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Poesia: Quem mandou ser gente?

Créditos: Arthur Luz (Jornal A Verdade)

O Jornal A Verdade publica mais uma poesia enviada por brigadistas, leitores e apoiadores da nossa imprensa

Sofia Martins | São Paulo


Quem mandou ser gente?

Tudo que me compõe é um reflexo de quem já passou por mim

 Meu andar é um mosaico das ruas e das lutas que já atravessei.

 

Às vezes reflito:

“será que sobra alguma coisa que seja só minha?”

Demorou pra eu perceber que sim.

 

Sobra a honestidade.

Sobra a vontade de mudar a realidade.

Sobra a coragem de ir pra luta sabendo que talvez não volte pra casa.

 

Sobra o medo de perder mais alguém.

 

Perdi amigos dentro de pino

Perdi amigos dentro de viatura

Pra maldita bala que não pergunta nada

Pro pó que não pergunta se você ainda quer viver

Pra farda que não quer saber de você.

 

Mas eu sigo.

 

Sigo por quem não pôde lutar por si.

Sigo porque no Natal ainda tem gente com fome.

Sigo porque tem gente que não vê mais sentido em viver.

 

Pra além disso

 

Sigo porque ainda vejo esperança nas manhãs de sol

no sorriso das crianças

e nas bandeiras que nosso povo levanta.

 

A melancolia que nos persegue aparece quando perdemos mais um,

vira peso nas costas e nó na garganta

que dificulta os dias que seguem

mas precisamos seguir lutando pra evitar a perda de outro.

 

A melancolia é companheira das lutas.

Gente sem melancolia é gente vazia.

Poesia sem melancolia é texto desocupado, sem emoção

E a luta me ensinou que espaço vazio

Vira ocupação.

 

Me ocupo lutando.

Me ocupo ocupando.

Tamo ocupado com a construção

de uma sociedade sem opressão.

 

“Teu sangue será adubo

Tua alma já é semente”

E eu quero ser árvore que abriga,

pássaro que voa,

bloco que constroem moradia.

 

Vale a pena

Mesmo a melancolia apertando o peito

Mesmo o vazio que tenta invadir as vezes

 

Vale a pena porque a gente junto é uma coisa só

coisa que ainda grita

coisa que ainda sente.

 

Sente que ainda vale a pena manter viva a memória dos nossos heróis

E a esperança de um novo modo de vida.

 

Vale

Vale cada gás que a gente engole junto

Vale a memória de cada amigo que a farda levou

 

Vale porque a gente transforma em faixa

em luta

em nome de ocupação.

 

Quem mandou ser gente foi a vida

Quem mandou resistir foi o amor

Quem mandou lutar foi a esperança

 

Pra que haja fraternidade

Pra que haja uma nova realidade.