A tentativa de Daniel Vorcaro de fechar um acordo de delação premiada sofreu novo revés. Depois de a Polícia Federal rejeitar pela segunda vez a proposta apresentada pelo fundador do Banco Master, a Procuradoria-Geral da República também recusou a colaboração, em decisão comunicada ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
A rejeição muda o centro da disputa. Sem acordo homologado, volta às mãos de Mendonça a definição sobre o local em que Vorcaro seguirá preso preventivamente. A Polícia Federal já pediu que ele deixe a carceragem da Superintendência da PF no Distrito Federal, onde estava por causa das tratativas de colaboração. O destino ainda depende de decisão do STF, mas a possibilidade de transferência para um estabelecimento prisional comum passou a compor o desfecho imediato do caso.
As investigações da Operação Compliance Zero apuram fraudes no sistema financeiro nacional envolvendo o Banco Master e a tentativa de compra da instituição pelo Banco de Brasília (BRB), banco público ligado ao Governo do Distrito Federal. A apuração já levou à prisão de executivos, operadores, agentes públicos e pessoas próximas a Vorcaro, além de revelar conexões políticas e empresariais que ampliaram o alcance do caso.
Delação sem provas suficientes
O principal motivo para a recusa foi a avaliação de que a proposta não apresentava elementos novos, provas consistentes ou compromisso suficiente de devolução de valores. Na primeira tentativa, a PF já havia considerado que Vorcaro não trouxe novidades relevantes em relação ao material apreendido e não assumiu formalmente a prática de crimes.
A segunda proposta, apresentada pela defesa no início de junho, buscou ampliar o alcance político da colaboração. A estratégia era incluir episódios envolvendo autoridades e personagens com foro ou influência em Brasília, em uma tentativa de demonstrar que Vorcaro teria informações relevantes para destravar o acordo.
Ainda assim, a avaliação de investigadores e da PGR foi de que as menções feitas pelo ex-controlador do Master não superaram as fragilidades apontadas desde o início das tratativas. Sem documentação, corroboração robusta e devolução de valores em patamar considerado compatível com o tamanho do caso, a colaboração perdeu força.
O peso político do caso Master
Entre os episódios que ganharam repercussão estão as relações de Vorcaro com figuras políticas como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ciro foi alvo da quinta fase da Operação Compliance Zero. Segundo a PF, ele é suspeito de ter atuado politicamente em favor de interesses ligados ao Banco Master. A investigação também trata da chamada Emenda Master, proposta relacionada ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que teria sido elaborada por assessores do banco e apresentada no Congresso como se fosse de autoria parlamentar.
No caso de Flávio Bolsonaro, a investigação ganhou repercussão após a divulgação de áudios em que o senador aparece tratando com Vorcaro do financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro. Flávio admitiu a veracidade das conversas, mas negou irregularidades e afirmou que os recursos seriam privados e destinados ao custeio da obra.
Essas menções ampliaram a dimensão política do caso, mas não foram suficientes para convencer PF e PGR a aceitar a colaboração. Para uma delação ser validada, não basta citar autoridades ou apontar possíveis conexões. É preciso apresentar provas, documentos, caminhos financeiros e informações capazes de produzir resultados concretos para a investigação.
Fraude bilionária e pressão por ressarcimento
A Operação Compliance Zero completa sete meses com uma dimensão financeira rara no sistema bancário brasileiro. A investigação começou a partir de indícios de fabricação de carteiras de crédito sem lastro financeiro e de operações envolvendo o Banco Master e o BRB.
Desde novembro de 2025, quando foi deflagrada a primeira fase da operação, o caso levou ao bloqueio de dezenas de bilhões de reais em bens de investigados. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial de instituições do conglomerado Master, e o Fundo Garantidor de Créditos passou a arcar com ressarcimentos bilionários a clientes afetados pela quebra de instituições ligadas ao grupo.
O tamanho do prejuízo explica a resistência de investigadores em aceitar um acordo sem contrapartidas consideradas suficientes. Nas tratativas, PF e PGR cobravam que Vorcaro apresentasse informações verificáveis, assumisse responsabilidades e indicasse caminhos efetivos para a recuperação de valores.
STF decidirá próximos passos
Vorcaro está preso preventivamente desde março, quando foi alvo da terceira fase da Operação Compliance Zero. A transferência para a Superintendência da PF em Brasília foi autorizada em meio às negociações de colaboração, para facilitar reuniões entre defesa, investigadores e Ministério Público.
Com a rejeição da proposta pela PF e pela PGR, esse arranjo perde justificativa. A Polícia Federal já pediu ao Supremo que o ex-banqueiro deixe a unidade. André Mendonça pediu manifestação da PGR sobre o tema e deverá decidir se Vorcaro permanecerá na carceragem da PF ou será encaminhado a outro estabelecimento prisional.
A negativa não impede que a defesa apresente nova proposta no futuro. Pela lei, uma colaboração pode ser retomada se o investigado apresentar fatos novos, provas relevantes e compromissos capazes de alterar o curso da investigação. Até aqui, porém, a tentativa de Vorcaro de transformar sua posição no caso em benefício judicial esbarrou na avaliação de que suas declarações não entregaram o que prometiam.
A Operação Compliance Zero segue em curso, com parte das investigações sob sigilo e ramificações no STF. O caso combina suspeitas de fraude bancária, corrupção, lavagem de dinheiro, interferência política e uso de estruturas financeiras complexas. A próxima decisão de Mendonça deverá tratar do destino prisional de Vorcaro, enquanto PF e PGR mantêm as investigações sobre o alcance do esquema atribuído ao Banco Master.