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“É preciso ter um código da estrada para a inteligência artificial”, defende António Costa no G7

Por Fernanda Otero, direto de Évian-les-Bains

Às vésperas da abertura oficial do G7 em Évian-les-Bains, na França, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apresentaram as prioridades da União Europeia para a cúpula. Em uma agenda atravessada por disputas econômicas, guerras, saúde pública e transformação tecnológica, os dois dirigentes defenderam o fortalecimento do multilateralismo e uma atuação coordenada para enfrentar problemas que ultrapassam fronteiras nacionais.

A coletiva, acompanhada pela Focus Brasil no local da cúpula, mostrou uma União Europeia empenhada em apresentar sua posição diante de um cenário internacional instável. Costa concentrou parte de sua fala na necessidade de rever as relações de cooperação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Von der Leyen, por sua vez, destacou os desequilíbrios econômicos globais, a dependência em setores estratégicos, a guerra na Ucrânia, o conflito no Oriente Médio, a epidemia de Ebola e os desafios regulatórios da inteligência artificial.

Multilateralismo e combate às desigualdades

António Costa dedicou parte significativa de sua fala à necessidade de reformular as relações de cooperação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Ele defendeu uma mudança de paradigma na governança internacional, pois “Europa, Brasil, Quênia e a economia do planeta dependem do multilateralismo”.

“A União Europeia está firmemente comprometida com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e com a erradicação da pobreza. Chegou a hora de superar e ir além da tradicional relação entre doador e beneficiário; é momento de avançar para parcerias mútuas e equilibradas, repensando a cooperação para o desenvolvimento e a arquitetura financeira internacional”, afirmou.

Para Costa, o Global Gateway, principal instrumento europeu de investimentos em infraestrutura e desenvolvimento, representa esse novo modelo de cooperação, baseado em benefícios compartilhados, e não em relações hierárquicas.

Ebola e resposta às crises globais

O presidente do Conselho Europeu também ressaltou a necessidade de respostas coordenadas para crises internacionais, destacando a epidemia de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda.

“O grupo G7 está mobilizando recursos humanos e de saúde para ajudar os países afetados pela doença, a fim de interromper sua propagação. Este é um problema global e a UE fortalecerá seu apoio, continuando a trabalhar de forma muito próxima com seus parceiros internacionais”, declarou.

A fala reforçou a avaliação europeia de que desafios sanitários globais exigem mecanismos multilaterais, cooperação internacional permanente e capacidade de resposta rápida.

China, desequilíbrios econômicos e minerais críticos

Na avaliação de Ursula von der Leyen, um dos temas centrais do encontro é o agravamento dos desequilíbrios econômicos globais. “Nosso principal objetivo aqui é, por um lado, enfrentar os desafios estruturais da economia global, especificamente os desequilíbrios globais e as sobrecapacidades, e, por outro, focar nas crises que afetam a todos nós: a guerra na Ucrânia, o conflito no Oriente Médio e a epidemia de Ebola”, disse a líder do bloco dos 27 Estados-membros.

“O ano de 2025 será lembrado como o ano em que, pela primeira vez, todos os Estados-membros tiveram um déficit comercial com a China. A União Europeia registrou seu maior déficit comercial da história, de 360 bilhões de euros. Isso não é sustentável”, afirmou.

Apesar do diagnóstico crítico, a dirigente rejeitou a ideia de rompimento econômico com Pequim. “Nossa estratégia na Europa é clara: reduzir riscos, não nos desconectar.”

Segundo von der Leyen, a resposta europeia passa pelo fortalecimento da produção doméstica, pela ampliação dos acordos comerciais e pela proteção dos mercados contra práticas consideradas desleais.

A presidente da Comissão Europeia também associou a questão dos minerais críticos ao debate sobre desigualdade econômica global. Ela defendeu um modelo que permita aos países produtores agregar valor às suas riquezas naturais.

“O nosso princípio com o Global Gateway e com os acordos de livre comércio é trabalhar em conjunto para que a extração de minerais críticos leve à criação de uma cadeia de valor local, criando empregos e desenvolvimento no próprio país.”

A declaração dialoga diretamente com países como o Brasil, que concentram reservas estratégicas de minerais utilizados na transição energética e nas novas tecnologias.

Inteligência artificial, inovação e regras

A inteligência artificial apareceu como outro eixo prioritário da agenda europeia. Von der Leyen defendeu mecanismos internacionais de cooperação para avaliação e monitoramento dos novos modelos de IA, comparando a necessidade de testes prévios à segurança na aviação.

A presidente também afirmou que a disputa global em torno da IA não será vencida apenas pelo desenvolvimento da tecnologia, mas por sua capacidade de aplicação econômica. “Os países do G7 precisam vencer a batalha da adoção. E isso significa aplicação, aplicação e mais aplicação.”

Além da produtividade técnica, von der Leyen deu especial atenção à segurança no ambiente digital, defendendo que a responsabilidade das empresas de tecnologia deve ser priorizada para proteger os usuários mais vulneráveis.

“O debate não é se os jovens devem ter acesso às redes sociais; o debate é se as redes sociais devem ter acesso aos nossos filhos e adolescentes, e quando. O argumento para atrasar o acesso por causa dos riscos está cada vez mais forte e as plataformas devem provar que são seguras por design”, enfatizou a presidente da Comissão Europeia.

Ao final da coletiva, respondendo a uma pergunta da Focus Brasil sobre a concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia e a necessidade de maior regulação internacional da inteligência artificial, António Costa destacou que a União Europeia já exerce papel de liderança nesse debate.

“A União Europeia foi o primeiro bloco econômico a ter uma regulação muito clara da inteligência artificial. E essa legislação europeia tem estado a ser adotada como padrão em vários países.”

Segundo ele, o desafio é equilibrar inovação e proteção social. “Aquilo que nós temos de fazer é prosseguir o diálogo com as grandes empresas tecnológicas, tendo em conta que temos de assegurar a proteção das nossas democracias, a proteção dos direitos dos trabalhadores e da nossa vida em sociedade, mas ao mesmo tempo criar espaço para a inovação.”

Costa encerrou a resposta com uma comparação entre inteligência artificial e outras tecnologias que transformaram a sociedade. “O automóvel é a forma ótima de nos deslocarmos. Mas sem código da estrada seria um desastre. Portanto, é isso que temos de ter: um código da estrada para a inteligência artificial.”

Com temas como multilateralismo, desigualdade econômica, saúde global, transição tecnológica e regulação digital, os líderes europeus chegaram ao G7 defendendo maior coordenação internacional em um cenário marcado por disputas geopolíticas e transformações aceleradas da economia global.