Paz. Os organizadores destacaram a trajetória do líder indígena como símbolo da luta dos povos originários, da soberania nacional e da integração regional.
Morales, por sua vez, enfatizou a necessidade de formação política, organização popular e unidade das forças progressistas para enfrentar o avanço do neoliberalismo e das correntes conservadoras na região. Para ele, a principal tarefa das novas gerações é transformar a indignação social em organização coletiva capaz de construir projetos nacionais soberanos.
Para a UJS, o encontro teve também um caráter formativo. Em sua saudação, a direção da entidade ressaltou que a juventude latino-americana tem a responsabilidade de enfrentar as desigualdades, defender a paz e fortalecer a solidariedade entre os povos da região.
“O que ocorre na Bolívia é parte de uma mesma ofensiva que o Império ianque leva adiante em toda a América Latina”, afirmou a representante da UJS, reafirmando que a soberania nacional brasileira está intrinsecamente ligada à defesa dos recursos bolivianos. O encontro encerrou-se com o compromisso de que a “Pátria Grande” não é apenas um slogan, mas uma necessidade material de sobrevivência diante da cobiça das potências globais sobre as reservas estratégicas do continente.
Em um momento de reconfiguração das disputas internacionais e de avanço das forças conservadoras em diversos países, o encontro serviu para reafirmar uma ideia que atravessa a história dos movimentos populares da região: a de que a soberania nacional e a integração latino-americana permanecem como objetivos inseparáveis de um mesmo projeto político.
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