Notícias

Visão internacional: como China, Estados Unidos e África do Sul enxergam o Brasil?

Além do olhar brasileiro perante a situação internacional, as visões sobre o Brasil de países importantes para a geopolítica também foram abordadas na II Conferência Nacional de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil

Para trazer essas perspectivas, foram convidados pesquisadores da China, Estados Unidos e África do Sul. No painel “Visão Internacional sobre o Brasil”, Niu Haibin, Heather Hulburt e Sandy Africa apresentaram quais os principais assuntos das relações internacionais de seus países e as conexões com o Brasil do ponto de vista econômico e político. 

Diretor do Shanghai Institutes of International Studies, e vice-secretário-geral da Associação Chinesa de Estudos da América Latina, Niu Haibin trabalhou com a classificação de que coloca o Brasil como um país de poderio intermediário e citou como exemplo México, Canadá e Alemanha como países de mesmo nível na construção das relações com a China. 

Na opinião do professor chinês, o Brasil é considerado uma economia pungente que conta com um soft power poderoso e uma presença diplomática relevante no cenário internacional, que está em crescimento, porém ainda em processo de consolidação. 

Dentre os pontos considerados como fragilidades, foram mencionadas a falta de prontidão do exército brasileiro, além do não desenvolvimento de armas nucleares, mas, principalmente, a estrutura de exportação concentrada em produtos de baixo valor agregado. Nesse sentido, a China tem sua relação comercial oposta, com um nível de industrialização bastante avançado, o que destaca o país economicamente. 

Segundo o pesquisador, o país sempre foi e continua sendo visto como um “país do futuro”, mas as questões internas relacionadas às fragilidades na capacidade de infraestrutura atrapalham o desenvolvimento. Haibin comentou a pressão que os Estados Unidos colocam no Brasil, o pragmatismo brasileiro e o foco no tema do desenvolvimento. 

crédito: Vinícius Toledo / FPA

A apresentação contou com uma lista de principais temas de pesquisas acadêmicas relacionadas ao Brasil feitas na China como: reindustrialização na gestão Lula 3, segurança alimentar, transição energética e mudanças climáticas, a hegemonia do país na América do Sul, a diplomacia no interior dos BRICS e as respostas às pressões sofridas pelos Estados Unidos.   

Para o representante chinês, o desejo é que Brasil e China elevem, cada vez mais, a relação de parceiros comerciais complementares para parceiros estratégicos na missão de um desenvolvimento mais inclusivo. 

Na visão do setor progressista norte-americano, o Brasil se destaca na defesa dos Direitos Humanos, com legislações importantes, consideradas avançadas, como o Estatuto do Desarmamento. 

Heather Hurlburt, pesquisadora Associada da Chatham House dos Estados Unidos, afirmou que o país atravessa um cenário de polarização acirrada, assim como o Brasil, e que este contexto dificulta a tradução de uma visão única, tanto internamente no ambiente político quanto na sociedade. 

crédito: Vinícius Toledo / FPA

A pesquisadora trouxe como exemplo o fato de que a opinião pública em relação à política externa dos Estados Unidos perante à China, assunto popular entre os eleitores, é bastante volúvel e muda de direção a depender do presidente, o mesmo ocorre com outros temas como o tarifaço e a ajuda humanitária estadunidense para países africanos.  

Para Hurlburt, há múltiplas visões, mesmo dentro do governo Trump. Um grupo tem o olhar voltado à corrida econômica contra a China e entende que o Brasil pode ser um parceiro importante, em especial, do ponto de vista da exploração de minerais críticos, enquanto outro grupo, com ideais cristãos mais radicalizados, acredita que esse caminho não é válido, já que essa transação pode favorecer Lula na liderança.

Dentre as vertentes citadas pela professora, há o grupo “rebalancers” representado pelo segmento tradicional do capitalismo, das multinacionais e setor financeiro, que acredita na hegemonia do dólar como positiva, o grupo “America first”, com nacionalistas cristãos, pequeno empresariado e o “dark enlightenment”, capitaneado por CEOs das big techs que defendem um ideal antidemocrático, com implementação de regimes autoritários. 

Sobre o futuro incerto da potência econômica, as apostas são variadas: desde a implantação da Doutrina Donroe sem Donald Trump, o protagonismo norte-americano em um mundo verdadeiramente multipolar até a possibilidade de parcerias fortalecidas entre EUA e Brasil que podem recolocar o país no topo da hegemonia mundial. 

Sandy Africa, diretora de Pesquisa do Mapungubwe Institute for Strategic Reflection e pesquisadora Associada da Universidade de Pretoria, pontuou o contexto político da África do Sul, com uma democracia recente, de apenas 30 anos, e a situação econômica, com relações comerciais ainda limitadas.

crédito: Vinícius Toledo / FPA

Apesar de ser menor em população e menos desenvolvido economicamente, a professora pontuou que há similaridades nos processos históricos dos dois países, além de pontos em comum nas atuações perante a diplomacia internacional. E destacou que a África do Sul é um país influente na região. Ainda sobre a estruturação do continente, que possui 54 países, a pesquisadora explicou que a unidade é um desafio, pois, mesmo com atuação em bloco na ONU, as atuações nas negociações bilaterais são pensadas de maneira isolada. 

A pesquisadora africana comentou o desafio econômico a partir da necessidade da alta dependência da população aos país dos programas sociais e casos frequentes de corrupção. Como ponto alto da parceria entre os países, ela citou o período de resistência ao Apartheid, onde o Brasil teve papel fundamental com sanções e isolamento diplomático ao regime.