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“O Brasil precisa modernizar suas oportunidades”, alerta PNUD sobre desenvolvimento humano recorde

IDHM do Brasil chegou ao recorde histórico de 0,805 em 2024 e colocou o país, pela primeira vez, no grupo de desenvolvimento humano muito alto, segundo o Radar IDHM 2024, divulgado pelo PNUD, em parceria com o IBGE e a Fundação João Pinheiro. O avanço foi impulsionado principalmente por educação, saúde e políticas de proteção social, mas o relatório alerta que a renda segue como a principal dimensão da desigualdade brasileira.

O resultado recoloca no centro do debate público o papel das políticas sociais na transformação da base social brasileira. A série analisada pelo relatório, de 2012 a 2024, mostra que o IDHM do país passou de 0,744 para 0,805. O avanço foi puxado principalmente pela educação, que saltou de 0,679 para 0,798 no período, e pela longevidade, dimensão associada à saúde, que chegou a 0,860.

Mais do que um marco estatístico, o dado ajuda a medir o efeito acumulado de políticas públicas de inclusão, permanência escolar, saúde, renda e proteção social. Programas como o Bolsa Família, ao combinar transferência de renda com frequência escolar e vacinação, contribuíram para manter crianças na escola, reduzir o trabalho infantil e ampliar oportunidades para famílias historicamente excluídas.

A renda, no entanto, permanece como a dimensão mais frágil do desenvolvimento humano brasileiro. O próprio relatório mostra que o país avançou de forma significativa em educação e saúde, mas ainda enfrenta desigualdades persistentes no mercado de trabalho, na remuneração e na distribuição da riqueza.

Proteção social e “portas de saída”

O debate sobre transferência de renda voltou ao centro da agenda pública nas últimas semanas, após críticas feitas pelo apresentador Luciano Huck ao Bolsa Família e à suposta falta de estímulos para que famílias deixem o programa. A discussão atualizada pelos dados do PNUD aponta em outra direção: a autonomia das famílias não nasce do corte da proteção social, mas da estrutura que permite acesso à escola, à saúde, à renda e a oportunidades reais de trabalho.

Ao exigir que as famílias mantenham os filhos na escola e com a vacinação em dia, a política de transferência de renda ajudou a produzir efeitos de longo prazo. A primeira geração de crianças protegidas por esse sistema chegou ao ensino básico e médio em melhores condições, com impacto direto nos indicadores educacionais.

Esse é um dos pontos centrais do Radar IDHM. A proteção social não aparece apenas como resposta emergencial à pobreza, mas como parte de uma engrenagem capaz de alterar trajetórias familiares, reduzir exclusões históricas e ampliar capacidades individuais e coletivas.

Educação, juventude e trabalho digno

Para entender o tamanho da mudança, basta lembrar que, há três décadas, o Brasil estava na faixa de baixo desenvolvimento humano. Agora, ao alcançar o patamar de muito alto desenvolvimento, o país entra em uma etapa mais complexa. O desafio deixa de ser apenas garantir capacidades básicas e passa a envolver a criação de oportunidades para uma juventude mais escolarizada, mais conectada e mais exigente em relação ao futuro.

Para Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do PNUD no Brasil e uma das responsáveis pela análise dos indicadores, o país chegou a uma encruzilhada histórica. As velhas métricas econômicas já não bastam para medir as expectativas da nova geração.

“Uma matriz ampla de desenvolvimento humano para o século XXI precisa ser ancorada em métricas orientadas para o futuro, métricas que coloquem os jovens, seus sonhos e suas escolhas, no centro. Isso implica reinventar o mundo do trabalho para abraçar o bem-estar das gerações futuras, mas também criar indicadores que capturem o que importa para os jovens: perspectivas de mobilidade, acesso à tecnologia, segurança climática, participação democrática. Sem uma agenda de futuro protagonizada pelos jovens, o país corre o risco de modernizar sua economia sem modernizar suas oportunidades”, afirma Betina.

O diagnóstico muda o foco da discussão. A questão não é forçar uma saída administrativa das famílias dos programas sociais, mas garantir que os jovens que estudaram tenham acesso a trabalho digno, renda estável e possibilidades concretas de mobilidade. Sem isso, a melhora educacional pode não se converter em autonomia econômica.

Esse novo horizonte precisa caminhar junto com uma rede de proteção que já demonstrou ir além do dinheiro transferido diretamente às famílias. O Benefício de Prestação Continuada (BPC), por exemplo, garante um salário mínimo mensal a idosos e pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade. Programas de habitação, saneamento, agricultura familiar e alimentação escolar também compõem esse sistema de proteção e desenvolvimento.

No campo, políticas como o Pronaf e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) ajudam a conectar produção local, renda para agricultores familiares e comida de qualidade nas escolas públicas. Nas cidades e periferias, programas de moradia, abastecimento de água e saneamento reduzem vulnerabilidades e melhoram condições básicas de vida.

Norte, Nordeste e desigualdades históricas

O avanço do IDHM também redesenha a geografia do desenvolvimento brasileiro. Segundo o PNUD, regiões metropolitanas do Norte e do Nordeste passaram a puxar os índices nacionais para cima, rompendo a lógica histórica de concentração dos melhores indicadores no eixo Sul-Sudeste.

No Nordeste, sete regiões metropolitanas alcançaram patamar de desenvolvimento humano muito alto: Natal, Aracaju, Grande Teresina, Recife, São Luís, Salvador e João Pessoa. O resultado indica que políticas públicas de renda, educação e saúde têm impacto direto na economia local, especialmente quando alcançam territórios que por décadas ficaram à margem do desenvolvimento.

O impacto positivo foi particularmente relevante entre a população de renda mais baixa e entre famílias negras. O relatório mostra que a educação foi o principal motor da melhora dos indicadores da população negra entre 2012 e 2024. Para o PNUD, incluir a população negra e as mulheres no centro das políticas públicas é condição para que o país sustente um novo ciclo de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, o avanço não elimina desigualdades estruturais. Quando ajustado à desigualdade, o IDHM brasileiro cai de 0,805 para 0,641. O dado revela que a média nacional esconde distâncias profundas entre regiões, grupos raciais, homens e mulheres.

A renda continua sendo o principal ponto de atenção. Betina Barbosa observa que essa dimensão concentra as maiores perdas quando o desenvolvimento humano é ajustado pela desigualdade.

“A dimensão renda é a mais desigual: o IDHMAD Renda registra uma perda pela desigualdade de 33,1%, bem maior que a de longevidade (10,3%) ou educação (15,9%). O relatório atribui essa desigualdade persistente a uma herança estrutural, onde o Brasil modernizou sua economia sem democratizar plenamente o acesso à riqueza e à cidadania, como alertava Darcy Ribeiro.”

Um novo ciclo de desenvolvimento

A desigualdade de renda aparece também nas diferenças enfrentadas por mulheres e negros no mercado de trabalho, mesmo quando têm escolaridade equivalente à de homens brancos. O país estuda mais, mas o mercado ainda não devolve esse esforço em salário, estabilidade e oportunidades na mesma proporção.

Os anos da pandemia de covid-19 também deixaram marcas nos indicadores. O relatório mostra que houve queda no desenvolvimento humano em 2020 e 2021, com efeitos sobre longevidade, renda e educação. Para Betina, a demora nas respostas públicas e o negacionismo agravaram os impactos da crise sanitária sobre os mais vulneráveis.

A superação desse quadro, segundo ela, depende de escolhas coletivas que envolvem governo, empresas, sociedade civil, universidades, movimentos sociais e organizações territoriais.

“O desenvolvimento humano é resultado de escolhas coletivas, não apenas governamentais. Empresas têm papel central ao adotar práticas de equidade racial e de gênero em contratação e remuneração, já que a maior desigualdade registrada é exatamente na renda do trabalho. ONGs e movimentos sociais são fundamentais para pressionar por políticas preditivas e para levar serviços onde o Estado ainda não chega com efetividade”, comenta Betina.

O balanço das últimas décadas deixa claro que o futuro do país depende de enfrentar três grandes desafios apontados pelo organismo internacional: a aceleração tecnológica e digital, que pode aprofundar exclusões se não vier acompanhada de inclusão; as transformações no mundo do trabalho, que exigem novas formas de proteção para os mais jovens; e os riscos climáticos, que atingem com mais força as populações mais pobres.

Betina conclui o diagnóstico com um alerta sobre a necessidade de renovar as bases do crescimento brasileiro. “Avançar além das capacidades básicas requer uma nova agenda capaz de impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento para o país. Este necessariamente precisa ser ancorado em valores de sustentabilidade, democracia e segurança humana.”

O recorde do IDHM mostra que a proteção social não é um obstáculo ao desenvolvimento. Ao contrário, os dados indicam que transferência de renda, saúde, educação, moradia, saneamento e inclusão produtiva formam uma base concreta para reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. O desafio agora é transformar esse patamar histórico em renda, trabalho digno e futuro para quem ainda vive distante da média nacional.