
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada”. A máxima do Barão de Itararé diz respeito a muitas coisas no mundo atual e em vista da Copa do Mundo de 2026, só confirma o que todos já esperavam sobre a política do governo Donald Trump na gestão do torneio.
Diferentemente das outras sedes, Canadá e México, os Estados Unidos têm acumulado problemas com episódios explícitos de xenofobia, racismo e abordagens humilhantes no processo de imigração. O principal caso é relacionado à delegação do Irã, que tem enfrentado obstáculos enormes para poder entrar em campo.
Sem contar todo o clima envolvido na disputa e a proibição de permanecer nos EUA após as partidas, a gestão Trump tem insistido em criar obstáculos para dificultar a preparação iraniana. Depois do jogo contra a Nova Zelândia, que terminou 2 a 2 nesta segunda-feira (15), o jogador Taremi e o auxiliar técnico Saeed Al-Hawie foram retidos no aeroporto de Los Angeles por questões documentais, o que atrasou a volta da equipe para Tijuana, no México, onde está hospedada.
Além de atrapalhar a recuperação dos jogadores, a medida que os expulsa do país logo em seguida dos confrontos demonstra a humilhação a que Trump submete delegações estrangeiras.
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Os jogadores reclamaram diretamente para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, a falta de suporte da entidade. O mandatário esteve no vestiário iraniano após o jogo para demonstrar solidariedade, no entanto, voltou com uma série de queixas o desabafo do técnico da seleção, Amir Ghalenoei.
“Nós deveríamos ter vindo para Los Angeles duas noites antes do jogo, mas não nos permitiram. Também deveríamos passar a noite aqui para nos recuperarmos e retornar (na terça-feira) na hora do almoço, mas, mais uma vez, não nos permitiram. Sinceramente, não faço ideia do motivo. Ninguém nos explicou. Acredito que talvez a nossa equipe seja a mais oprimida de toda a Copa do Mundo”, lamentou o técnico do Irã.
Xenofobia, racismo e abordagens humilhantes
Como dito, não era possível esperar nada diferente de Trump. Desde o início do evento, os episódios de revistas abusivas e interrogatórios prolongados têm se avolumado e persistido. Com a movimentação não só de delegações, mas também de jornalistas e torcedores, as polêmicas têm permanecido e devem voltar a crescer até o final da competição, em 19 de julho.
As barreiras impostas ao Irã, que também teve ingressos revogados, interrogatórios de atletas e vistos negados para membros da comissão técnica e da Federação de Futebol, são alguns dos fatos que mais chamam a atenção até agora.
Porém mais situações foram registradas. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve a entrada nos EUA negada e foi deportado. O atacante iraquiano Aymen Hussein foi submetido a um interrogatório de 7 horas para entrar na “terra da liberdade”.
Por sua vez, o atacante Breel Embolo, da Suíça, teve que se juntar à seleção tardiamente, pois teve o visto inicialmente negado. A situação só foi regularizada depois da repercussão do caso. Situação similar aconteceu com Woodensky Pierre, do Haiti.
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Outro caso de grande repercussão foi a revista da Federação Senegalesa de Futebol, ainda na pista de pouso do Aeroporto de Raleigh, na Carolina do Norte. Dirigentes apontaram que o procedimento aconteceu dentro da normalidade e estava previsto, pois o voo era fretado. Porém, as imagens são consideradas degradantes pelo caráter vexatório em que atletas foram submetidos.

Como comparação, ninguém viu grandes estrelas das principais seleções em condições similares.
Dias antes do torneio, durante amistoso preparatório, a seleção do Uzbequistão passou por revista corporal, inspeção de bagagens e uso de cães farejadores, em Nova York. O Ministério das Relações Exteriores do país pediu explicações oficiais para entender o protocolo pelo qual os jogadores da equipe adversária, a Holanda, não foram submetidos.
Nesta segunda-feira (15), a delegação do Uruguai teve bagagens revistadas antes da partida em que empatou em 1 a 1 com a Arábia Saudita.
Ainda que as abordagens sejam ostensivas, um padrão se revelou, pois os casos têm ocorrido com seleções e participantes da Copa de origem asiática, africana e latino-americana, bem como atletas negros de origens diversas, como Woodensky Pierre e Embolo, ainda que este último seja cidadão suíço, mas tendo nascido em Camarões.
Imprensa
Assim como torcedores de diferentes nacionalidades, centenas de profissionais de imprensa credenciados pela Fifa, especialmente oriundos da África e do Irã, também tiveram vistos revogados ou negados.
Já um caso que envolve racismo estrutural, arraigado em muitas culturas ocidentais, ganhou repercussão com o relato da jornalista brasileira, Karine Alves, que trabalha para a TV Globo.
A comunicadora negra foi constrangida ao passar por revista no seu cabelo por agentes de fronteira. Ela lamentou a situação e fez questão de dar o depoimento de forma pública para denunciar o procedimento a que tantas mulheres negras são submetidas.
Intimidação migratória
As sinalizações do governo Trump sobre a realização não eram boas. O clima de intimidação migratória esteve presente nos discursos sobre o torneio e ficou mais evidente com o alerta para que torcedores “não ultrapassem o prazo do visto”.
Essa ameaça da Casa Branca foi feita por integrantes da Força-Tarefa da Copa do Mundo de 2026 e reforçada pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance.
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O temor criado, incompatível com a hospitalidade que se espera de um país anfitrião, é intensificado pelas ações do ICE (polícia migratória) que mantém sua atuação durante o megaevento. Um recente relatório divulgado pela Human Rights Soccer Alliance revelou que o ICE utilizou jogos de futebol para prender imigrantes em 2025.
‘El Loco’ e o protesto silencioso
O técnico da seleção do Uruguai, o argentino Marcelo Bielsa, virou manchete por sua postura nos vídeos de promoção dos jogos feitos pela Fifa. Ele apareceu olhando para o chão durante o clipe em que se apresentam os técnicos e os atletas antes do jogo.
“Não tenho que dar explicação. Eles tiraram a foto. Não sou um modelo”, afirmou Bielsa sobre o vídeo.
Marcelo Bielsa, técnico do Uruguai, olhando para baixo durante a sessão de fotos oficiais da FIFA.
Bielsa repudiou repetidamente a Copa do Mundo nos Estados Unidos durante o ciclo para a competição.
— Central do Braga (@CentralDoBrega) June 15, 2026
Conhecido como ‘El Loco’, o treinador ganhou apoio entre os que contestam as ações da Fifa. Ao longo de sua trajetória, Bielsa criticou o uso político da Copa e os problemas estruturais relacionados às condições de jogo e à saúde dos atletas, decorrentes do excesso de partidas e deslocamentos longos.
Dessa maneira, a mensagem passada por ele, com um simples gesto de olhar para o chão em um momento em que muitos sorriem e fazem sinais, tem ainda mais sentido em uma Copa marcada pela subserviência de Infantino ao presidente dos EUA. Assim, muitos torcedores enxergam na figura de ‘El Loco’ um contraponto crítico à mercantilização do futebol.
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