
O alcance do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC) ultrapassa as fronteiras brasileiras. Um relatório publicado em junho de 2026 pela China International Contractors Association (CHINCA) e pela seguradora estatal China Export and Credit Insurance Corporation (Sinosure) coloca o PAC como o principal impulsionador dos investimentos em infraestrutura brasileiros e como fator decisivo para o país liderar o Índice de Desenvolvimento de Infraestrutura de Países de Língua Portuguesa (BRIDi).
O levantamento, lançado em junho, durante o 17º Fórum Internacional de Investimento e Construção de Infraestrutura (IIICF) em Macau, analisa nove países lusófonos e classifica o Brasil na primeira posição com 129 pontos — alta de um ponto em relação a 2025. O documento menciona diretamente o Novo PAC ao explicar a trajetória ascendente do país, destacando a expansão dos investimentos em energia elétrica, transportes e infraestrutura digital como vetores centrais do crescimento.
Outro aspecto destacado pelo relatório, e que também diferencia o Brasil entre a comunidade de países lusófonos, é o fato de o Novo PAC dar maior autonomia nacional à orientação dos investimentos e trazer maior proteção contra oscilações externas resultantes de ciclos internacionais.
Em entrevista exclusiva ao portal Vermelho, direto de Macau, o professor Evandro Menezes de Carvalho, jurista e especialista em relações internacionais, explicou que a relação chinesa com os países de língua portuguesa no campo da infraestrutura varia de acordo com a realidade fiscal de cada um, e que o Brasil se destaca justamente por sua solidez interna. “A relação da China com os países de língua portuguesa no que diz respeito aos investimentos para a infraestrutura varia justamente em função não só da capacidade econômica do país que recebe os investimentos chineses, que atraem os investimentos chineses, mas também da capacidade, vamos dizer assim, de executar os projetos de infraestrutura, inclusive com recursos nacionais, inclusive recursos humanos. Eu acho que esse é um diferencial muito grande para o Brasil”, apontou o professor.
Para o especialista, o arranjo institucional brasileiro oferece parâmetros que vão muito além de garantias jurídicas abstratas. “Então, não se trata apenas de ter projetos de longo prazo, estruturantes, com uma boa estrutura regulatória, mas também a capacidade do país, no caso o Brasil, de executar, por ter mão de obra qualificada em todos os níveis de uma obra de infraestrutura. Então, eu acho que isso é um diferencial muito grande que deve ser levado em conta”, completou Evandro, sublinhando que o Brasil oferece confiabilidade e perenidade pela robustez de sua estrutura de financiamento e pela capacidade material de execução das obras.
O secretário especial do Novo PAC da Casa Civil da Presidência da República, Roberto Garibe, compartilhou opinião semelhante no portal do governo: “O Novo PAC reafirma o compromisso desta gestão com uma infraestrutura moderna, integrada e orientada para o desenvolvimento do país. O reconhecimento do Brasil como líder em infraestrutura entre os países de língua portuguesa demonstra que investimentos planejados, executados com continuidade e voltados para resultados concretos fortalecem nossa capacidade de crescer, atrair investimentos e gerar oportunidades para a população”.
Transição energética e mobilidade ganham destaque
A transição energética está no centro da demanda projetada pelo BRIDi para o Brasil em 2026. O índice registra crescimento esperado de 23,4% na capacidade instalada de energia eólica e solar em relação ao ano anterior. Dois projetos lideram esse avanço: o complexo fotovoltaico Rui Barbosa, de 400 MW, e o parque eólico Serra do Assuruá, de 846 MW, ambos na Bahia. Juntos, as entregas somam 1.246 MW de energia limpa chegando à rede elétrica.
O relatório aponta ainda que o Novo PAC impulsionou a construção de corredores de transmissão de alta tensão entre o Nordeste – maior produtor de energia renovável do país – e os centros de consumo do Sudeste. A participação de fontes renováveis não hídricas na matriz elétrica deve chegar a 39% em 2026, ante 32% em 2024.
Na mobilidade, o programa sustenta uma carteira robusta. São Paulo bate recorde histórico em investimentos em trilhos, com R$ 79,9 bilhões aportados. A ferrovia intercidades São Paulo – Campinas entrou em planejamento com investimento estruturado para o traçado ferroviário que soma investimentos estimados em R$ 14,2 bilhões. Oito licitações ferroviárias federais foram lançadas com traçados que somam 9 mil quilômetros e R$ 140 bilhões em investimento direto. Nos portos, nove projetos de modernização foram aprovados com R$ 5,1 bilhões.
5G e data centers verdes transformam a base produtiva
O BRIDi também destaca a expansão do 5G para o interior do Brasil como parte do esforço do Novo PAC em integrar infraestrutura física e digital. O relatório aponta a chegada das redes ao Centro-Oeste agrícola como salto qualitativo — conectividade que viabiliza automação, monitoramento remoto e redução de perdas na cadeia de abastecimento de alimentos.
A implantação de grandes data centers verdes em São Paulo e Fortaleza, alimentados diretamente por energia solar, é citada como modelo de integração entre infraestrutura limpa e transformação digital. O documento aponta essa fusão entre capacidade computacional e energia renovável como diferencial competitivo do Brasil na América Latina e como reflexo direto das diretrizes do Novo PAC para o setor.
No ranking geral do índice BRIDi, o Brasil consolidou sua liderança isolada ao atingir os 129 pontos. O que garantiu o topo da tabela ao mercado brasileiro foi o seu desempenho recorde em categorias específicas do relatório: o subíndice de demanda – que mede o volume de novas obras prontas para sair do papel -, onde o país alcançou 161 pontos, e o de temperatura de mercado, que marcou 133 pontos, sinalizando um ambiente altamente aquecido para os investidores.
Ranking e contraste com outros países lusófonos
O segundo lugar do ranking ficou com Moçambique (118 pontos), impulsionado por projetos de energia e pelo apoio de instituições financeiras multilaterais. Angola aparece em terceiro (115 pontos), com avanços no corredor ferroviário de Lobito e na expansão solar no sul do país.
O relatório é preciso ao distinguir as trajetórias: enquanto os demais países lusófonos dependem de financiamento externo e parcerias com empreiteiras estrangeiras para viabilizar suas carteiras, o Brasil conta com uma política pública própria de infraestrutura, com horizonte de longo prazo e capacidade de execução contínua. Para associações como a CHINCA, que orienta investimentos de construtoras em mais de 70 países, esse é exatamente o tipo de sinal que diferencia um mercado estruturado de um mercado dependente de ciclos externos.
O professor Evandro Carvalho adverte, contudo, que o Brasil precisa recuperar o terreno perdido na cooperação com os parceiros africanos, espaço que ruiu após o desmonte da engenharia nacional. Ao analisar a capacidade do Brasil de estabelecer parcerias com os demais países de língua portuguesa, em especial os países da África de língua portuguesa, Evandro afirma que “o Brasil já foi bastante presente e ativo nesse quesito com as suas empreiteiras, investimentos, que a Lava Jato quebrou. E isso acabou fazendo com que, obviamente, a China ganhasse espaço, porque os concorrentes brasileiros para a China, na África, já não existiam mais. A Lava Jato quebrou essas empresas. Isso foi um crime contra a economia nacional. Porque combater a corrupção, tudo bem. Mas combater a corrupção e destruir a economia do país, aí não”, criticou o professor.
O que o reconhecimento representa nas relações Brasil-China
Para analistas de relações econômicas sino-brasileiras, o endosso de entidades chinesas centrais como a CHINCA e a Sinosure reforça o Brasil como parceiro confiável e estruturado no contexto da cooperação Sul-Sul. O reconhecimento valida uma estratégia de longo prazo que combina planejamento estatal com atração de investimentos, especialmente em setores prioritários para a China, como energias renováveis, transmissão e infraestrutura digital.
Diferentemente de projetos em vários países africanos lusófonos ou em economias emergentes da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), onde o financiamento e a execução chineses frequentemente assumem protagonismo maior em contextos de menor capacidade fiscal doméstica, o caso brasileiro permite uma parceria mais equilibrada. O Novo PAC oferece carteira estruturada e demanda sustentada, atraindo capital e tecnologia chineses de forma complementar à política pública nacional.
Nesse sentido, Evandro defende uma atuação conjunta estratégica. “Então, esse é um outro ponto também que vale a pena refletir, que é a capacidade hoje do Brasil de também, até mesmo em parceria com a China, desenvolver projetos de infraestrutura nos países africanos de língua portuguesa. Essa cooperação no marco da comunidade dos países de língua portuguesa é muito importante e devemos olhar com muita atenção. Até porque a própria China criou o Fórum de Macau com esse objetivo, de estabelecer um relacionamento dela, China, com os países de língua portuguesa. E o Brasil, do ponto de vista econômico, é o país mais importante de todos os países da comunidade, dos países de língua portuguesa, CPLP”, conclui.
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