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Anielle Franco cobra ação da Fifa contra racismo e xenofobia na Copa do Mundo

A ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco afirmou que a Copa do Mundo já está sendo marcada por episódios de racismo e xenofobia e cobrou uma postura mais firme da Fifa diante das denúncias registradas nos primeiros dias da competição. Em entrevista ao Jornal TVT News Primeira Edição, ela classificou como “inadmissíveis” os casos envolvendo membros de delegações submetidos a revistas rigorosas nos Estados Unidos e a negativa de entrada no país ao árbitro somali Omar Abdul Kadir. Saiba mais na TVT News.

Segundo Anielle, os acontecimentos contradizem o espírito de integração historicamente associado ao esporte e evidenciam problemas estruturais que continuam presentes em grandes eventos internacionais.

“Todo mundo espera tanto tempo por eventos esportivos como esse”, afirmou. “O esporte tem esse poder de união. E chegar numa Copa do Mundo e ser recepcionado da maneira que foi, não tem outra palavra. Para além de intolerância, para além de racismo, para além de xenofobia. Estou sendo até educada por falar que é triste, porque na verdade é inadmissível também.”

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A ex-ministra destacou o impacto que situações desse tipo provocam sobre atletas, árbitros e integrantes das delegações, especialmente após anos de preparação para uma competição de alcance mundial.

“Como que aqueles jogadores que chegaram e foram tratados dessa forma também não se sentiram? Às vésperas de talvez o jogo mais importante de suas vidas”, questionou.

Caso Vini Jr. impulsionou mudanças

Durante a entrevista, Anielle relembrou a atuação do Ministério da Igualdade Racial em casos de discriminação no esporte, especialmente após os ataques racistas sofridos pelo atacante brasileiro Vinícius Júnior na Espanha.

Ela afirmou que o governo brasileiro atuou em diferentes frentes para pressionar entidades esportivas e autoridades estrangeiras a adotarem medidas concretas.

“A gente teve uma atuação muito forte na época do Vini”, disse. “Pela primeira vez, a gente consegue não só acompanhar a Conmebol, sentar com eles para falar e pedir uma ação mais firme, mas ao mesmo tempo também o governo da Espanha. Eles mudam protocolos. Inclusive foi uma das primeiras prisões que aconteceram após o nosso pedido.”

Segundo Anielle, a mobilização envolveu não apenas o Ministério da Igualdade Racial, mas também o Itamaraty e outros órgãos do governo federal.

“Quando a gente agiu junto à Conmebol, junto à Fifa, quando a gente agiu junto ao governo espanhol, quando a gente acionou inclusive o Itamaraty na época, o Itamaraty estava conosco ouvindo, respaldando e viajando também junto conosco para que casos como aquele não voltassem a acontecer.”

Racismo também afeta categorias de base

A ex-ministra ressaltou que o combate ao racismo no esporte não se restringe aos grandes astros do futebol internacional. Segundo ela, durante sua gestão foram recebidas diversas denúncias envolvendo crianças e adolescentes em categorias de base de clubes brasileiros.

“A gente estava recebendo muita denúncia em esportes de base, em vários clubes brasileiros, de crianças que sofriam racismo”, relatou.

Como resposta, o ministério articulou iniciativas com a Confederação Brasileira de Futebol para criar mecanismos de acompanhamento e permanência dos jovens atletas.

“Quantos outros Vinícius Júniores não poderiam surgir e infelizmente, por conta de uma mãe ou um pai, outras pessoas que estavam ali xingando na arquibancada, desistiam?”, questionou.

Para Anielle, o racismo no futebol é apenas uma manifestação de desigualdades históricas presentes na sociedade.

Educação e políticas públicas

Ao comentar a repercussão internacional de casos de racismo registrados no Brasil, incluindo prisões de estrangeiros acusados de ofensas racistas durante eventos esportivos, Anielle afirmou que muitos países ainda não compreendem a gravidade com que a legislação brasileira trata esse tipo de crime.

“Culturalmente falando, as pessoas não entendem e acham que não tem racismo no Brasil”, afirmou.

Ela lembrou que a recriação do Ministério da Igualdade Racial pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou um marco institucional importante para o enfrentamento do problema.

“Nunca na vida anteriormente tivemos o Ministério da Igualdade Racial. Quando o presidente Lula retorna ao poder, ele recria esse ministério”, destacou.

A ex-ministra também mencionou uma das primeiras medidas adotadas pelo governo federal em 2023.

“O primeiro ato do presidente no dia da minha posse foi equiparar injúria racial a crime de racismo.”

Em um dos momentos mais emocionados da entrevista, Anielle defendeu a importância de políticas públicas voltadas à educação e à conscientização da população.

“Quando a gente fala do combate ao racismo, da importância de ter educação, da importância da gente letrar as pessoas, não é porque a gente sabe mais ou menos. É porque o racismo tem matado pessoas no nosso país.”

Ela acrescentou que os impactos da discriminação atingem diferentes áreas da vida social.

“As pessoas estão sem acesso à educação, cultura, lazer”, afirmou.

Cobrança à Fifa

Questionada sobre a postura do presidente da FIFA, Gianni Infantino, diante dos episódios registrados na Copa do Mundo, Anielle defendeu que autoridades esportivas sejam pressionadas publicamente a responder pelas denúncias.

“Eu acho que a gente tem que primeiro de tudo sempre devolver esse constrangimento”, declarou.

Ela afirmou que, independentemente de manifestações oficiais da entidade máxima do futebol, governos e organizações da sociedade civil devem continuar cobrando providências.

“Eu espero muito que o esporte prevaleça, que a gente consiga ainda ter momentos bonitos. Todo mundo está torcendo para a sua seleção, todo mundo torcendo para o seu país.”

Ao final da entrevista, Anielle reforçou que o combate ao racismo exige vigilância permanente e posicionamentos claros das instituições.

“Ele respondendo ou não, a posição do governo brasileiro era pautar isso, exigir uma resposta e exigir também comportamentos adequados.”

E concluiu com um recado direto: “A gente vai continuar apontando o dedo e dizendo que racismo é crime e precisa ser combatido.”

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